Jovens negros representam 64,8% das vítimas da letalidade policial em 2025, aponta estudo nacional

Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança revela aumento de 6,4% nas mortes provocadas por policiais em nove estados e expõe desigualdade racial nas vítimas.

A letalidade policial voltou a crescer no Brasil em 2025. Um levantamento divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança mostra que 4.330 pessoas morreram em ações policiais nos nove estados monitorados, representando um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior.

O estudo “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã” aponta que os jovens negros de até 29 anos continuam sendo as principais vítimas da violência policial. Eles representam 64,8% de todos os mortos, totalizando 2.804 pessoas.

Entre esse grupo, 312 vítimas eram crianças e adolescentes. Segundo os pesquisadores, o perfil predominante é formado por homens negros moradores de periferias e favelas.

Estudo aponta desigualdade racial nas mortes

A pesquisa foi elaborada a partir de dados das secretarias de Segurança Pública do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

Os pesquisadores concluíram que, na média dos estados analisados, pessoas negras têm quatro vezes mais chances de morrer em decorrência de intervenção policial do que pessoas brancas. O cálculo considera a taxa de mortes para cada 100 mil habitantes, separando as populações negra e branca.

Os números também mostram grandes diferenças entre os estados. Na Bahia, por exemplo, a taxa entre pessoas negras chega a 11 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre brancos é de 2,9. No Rio de Janeiro, a taxa é de 6,3 para negros contra 1,1 para brancos.

Relatório critica falhas na transparência dos dados

Além dos números sobre letalidade, o estudo chama atenção para problemas na qualidade das informações fornecidas pelos estados.

Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, Maranhão e Ceará registram elevados índices de vítimas sem identificação racial. No Maranhão, 54,9% dos casos aparecem como “não informados”. No Ceará, esse percentual chega a 57,5%.

Para os pesquisadores, a ausência desses dados dificulta compreender plenamente o impacto racial da violência policial e contribui para invisibilizar o problema.

Outro ponto destacado é a expansão de facções criminosas para as regiões Norte e Nordeste, cenário que, segundo o relatório, tem sido respondido por políticas públicas baseadas principalmente no confronto armado.

Quatro estados bateram recorde histórico de mortes

O levantamento mostra que Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo registraram, em 2025, o maior número de mortes provocadas por intervenções policiais desde o início da série histórica, em 2019.

No Ceará foram contabilizadas 200 mortes. O Maranhão registrou 142 vítimas, enquanto o Pará chegou a 632 casos e São Paulo alcançou o recorde de 834 mortes.

Em diversos estados, o perfil das vítimas permaneceu praticamente o mesmo: homens jovens, negros e moradores de regiões periféricas.

Rio de Janeiro registra alta de 13,8% nas mortes

No Rio de Janeiro, o estudo contabilizou 800 mortes provocadas por agentes de segurança pública em 2025, crescimento de 13,8% na comparação com o ano anterior.

Mais da metade das ocorrências, equivalente a 56,3%, aconteceu na capital fluminense. Entre as vítimas estão duas crianças com idade entre zero e 11 anos.

O levantamento aponta ainda que pessoas negras representam 57,8% da população do estado, mas correspondem a 89,5% das vítimas da letalidade policial.

A taxa registrada foi de 6,3 mortes para cada 100 mil habitantes negros, contra 1,1 entre pessoas brancas. Na prática, isso significa que uma pessoa negra teve risco seis vezes maior de morrer em ação policial no estado.

Panorama revela crescimento da letalidade em quase todo o país

Dos nove estados monitorados, apenas o Piauí apresentou redução nas mortes decorrentes de intervenção policial em 2025. O estado registrou queda de 16,7% em relação ao ano anterior.

Segundo o relatório, essa redução pode estar relacionada à criação da Superintendência de Promoção da Igualdade Racial e à adoção de protocolos antirracistas pela Polícia Militar.

Já Bahia, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e Ceará mantiveram ou ampliaram os índices de letalidade, reforçando um cenário de crescimento da violência policial e de forte impacto sobre a população negra, especialmente entre os jovens.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading