Júri na Bahia condena a até 40 anos envolvidos na morte de Mãe Bernadete

Líder quilombola foi assassinada em 2023 após enfrentar ameaças criminosas

A Justiça da Bahia condenou, nesta terça-feira (14), dois réus pelo assassinato da líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, conhecida como Mãe Bernadete. O crime ocorreu em agosto de 2023 e teve grande repercussão nacional devido à atuação da vítima na defesa de sua comunidade.

O julgamento foi realizado no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, e se estendeu por dois dias. O júri popular, composto por sete pessoas, considerou os acusados culpados por homicídio qualificado, com agravantes como motivo torpe, uso de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.

Arielson da Conceição dos Santos foi condenado a 40 anos, 5 meses e 22 dias de prisão, além de multa. Já Marílio dos Santos, que está foragido, recebeu pena de 29 anos e 9 meses de prisão.

Ambos foram responsabilizados pelo assassinato brutal da líder comunitária, executada com diversos disparos de arma de fogo.

Crime teria sido motivado por retaliação

Segundo o Ministério Público da Bahia, o assassinato de Mãe Bernadete foi uma represália direta à sua atuação contra atividades criminosas dentro do Quilombo Pitanga dos Palmares. A investigação aponta que ela se opunha à instalação de um ponto de venda de drogas na comunidade.

Reconhecida como yalorixá e liderança quilombola, Mãe Bernadete era uma figura central na luta pelos direitos territoriais e sociais dos moradores locais. Ela também denunciava a ação de grileiros e madeireiros interessados na exploração ilegal da área, que possui mais de 850 hectares.

O MP identificou a participação de um grupo criminoso no caso, incluindo integrantes de facção. Parte dos envolvidos foi apontada como autora dos disparos, enquanto outros teriam colaborado com informações e suporte logístico.

As autoridades ainda investigam o papel de outros suspeitos, incluindo um homem acusado de armazenar as armas utilizadas no crime.

Suspeitos presos e foragidos

Até o momento, quatro suspeitos foram presos e dois seguem foragidos. Os investigados fazem parte do chamado “Baralho do Crime”, lista da Secretaria de Segurança Pública da Bahia que reúne os criminosos mais procurados do estado.

Entre os denunciados, três ainda devem enfrentar julgamento pelo júri popular. As investigações seguem em andamento para esclarecer todos os detalhes da execução e a participação de cada envolvido.

O caso reforça a preocupação com a violência contra lideranças comunitárias e defensores de direitos humanos, especialmente em áreas rurais e quilombolas.

A morte de Mãe Bernadete gerou mobilização nacional e pressão por justiça e proteção às comunidades tradicionais.

Assassinato do filho também segue sem solução

A tragédia na família de Mãe Bernadete remonta a 2017, quando seu filho, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, foi assassinado na mesma comunidade.

Assim como a mãe, ele também era uma liderança quilombola e foi morto a tiros em circunstâncias semelhantes. O caso chegou a ser federalizado devido às dificuldades nas investigações conduzidas pela Polícia Civil da Bahia.

Mesmo após anos, o crime segue sem desfecho, o que levou Mãe Bernadete a cobrar insistentemente respostas das autoridades até sua própria morte.

A sequência de assassinatos evidencia o cenário de risco enfrentado por lideranças que atuam na defesa de territórios tradicionais no Brasil.

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