Mesmo sem querer, Gabeira volta a polemizar com nudez em Ipanema

Jornalista postou a foto de um homem nu que teria sido assaltado no bairro nobre da Zona Sul carioca e imediatamente internautas relembraram a icônica tanga de crochê do início dos anos 80.

No início dos anos 80, com o Brasil ainda engatinhando para se livrar da ditadura, o eterno subversivo Fernando Gabeira chocou ao aparecer na Praia de Ipanema, epicentro da contracultura carioca, usando uma tanga feminina de crochê rosa. Gabeira jamais se livraria da peça íntima – emprestada pela prima e também jornalista Leda Nagle -, que vira e mexe volta a ser compartilhada por aí. É justamente o que aconteceu neste domingo (17), mais de 40 anos depois, quando Gabeira, hoje um respeitável senhor e ex-deputado, compartilhou em suas redes sociais mais uma imagem envolvendo Ipanema e a nudez. Mas, que, infelizmente, em nada remete à rebeldia daquela época, mas sim à triste realidade da Ipanema de 2025.

A imagem postada por Gabeira mostra um homem nu, em frente a um restaurante, pedindo ajuda após ser assaltado, segundo apuração do próprio Gabeira. A foto, feita por Cadu Tavares, rapidamente bombou (outro termo moderno) tanto quanto a polêmica tanga de crochê dos longínquos anos 80.

Não demorou para que os seguidores rapidamente associassem a imagem de hoje com a de Gabeira na praia, até pela semelhança física entre os dois personagens.  

“Oferece a tanga de crochê pra ele!”, comentou um gaiato, que foi rapidamente respondido por outros seguidores.

O autor da foto, Cadu Tavares, também se manifestou e explicou o contexto em que a imagem foi feita e deu mais detalhes sobre o homem em questão, que envolveu outras situações graves.

“Para dar um contexto maior do que eu presenciei: vi este homem caminhando pela Vinicius de Moraes pedindo ajuda nos bares e restaurantes, dizendo que havia sido roubado. Eu tive a impressão de que ele estava alterado. A rua estava cheia e muitos reagiram à cena. Alguns debochando, outros xingando, algumas senhoras mudavam de calçada com medo. E assim ele foi caminhando até a Visconde de Pirajá, causando alvoroço por onde passava. Até que ao chegar em frente à igreja Nossa Senhora da Paz, foi alcançado por dois seguranças que o perseguiam e foi derrubado com uma rasteira e sem oferecer qualquer resistência foi violentamente agredido com socos e pontapés, enquanto gritava que havia sido roubado. Então um deles o imobilizou com um mata-leão e nesse momento uma viatura da PM parou, vestiu o homem com uma bermuda e o levou na viatura”, explicou Cadu.

Gabeira e a tanga que chocou a ditadura

Conhecido hoje pela postura tranquila na GloboNews, Fernando Gabeira foi, durante a ditadura militar, um dos nomes mais controversos da cena política e cultural brasileira. Jornalista, escritor, militante e ex-guerrilheiro, Gabeira participou de episódios marcantes da resistência ao regime, como o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick em 1969. Preso e ferido em confronto com policiais, foi libertado pouco depois e partiu para o exílio, passando por países como Argélia, Suécia e Itália.

De volta ao Brasil em 1979, beneficiado pela Lei da Anistia, Gabeira retomou sua carreira jornalística e mergulhou em debates que uniam política, comportamento e costumes. Foi nesse contexto que um episódio aparentemente banal se transformou em marco da história cultural do país. Ao decidir ir à praia sem possuir uma sunga, Gabeira pegou emprestada uma tanga cavada de sua prima, a jornalista Leda Nagle. A cena, em plena década de 1980, escandalizou os militares no poder e a sociedade conservadora da época.

Gabeira, com a icônica tanga rosa, se refresca bebendo um mate na Praia de Ipanema

O que parecia apenas um gesto irreverente virou símbolo de contestação. Gabeira passou a adotar tangas ainda menores, chamando atenção nas praias da zona sul carioca. Para além do visual ousado, o gesto representava uma ruptura com os padrões de masculinidade tradicionais e se conectava a uma busca coletiva por liberdade sexual, num período em que o país ainda vivia sob forte vigilância moral e política.

Em entrevistas posteriores, o próprio Gabeira relativizou a polêmica: contou que, acostumado a frequentar praias de nudismo na Grécia durante o exílio, não imaginava que a tanga pudesse gerar tamanho escândalo. Mas o episódio acabou se consolidando como um divisor de águas, aproximando o ex-guerrilheiro de pautas ligadas à liberdade individual, ao movimento LGBT+ e à luta ambiental.

Com o tempo, Gabeira construiu uma sólida carreira política: foi deputado federal por quatro mandatos, disputou cargos majoritários como a Prefeitura e o Governo do Rio, e até a Presidência da República. Nos anos 2000, ganhou espaço como comentarista de política na televisão, onde hoje, aos 81 anos, é visto como uma das vozes mais experientes do jornalismo brasileiro.

Gabeira conversando com amigas na Praia de Ipanema

Ainda que as décadas tenham passado, a “tanga de Gabeira” permanece no imaginário coletivo como um gesto emblemático: a prova de que, em meio à repressão, até uma peça de roupa podia se tornar símbolo de resistência e liberdade.

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