O debate sobre a exposição de crianças e adolescentes de forma sexualizada na internet, embora não seja novo, voltou a ganhar força nas redes sociais nesta semana, após a publicação de um vídeo do influenciador e youtuber Felca Bress. Nesta quarta-feira (13), o tema também esteve em pauta no segundo dia do Rio Innovation Week.
O painel “Like e Laços: Desafios e Limites na Infância Digital” reuniu o secretário municipal de Educação do Rio, Renan Ferreirinha, a promotora de Justiça Gabriela Lusquinhos e o pediatra e ativista pela infância Daniel Becker. A mediação foi feita pela editora da revista Exame, Juliana Pio.
Adultização
No vídeo, publicado na quarta-feira passada (12) e intitulado “Adultização”, Felca exemplificou situações em que crianças e adolescentes são expostos a comportamentos, linguagens e experiências que não correspondem à sua idade. Entre os casos citados está o do influenciador Hytalo Santos, que produz conteúdo com menores de idade.
Uma das adolescentes mencionadas, Kamilinha Ferreira, de 17 anos, aparece nos vídeos de Hytalo desde os 12 anos. Em maio deste ano ela engravidou do irmão do influenciador, mas perdeu o bebê no mesmo mês.
A gravação de Felca alcançou grande repercussão, e o Ministério Público instaurou um inquérito para investigar Hytalo Santos por exposição de adolescentes a conteúdos com conotação sexual.
“Nós não temos uma regulação das redes. E por isso é tão importante a gente aproveitar essa onda trazida pelo vídeo do Felca, que mostra o que tem de potente na rede social. Não vamos esperar que as Big Techs se regulem. As redes sociais foram criadas para através das crianças, gerar lucros milionários”, afirmou a promotora da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Rio, Gabriela Lusquinhos.

‘Epidemia de distrações’
Durante o painel, o secretário Renan Ferreirinha falou sobre o papel da escola como ferramenta na diminuição do uso excessivo de telas. “A escola é a instituição que tem o maior papel de garantia de direitos básicos que a humanidade já inventou. É nela que a criança aprende, se alimenta, socializa, brinca, engaja”, afirmou.
Ferreirinha também destacou sobre as mudanças observadas desde a limitação do uso de dispositivos eletrônicos no ambiente escolar, medida implementada desde o início deste ano em escolas da rede pública.
Segundo ele, a ação resultou em um aumento de 40% nas pesquisas de livros e de 53% no aumento do rendimento dos alunos em sala. “Não pode ser normal uma criança ter crise de ansiedade ou diagnóstico de depressão porque não consegue se desligar do celular. Esse freio de arrumação é necessário.”
Ao Agenda do Poder, o secretario destacou que a discussão sobre adultização precisa avançar para o campo legislativo. “O vídeo do Felca escancarou o elefante na sala. Não é algo que possa ser normalizado. É preciso traduzir isso em legislação e não perder a oportunidade de avançar na regulação das redes sociais.”

‘Palco do crime’
Com o uso das redes sem supervisão pelas crianças, a internet pode expor os menores a riscos extremos. É o que enfatizou Gabriela: “O lugar mais perigoso para uma criança estar sem supervisão é na internet. Nós, pais, precisamos ser exemplo e também nos desconectar”, disse, durante o painel.
Ela citou casos de crimes transmitidos ao vivo em plataformas digitais que permanecem disponíveis, como o caso da plataforma Discord.
“Quando vemos um adolescente estuprar um bebê em live ou uma menina ser violentada durante uma transmissão e esse vídeo não é derrubado, percebemos o tamanho do problema e precisamos orientar nossos filhos de que esses vídeos podem ser encontrados nas redes”.
A promotora defendeu a implementação do PL 2628, que prevê classificação etária nas redes. À reportagem, ela enfatizou que os pais também precisam compreender o papel na proteção dos filhos.
“Às vezes os próprios pais acham que uma postagem é apenas fofa, com uma musiquinha inocente. É preciso entender que o poder familiar não é absoluto. O Ministério Público no guardião da criança e do adolescente pode ingressar com uma ação de destituição desse poder familiar, e esse vai perder o direito de exercer a sua parentalidade em relação àquela criança”.
Tela boa e tela ruim
O pediatra ativista pela infância Daniel Becker dividiu os impactos do uso de telas em duas dimensões: a ausência da criança no mundo real e o conteúdo ao qual ela tem acesso.
“Existem duas dimensões desse uso. A primeira é a ausência da criança no mundo real. O mundo real é o ambiente onde o ser humano evoluiu como espécie”, afirmou.
Ainda segundo Becker, ao aprofundar a discussão é necessário diferenciar “a tela boa” da “tela ruim”:
“A tela ruim são aplicativos que viciam, que estimulam o uso compulsivo. Já a tela boa pode ser a televisão, quando você vê um filme com início, meio e fim, histórias com vilões e heróis onde as crianças se desenvolvem e adolescentes se emocionam, conversam com a família. Essa é a tela boa”
O pediatra também reforçou que o acesso às redes sociais deve ocorrer mais tarde, após os 14 anos. “A puberdade é um momento crítico para o desenvolvimento do córtex pré-frontal, que amadurece o cérebro e a capacidade de foco. Por isso, é recomendável entrar nas redes apenas depois dos 14 anos”, enfatiza.

Sobre o Rio Innovation Week
Em sua 5ª edição, o evento é uma das maiores conferências de tecnologia e inovação em diferentes seguimentos da América Latina.
Serviço – Rio Innovation Week
Endereço: Av. Rodrigues Alves – Praça Mauá, Rio de Janeiro
Horário: 10h às 18h
Data: 12 a 15 de agosto
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






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