A edição deste ano da Marcha para Jesus, realizada nesta quinta-feira (4) em São Paulo, ganhou contornos políticos ao reunir, pela primeira vez desde o agravamento da crise envolvendo o filme “Dark Horse”, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), informa o portal UOL. O encontro ocorre em um momento delicado para o pré-candidato à Presidência da República, que busca conter os efeitos do desgaste provocado pelas revelações sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro.
A participação conjunta dos dois líderes chama atenção não apenas pelo peso político que carregam dentro do campo conservador, mas também pelo contexto que antecede o evento. Nos últimos meses, aliados de Flávio vinham demonstrando desconforto com o que consideram um distanciamento de Tarcísio em meio à repercussão do caso envolvendo o financiamento do filme que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Marcha para Jesus, um dos maiores eventos evangélicos do país, tornou-se assim palco de uma demonstração pública de convivência política em um momento de forte atenção sobre os movimentos da direita rumo às eleições presidenciais.
Distanciamento após divulgação dos áudios
O reencontro ocorre após semanas marcadas por especulações sobre um esfriamento na relação entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
O governador vinha evitando aparições frequentes ao lado do senador desde a divulgação de áudios em que Flávio solicita recursos ao então banqueiro Daniel Vorcaro para custear o filme “Dark Horse”. A situação gerou repercussão política e colocou o senador no centro de uma nova controvérsia nacional.
A última agenda pública de destaque envolvendo ambos havia ocorrido em 15 de maio, durante o lançamento da pré-campanha do secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP), ao Senado. Na ocasião, uma entrevista coletiva prevista acabou não acontecendo.
Desde então, o episódio passou a influenciar as relações políticas dentro do próprio campo bolsonarista.
Nos bastidores, aliados de Flávio passaram a cobrar uma defesa mais contundente por parte de Tarcísio. O incômodo aumentou depois que o governador declarou publicamente que havia “muitas questões que ele mesmo precisa explicar” em relação ao caso.
Operação policial ampliou tensão
O reencontro na Marcha também acontece poucos dias após uma operação da Polícia Civil paulista que teve reflexos indiretos sobre o caso Dark Horse.
A investigação apura suspeitas de irregularidades em contratos firmados entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), responsável pelo fornecimento de pontos públicos de internet em áreas periféricas da capital.
A proprietária da entidade, Karina Ferreira Gama, também é dona da GoUP Entertainment, produtora responsável pelo filme sobre Jair Bolsonaro.
Os investigadores apuram, entre outras questões, se recursos relacionados aos contratos teriam sido utilizados para financiar a produção audiovisual.
A operação provocou reações imediatas no meio político. Flávio Bolsonaro afirmou que a investigação não tinha relação com o filme e declarou esperar que “parte” da polícia não estivesse sendo utilizada para “fins eleitoreiros”.
O prefeito paulistano Ricardo Nunes (MDB), aliado de Tarcísio, também criticou a possibilidade de vinculação da investigação à produção cinematográfica, classificando a hipótese como um “erro grave” e falando em “perseguição política”.
Já Tarcísio adotou uma postura institucional e defendeu a independência das forças de segurança.
“A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado”, declarou o governador.
Disputa pelo eleitorado evangélico
Além do simbolismo político, a participação de Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus ocorre em meio a uma estratégia de recuperação de espaço junto ao eleitorado evangélico.
Pesquisas recentes apontaram queda na intenção de voto do senador nesse segmento após a divulgação dos áudios envolvendo Daniel Vorcaro. Segundo levantamento citado no debate político, Flávio passou de 49% para 42% entre os evangélicos, enquanto sua rejeição cresceu de 28% para 34%.
O presidente da Marcha para Jesus, apóstolo Estevam Hernandes, avalia que a presença do senador no evento pode ajudar a fortalecer sua conexão com esse público.
“A presença dele o conecta, é uma pessoa que professa o nome de Jesus. Acaba sendo favorável”, afirmou.
Hernandes também minimizou o impacto político do episódio envolvendo Vorcaro.
“Eu acredito que, inicialmente, aquilo que foi colocado, o momento em que foi colocado, no aspecto de se procurar um empresário, um banqueiro, alguém que sabidamente você tinha condições de pedir patrocínio, isso não causa problema ou constrangimento ou qualquer ilegalidade nisso. Óbvio que a opinião pública quer olhar os aspectos, os detalhes no aspecto do que foi divulgado.”
Segundo o líder religioso, o ambiente do evento não deve registrar manifestações significativas contra o senador.
“Olha, eu acredito que [possíveis vaias] não seriam numa intensidade que a gente possa falar que pode haver manifestação contrária. Mas é completamente imprevisível. Independente de quem seja, no caso do Messias, que representa uma ideologia de esquerda, a gente procura fazer com que o público respeite esse aspecto dentro do que está nos princípios cristãos.”
Ausência de Lula e presença de aliados
A Marcha para Jesus também contará com a presença de outras lideranças nacionais. Além de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, o evento deve reunir o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que também é apontado como potencial candidato à Presidência.
O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, presença frequente nas edições da Marcha, confirmou participação.
Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embora convidado, não comparecerá ao evento. Desde o início de seu terceiro mandato, Lula não participou da celebração.
O governo federal será representado pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, que tem desempenhado o papel de interlocutor da gestão petista junto ao segmento evangélico.
Para Estevam Hernandes, a ausência do presidente contribui para ampliar a distância entre o governo e parte desse eleitorado.
“Acontece esse distanciamento, efetivamente. Óbvio que ele deve ter seus motivos, suas razões, mas, obviamente, a ausência dele acaba aumentando esse distanciamento.”
Ainda assim, o organizador afirmou que Lula seria recebido institucionalmente caso decidisse comparecer.
“Claro que a gente sabe que há reações do público, são reações incontroláveis, mas, quanto à direção, não há absolutamente nenhum tipo de restrição e, numa eventual vinda, ele seria recebido como presidente da República e com todas as honras do cargo.”






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