Itaguaí: por que a cidade vive uma crise política sem fim?

Cassações, afastamentos, investigações e disputas judiciais marcaram a política do município na última década

Por que Itaguaí, município estratégico da Costa Verde fluminense e sede de um dos principais complexos portuários do país, se tornou sinônimo de instabilidade política? A pergunta voltou ao centro do debate após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar nesta terça-feira (23) a impugnação da candidatura de Dr. Rubão e determinar a realização de uma nova eleição para prefeito.

A decisão é apenas o capítulo mais recente de uma longa sequência de cassações, afastamentos, investigações, processos eleitorais e disputas judiciais que transformaram a política local em uma das mais conturbadas do estado do Rio de Janeiro.

A era do prefeito da Ferrari

Um dos episódios mais emblemáticos da história recente da cidade envolve o ex-prefeito Luciano Mota, que ficou nacionalmente conhecido como o “prefeito da Ferrari amarela”.

Em 2015, Luciano foi afastado pela Justiça após uma operação da Polícia Federal que investigava um suposto esquema de desvio de recursos públicos. Reportagens da época mostraram que a PF apurava inclusive a compra de uma Ferrari que teria sido registrada em nome de terceiros.

A imprensa registrou à época que Luciano Mota havia se tornado conhecido nacionalmente por circular pela cidade em uma Ferrari amarela. A PF estimava desvios que poderiam chegar a R$ 30 milhões dos cofres municipais.

Anos depois, o ex-prefeito continuou sendo lembrado no cenário político local justamente pelo apelido de “prefeito da Ferrari”.

Cassações em série

A turbulência não terminou com a saída de Luciano Mota.

Em 2018, o então prefeito Carlo Busatto Júnior, o Charlinho, teve o mandato atingido por decisões judiciais relacionadas a condenações por corrupção e fraudes em licitações. Posteriormente, em 2020, Charlinho e seu vice foram definitivamente cassados pela Câmara Municipal após um processo de impeachment.

A cassação abriu caminho para que o então presidente da Câmara, Rubem Vieira de Souza, o Dr. Rubão, assumisse a prefeitura em mandato-tampão. O episódio daria origem a uma disputa jurídica que se estenderia por anos.

O caso Rubão

Após assumir o governo municipal em 2020, Rubão venceu a eleição daquele ano e permaneceu no cargo.

Entretanto, sua candidatura à reeleição em 2024 passou a ser contestada pela Justiça Eleitoral sob o entendimento de que ele estaria tentando exercer um terceiro mandato consecutivo, já que o período em que governou após o impeachment de Charlinho deveria ser contabilizado para fins de reeleição.

A disputa atravessou diferentes instâncias do Judiciário, passou pelo STF e chegou ao TSE, que agora confirmou a impugnação da candidatura e determinou uma nova eleição municipal.

Investigações e denúncias recorrentes

A crise política de Itaguaí também foi alimentada por sucessivas investigações envolvendo gestores municipais.

Recentemente, a Câmara Municipal chegou a abrir um processo de cassação contra o próprio Rubão após uma CPI apontar suspeitas de irregularidades em contratos de limpeza urbana que somariam cerca de R$ 60 milhões. O caso ampliou a tensão entre Executivo e Legislativo local.

Além disso, ex-prefeitos da cidade também enfrentaram processos de inelegibilidade e punições eleitorais ao longo dos últimos anos. O ex-prefeito Weslei Pereira, por exemplo, foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral por abuso de poder político.

Um ciclo de instabilidade

Embora Itaguaí seja um dos municípios economicamente mais relevantes do estado, impulsionado pelo Porto de Itaguaí e por grandes empreendimentos industriais, sua política local tem sido marcada por disputas judiciais permanentes, mudanças frequentes de comando e sucessivas intervenções da Justiça.

O resultado é um cenário raro na política fluminense: em pouco mais de uma década, a cidade viu prefeitos afastados, cassados, declarados inelegíveis, investigados por corrupção, alvos de impeachment e impedidos de assumir mandatos conquistados nas urnas.

Com a nova eleição determinada pelo TSE para 2026, Itaguaí tentará mais uma vez encerrar um ciclo de instabilidade que há anos desafia a governabilidade do município.

Linha do tempo da sucessão política em Itaguaí (2005–2026)

2005–2012
Carlos Busatto Junior (PMDB/MDB)

Carlos Busatto Junior, conhecido como Charlinho, governou Itaguaí por dois mandatos consecutivos. Anos depois, sua trajetória política passaria a ser marcada por disputas judiciais e processos que voltariam a influenciar o cenário político do município.

2013–2015
Luciano Carvalho Mota
(PT)

Eleito prefeito em 2012, Luciano Mota comandou a cidade até ser afastado do cargo em 2015 por decisão judicial durante as investigações da Operação Gafanhotos, que apurava supostos desvios de recursos públicos. O caso ganhou repercussão nacional e levou à mudança no comando da prefeitura.

2015–2016
Weslei Pereira
(PSB)

Vice-prefeito, Weslei Pereira assumiu a administração municipal após o afastamento de Luciano Mota e concluiu o mandato.

2017–2020
Carlos Busatto Junior, o Charlinho (MDB)

Charlinho voltou à prefeitura após vencer as eleições de 2016. No entanto, em julho de 2020, sofreu novo revés político ao ser afastado do cargo após um processo de impeachment aprovado pela Câmara Municipal.

Julho de 2020 a dezembro de 2020
Dr. Rubão, em mandato-tampão (Podemos)

Com a saída de Charlinho, o então presidente da Câmara Municipal, Rubem Vieira de Souza, o Dr. Rubão, assumiu a prefeitura de forma interina para concluir o mandato. Esse período se tornaria, anos depois, o principal ponto da disputa jurídica envolvendo sua permanência no poder.

2021–2024
Dr. Rubão (Podemos)

Após exercer o mandato-tampão, Dr. Rubão venceu as eleições municipais de 2020 e passou a comandar oficialmente o município.

2025–2026
Dr. Rubão (reeleito, mas impedido)

Rubão venceu novamente as eleições de 2024 e foi o candidato mais votado pela população. Porém, sua candidatura passou a ser contestada pela Justiça Eleitoral.

O TRE-RJ e, posteriormente, o TSE entenderam que o mandato-tampão exercido em 2020 deveria ser contabilizado para fins de reeleição. Dessa forma, a vitória de 2024 configuraria um terceiro mandato consecutivo, hipótese vedada pela Constituição Federal.

Junho de 2026
Haroldinho (PDT)

Com a decisão unânime do TSE que confirmou a impugnação da candidatura de Rubão, novas eleições foram determinadas para Itaguaí.

Até a realização do novo pleito, a prefeitura passou a ser comandada interinamente por Haroldo Rodrigues Jesus Neto, o Haroldinho, presidente da Câmara Municipal.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading