Mensagens obtidas pela polícia ligam Ciro Nogueira a investigados em esquema bilionário de combustíveis

Conversas mostram contatos com empresários denunciados, mas senador afirma não ter envolvimento com irregularidades

Um novo desdobramento da Operação Carbono Oculto, que apura um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis, revelou a existência de mensagens trocadas entre o senador Ciro Nogueira e empresários denunciados por participação no esquema. A informação foi veiculada por reportagem da revista piauí, a partir de material obtido por meio da quebra de sigilo telemático de investigados e que integra o relatório policial ao qual a revista teve acesso. Apesar das menções, o parlamentar não é alvo das investigações em curso.

As mensagens foram extraídas de dispositivos de Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa, empresários de Teresina acusados de adulteração de combustíveis, fraude em vendas, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. Segundo o Ministério Público, eles atuariam em associação com Roberto Leme, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, chamado de Primo.

Grupo de mensagens e encontros registrados

A investigação identificou um grupo de WhatsApp denominado “Ciro Vitor Haran Danilo”, do qual participavam o senador, os dois empresários e Victor Linhares de Paiva, conhecido como Vitinho, ex-assessor de Ciro e também denunciado.

As conversas eram realizadas com mensagens temporárias, mas capturas de tela feitas por um dos integrantes permitiram à polícia acessar parte do conteúdo.

Em uma das mensagens, enviada em novembro de 2023, o senador convidou os integrantes do grupo para um encontro em sua residência, em Teresina. Dias depois, novas trocas indicam avanços em negociações envolvendo a venda de uma rede de postos de combustíveis pertencente aos empresários.

Em outro momento, já em janeiro de 2024, o senador propôs um novo encontro. As mensagens indicam que os participantes chegaram a se reunir em um hotel, reforçando a existência de contatos presenciais.

Registros obtidos anteriormente também apontam que os envolvidos teriam se encontrado em fevereiro no Aeroporto de Brasília, de onde embarcaram juntos para Teresina.

Transações financeiras sob análise

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras indicam ainda movimentações financeiras envolvendo uma empresa ligada ao senador. Segundo o órgão, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis recebeu R$ 63,9 mil em 2025 de uma empresa criada por investigados do esquema.

Também foram identificadas transferências no sentido inverso, envolvendo uma empresa ligada aos empresários investigados.

De acordo com o Coaf, as operações ocorreram sem “aparente justificativa, vínculo ou compatibilidade da atividade econômica”.

Parte dos valores teria sido movimentada por meio de uma instituição financeira apontada nas investigações como relevante para o esquema de lavagem de dinheiro.

Intermediação e áudios reforçam suspeitas

A apuração aponta que Vitinho atuava como intermediário entre os empresários e o senador. Segundo o Ministério Público, ele teria recebido valores em dezembro de 2023 como “contraprestação pelos serviços de intermediação que viabilizaram a conexão entre os núcleos criminosos”.

Áudios atribuídos a Danillo Coelho e obtidos pela polícia também mencionam o nome do senador no contexto das negociações.

“Eu acho que é esse Beto, entendeu? Que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né? Que é o amigo do Ciro”, disse o empresário, segundo gravação. Em seguida, acrescenta: “Aí tu imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, né? Falando que a gente se conheceu lá, aí falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, aí a gente já chega lá com as portas abertas.”

Em outro trecho, há uma solicitação direta: “Vitinho, pede pro Sena fazer essa ligação aí.”

Ainda segundo os registros, os empresários acreditavam contar com apoio político para avançar nas negociações.

“Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente.”

Outros políticos citados

Além de Ciro Nogueira, o material menciona o deputado federal Júlio Arcoverde. Um áudio obtido pela investigação traz a seguinte fala: “Opa, deputado Júlio, tudo bom? É o Haran aqui. Quando você puder me dá uma ligada.”

Há também registros de transferências financeiras envolvendo empresas ligadas aos investigados e a campanha eleitoral do parlamentar em 2022.

Em outra gravação, o empresário menciona negociações relacionadas a emendas parlamentares: “O problema foi porque o prefeito cobrou os 130. Mesmo a gente já tendo pago para o Júlio, ele cobrou os 130 de novo. Aí a gente teve que dar para aquele fela da puta, aquele prefeito. Aí o Júlio tinha que devolver os 130. Aí ele não devolveu.”

Em seguida, afirma: “Esse negócio que a gente fez de compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de um trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente. Zero.”

Assim como o senador, o deputado não é investigado no inquérito.

Defesas negam irregularidades

Procurado, Ciro Nogueira não respondeu diretamente aos questionamentos enviados pela reportagem. Por meio de sua assessoria, declarou: “O senador Ciro Nogueira não é investigado no âmbito da operação mencionada e em nenhum outro inquérito em curso. Toda e qualquer tentativa de envolver o nome dele em escândalos acabará por ser frustrada, uma vez que o senador não tem envolvimento com ações ilícitas.”

O deputado Júlio Arcoverde também afirmou não ter conhecimento das menções ao seu nome e negou envolvimento com irregularidades.

Já o deputado Átila Lira confirmou ter realizado um pagamento ao senador, mas afirmou tratar-se de uma despesa pessoal. “Foi um remédio que o Ciro comprou para mim, para tratamento de emagrecimento”, disse. “Foi o Mounjaro. Foram uns 3 mil e 400 e poucos (reais)”, continuou. “O meu foi uma caneta só.”

Advogados dos empresários investigados afirmaram que o caso tramita sob sigilo e não comentaram o conteúdo das investigações. Outros citados não responderam até a publicação da reportagem.

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