Morreu a italiana Vanna Piraccini, 96 anos. Ela e o marido, o advogado romeno Andrei Duchiade, fundaram em 1952 a Livraria Leonardo da Vinci.
Alguns dos maiores intelectuais brasileiros do século passado foram formados lendo obras importadas adquiridas na livraria carioca. A Leonardo da Vinci foi homenageada em versos por um de seus ilustres frequentadores, o poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu livro “As impurezas do branco”, de 1973.
Vale a pena recordar trechos de uma reportagem da revista Piauí, do ano de fechamento da livraria, em 2015. para conhecermos melhor essa mulher extraordinária, que tanto fez pelos autores e leitores brasileiros, pela pena de Luiz Fernando Vianna.
…“Nos salões subterrâneos, antes que as fomes apressadas tivessem triunfado, Drummond selecionava livros, às vezes ao lado da amante, Lygia Fernandes. Dona Vanna lhe servia café com rum enquanto falavam de literatura. Guimarães Rosa descobria as obras dos místicos George Gurdjieff e René Guénon. O sociólogo francês Edgar Morin sentava para conversar com a anfitriã. O historiador alemão-americano Peter Gay, quando visitou o Brasil para lançar sua biografia de Freud, disse que era a melhor livraria que já conhecera na vida.
Para entender o que foi a Da Vinci, convém saber quem é Vanna* Piraccini, hoje com 89 anos. Se ela vendesse os direitos de sua vida para um estúdio de Hollywood, talvez a livraria não precisasse fechar.
Vanna nasceu em Bolonha, em 1926, filha de mãe romena e pai italiano, o que lhe valeu dupla cidadania. Desejando ser independente da família, casou-se aos 18 anos com um jovem a quem não amava. O ditador Ion Antonescu levara o país a se aliar aos nazistas na Segunda Guerra e Vanna estava do outro lado. Chegou a participar da Juventude Comunista e, logo após a guerra, atuou como voluntária na reconstrução de uma estrada de ferro na Iugoslávia socialista do marechal Tito.
Em 1948, a Romênia, então dominada pela União Soviética, estava economicamente destruída. Vanna resolveu ir para Roma, onde ficou num campo da IRO (Organização Internacional de Refugiados, na sigla em inglês). Lá, apaixonou-se pelo advogado romeno Andrei Duchiade, que, cinco anos mais velho, saíra clandestinamente de seu país – fuga que lhe custou a condição de apátrida até, anos depois, naturalizar-se brasileiro. Um grave acidente de bicicleta na adolescência deixou-o com uma perna menor do que a outra, e por isso não lutou na guerra.
Antes da viagem a Roma, Vanna já manifestara ao marido o desejo de se separar, mas ele não aceitava. Duchiade foi para Paris, e ela partiu em seguida. Vanna matriculou-se na faculdade de letras e belas-artes da Sorbonne, dando sequência aos estudos iniciados na Universidade de Bucareste. Certo dia, o marido, que também estava em Paris, aguardou Duchiade num ponto da Sorbonne. Estava armado. O tiro feriu o rival no braço esquerdo, perto do coração. Vanna não presenciou a cena. Assustada, mudou-se temporariamente para Londres, onde trabalhou como babá. (Em 1994, caminhando com a neta Joana em frente à Catedral de Notre Dame, em Paris, Vanna reencontrou por acaso o ex-marido. Ele se tornara psicanalista lacaniano.)
Duchiade emigrou para o Brasil em 1950 trazido por um primo seu, Trajan Coltescu, adido cultural romeno em Paris que se casara com Cordélia de Magalhães Castro, uma brasileira da “estirpe niteroiense” (palavras de Vanna). Coltescu decidira abrir uma livraria ao lado do Teatro Copacabana, nos fundos do Copacabana Palace, e chamou o primo para ajudá-lo. Dois anos depois, Duchiade voltou de navio a Paris para resgatar a amada, uma jovem de olhos castanhos, cabelo louro acobreado e inteligência tão intensa quanto sua beleza.
Em 1952, o casal Vanna e Andrei – que nunca oficializou o casamento, pois à época não havia divórcio – resolveu ter uma livraria própria. A sala ficava no 18º andar do número 446 da avenida Presidente Vargas, no Centro. Comemoravam-se os 500 anos de nascimento de Leonardo da Vinci, por quem Vanna tinha fascínio desde os tempos de colégio. Ela batizou a livraria, e Duchiade criou a logomarca – jamais alterada – com o nome do gênio renascentista em letras góticas.
Em busca de um endereço mais acessível, os dois descobriram em 1956 uma sala no subsolo do recém-inaugurado Edifício Marquês do Herval, projeto ousado dos três irmãos de sobrenome Roberto – Marcelo, Milton e Maurício. Por causa das fachadas desalinhadas, o prédio ganhou do humor carioca o apelido de “Tem Nego Bebo Aí”, título de marchinha que fez sucesso no Carnaval de 1955, composta por Mirabeau Pinheiro e Airton Amorim, gravada por Carmen Costa. Um dos destaques do projeto, brises móveis nas janelas para ventilação natural das salas, deu lugar, a partir de 1965, a aparelhos de ar-condicionado.
Era Vanna quem cuidava da escolha dos títulos importados, apenas franceses naqueles primeiros anos. Na década seguinte já estava importando ingleses, italianos, alemães. Passou a viajar à Europa pelo menos uma vez por ano, a fim de ver os livros, e não apenas selecioná-los pelos catálogos das editoras.
“Não entrou um livro na Leonardo da Vinci que não tenha sido escolhido por nós”, ela se orgulha de dizer a seus dois filhos e aos clientes. “Trabalho de livreiro não é pedir cinquenta exemplares de um livro. É pedir um de um, dois de outro, como se fosse uma biblioteca”, contou a primogênita Milena, irmã de Florin, dois anos mais novo que ela.

Duchiade era uma “figura sartriana”, na observação do jornalista Sérgio Augusto, que se tornou freguês em 1962, aos 20 anos. “Sério, de óculos, ficava numa zona de sombra, acho que cuidando da contabilidade.” Cuidando mal, como se provaria em 1965, quando ele morreu. Após fracassar na edição de uma coleção de livros infantis, a Da Vinci estava em concordata, acossada pelos bancos.
Ao ficar viúva, Vanna tinha 39 anos, uma filha de 11 e um filho de 9; a mãe morava na Itália e o restante dos parentes na Romênia. Enxugou as lágrimas e o amor-próprio, pediu dinheiro à mãe, pegou empréstimo com um cliente (o diplomata Raul Conrado), fez valer a credibilidade que conquistara com os fornecedores estrangeiros, passou a trabalhar de manhã à noite e, assim, ressuscitou a Da Vinci. Foi a primeira vez, mas não seria a última.
O descompasso de Duchiade com a realidade lhe tirou a vida aos 44 anos. Apicultor iniciante, leu numa revista alemã de divulgação científica que veneno de abelha podia prevenir contra o câncer. Na criação que mantinha em seu sítio, em Nova Friburgo (região serrana do Rio de Janeiro), certa feita resolveu entrar sem luvas, só com o macacão que parece um escafandro. Foi picado por um enxame de abelhas, mas o antígeno estimulou a produção de anticorpos. Duas semanas depois, porém, no dia 1º de junho, repetiu a imprudência. Teve um choque anafilático que a falta de assistência médica imediata tornou fatal.
Nascia aí “dona Vanna”, tratada por funcionários e fregueses com um misto de admiração e temor, dado seu “temperamento afirmativo”, no dizer eufemístico de um cliente. “Rude”, “séria”, “mal-humorada” e “enérgica” foram adjetivos que coletei, em meio a vários positivos. É célebre sua maneira de anunciar por telefone que uma encomenda está disponível: “Aqui é da livraria Leonardo da Vinci. Seu livro acaba de chegar.” E pá! Encerra a ligação.
“Não sou rude”, defendeu-se numa conversa ocorrida em junho, seu olhar demonstrando que não perdeu a contundência apesar da passagem do tempo. “Se uma pessoa é arredia a qualquer contato, a gente logo se fecha. O que será que ela tem? Qual é a problemática dela?” O inferno seriam os outros.
Seu humor pode ser muito cruel, como quando um caseiro lhe telefonou para dizer que o sítio de Nova Friburgo fora assaltado. “E os cachorros, o que fizeram?”, perguntou ela, em voz alta, na livraria. “Nada? Então, manda matar.”
“Ela é uma pessoa dura porque a vida a fez dura”, disse a filha. “Se a vida está pegando fogo, metafórica ou literalmente, não dá para ficar de nhenhenhém, dizendo ‘Filhinho…’. Ou enfrenta ou enfrenta.”
Além da concordata e da morte do marido, dona Vanna precisou enfrentar a antipatia que o regime militar lhe dedicava. Não que a Da Vinci se recusasse a vender obras de autores conservadores, como o teórico racista Arthur de Gobineau. Mas os livros marxistas, de editoras francesas como Maspero e Éditions Sociales, eram exibidos logo na primeira mesa à esquerda de quem entrava. As ofertas fascinavam jovens como o jornalista Fernando Gabeira, que em 1969 participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick.
“Mas não posso culpar a livraria pelas besteiras que fiz”, disse, com ironia. Ele costumava ir lá enquanto esperava começarem as manifestações contra a ditadura na avenida Rio Branco – onde também trabalhava, no Jornal do Brasil. “A Leonardo da Vinci era um centro de cultura.”
E de política, mas sem sectarismo. De Carlos Lacerda a Glauber Rocha, de Gustavo Corção a Alceu Amoroso Lima, o arco de intelectuais que visitavam as instalações de dona Vanna era vasto. “Direita, esquerda, seja o que quiser. Os livros dão as opções para você saber o seu caminho. Essa sempre foi a política da livraria. Mas eu sou de esquerda. Acho que o mundo tem que ser da igualdade”, afirmou a proprietária.”…






Deixe um comentário