A crise diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos, deflagrada após o anúncio do presidente norte-americano Donald Trump de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, gerou intensa mobilização nas redes sociais — e revelou uma vantagem expressiva de engajamento para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação ao seu principal rival político, Jair Bolsonaro (PL).
Segundo levantamento exclusivo da FGV Comunicação Rio, publicado nesta quarta-feira (10) pelo jornal O Globo, Lula teve cerca de 770 mil interações no Instagram com um post sobre o tarifaço, número três vezes maior que as 240 mil interações registradas por Bolsonaro. O conteúdo do petista foi o quinto com maior impacto entre os analisados pela pesquisa, enquanto o do ex-presidente ficou em oitavo lugar.
A análise mostra também que o termo “Brasil soberano” ganhou grande projeção entre os internautas, tornando-se a expressão mais usada no X (antigo Twitter) durante o monitoramento de 15 horas após o anúncio de Trump, entre as 17h de quarta-feira (9) e as 8h de quinta (10). No total, foram registradas mais de 1 milhão de postagens na plataforma, sendo que 20% do conteúdo analisado fazia referência direta ao episódio.
De acordo com o estudo, há um “claro predomínio da perspectiva que critica a taxação e exalta a soberania do país”. Embora também tenham se manifestado, perfis ligados à direita articularam um discurso mais voltado a responsabilizar a política externa brasileira pela retaliação dos EUA.
Entre os conteúdos de maior impacto, destacam-se ainda um vídeo crítico a Trump gravado por Gil do Vigor, ex-participante do Big Brother Brasil, e uma publicação do chamado “prefeito tiktoker” de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), em tom crítico ao governo Lula.
Outro nome que apareceu com força no debate foi o de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente. Ele tem sido apontado como um dos responsáveis indiretos pela crise comercial, por ter feito articulações nos Estados Unidos para que o governo americano adote sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a análise da FGV, menções a Eduardo cresceram exponencialmente nas últimas horas, inclusive em críticas que o associam ao endurecimento da política americana.
A análise de escuta internacional da FGV estimou que mais de 300 mil publicações em inglês e português nas redes sociais estrangeiras estavam alinhadas com uma visão de defesa da soberania brasileira e contrárias à decisão de Trump. Em contraste, cerca de 100 mil manifestações foram críticas ao governo Lula.
Levantamento paralelo da consultoria Bites, divulgado pela colunista Bela Megale, reforçou o resultado. Segundo a análise, Lula e parlamentares governistas também superaram apoiadores de Bolsonaro em engajamento no X, com o dobro de interações em média.
A coluna aponta ainda que o preço do dólar — que subiu em reação ao tarifaço — foi a principal preocupação manifestada nas redes, sobretudo por usuários da classe média em período de férias. Ao mesmo tempo, parte dos aliados de Bolsonaro defende que o ex-presidente atue diretamente com Trump para tentar reverter a medida, sob risco de deixar campo livre para o governo Lula capitalizar politicamente o episódio.





