As investigações que apuram um suposto golpe milionário atribuído a Michele Coelho Montenegro ganharam novos desdobramentos. Além de ser acusada de causar prejuízos estimados em R$ 10 milhões envolvendo obras de arte e dinheiro, ela também é apontada como suspeita de praticar estelionato contra uma organização social paulista e um ateliê especializado em produtos personalizados.
Segundo relatos de integrantes da Associação e Projeto Social Moradores de Rua e Seus Cães, sediada em São Paulo, Michele teria utilizado o nome e documentos da instituição para adquirir produtos que posteriormente foram vinculados à ONG De Volta Ao Lar, organização criada por ela no Rio de Janeiro e voltada ao atendimento de pessoas em situação de rua.
Parceria que gerou desconfiança
Michele se apresentava como responsável por duas organizações no Rio de Janeiro: a Favela Lixo Zero, ligada a causas ambientais, e a De Volta Ao Lar. Foi por meio desta última que ela iniciou contato com a ONG paulista para desenvolver ações conjuntas.
Após algumas atividades realizadas em parceria, Michele viajou a São Paulo e conheceu o diretor-presidente da entidade, Eduardo Leporo. Segundo ele, durante os encontros, ela afirmou possuir contatos na mídia carioca que poderiam ajudar a ampliar campanhas de arrecadação e dar maior visibilidade aos projetos sociais.
A relação entre as instituições seguiu normalmente até que surgiram informações sobre uma dívida registrada em nome da ONG paulista.
Compra de pelúcias
De acordo com os relatos, em 2020 Michele teria utilizado documentos e o nome da organização de São Paulo para encomendar mais de 100 ursos e mais de 100 ovelhas de pelúcia personalizados por um ateliê. Os produtos foram entregues em sua residência, em Copacabana, na Zona Sul do Rio.
As peças traziam o logotipo da ONG De Volta Ao Lar e mensagens bordadas nas roupas dos bonecos. Segundo a denúncia, os produtos não teriam sido pagos. Sem saber que Michele não possuía vínculo formal com a entidade paulista, a empresa registrou a dívida em cartório em nome da ONG.
Eduardo Leporo afirma que só tomou conhecimento do problema quando a organização tentou obter uma certificação internacional e teve o pedido negado em razão do protesto.
“Ela pegou até uma tenda de plástico nossa e nunca devolveu. Os advogados tentaram entender e descobriram a compra que ela fez. Mas conseguimos fazer um acordo com a empresa, que tirou o protesto da dívida”, relatou.
Nas redes sociais da ONG De Volta Ao Lar, um kit composto por um urso de pelúcia, uma ovelha de pelúcia, uma caneca e uma camisa era anunciado por R$ 300.
Passagem pelo governo
Além da atuação em projetos sociais, Michele também ocupou cargo no Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em outubro, ela foi nomeada assessora no gabinete do então secretário da Casa Civil, Nicola Miccione.
Segundo relatos de pessoas que conviveram com ela no período, Michele se apresentava como advogada e dirigente de um projeto social voltado à área ambiental. Utilizando o nome Mia Montenegro, foi vinculada ao projeto Palácio Verde, iniciativa voltada à educação ambiental, sustentabilidade e economia circular nos Palácios Guanabara e Laranjeiras.
De acordo com o governo estadual, a nomeação ocorreu antes da implantação dos atuais procedimentos de compliance para cargos públicos. Pessoas que acompanharam sua atuação afirmam que ela frequentava regularmente o local de trabalho e participava das atividades relacionadas ao projeto.
Defesa contesta acusações
A trajetória de Michele também é cercada por dúvidas sobre sua formação profissional. Pessoas próximas afirmam ter ouvido diferentes versões sobre sua carreira, incluindo referências a atividades como advocacia, biologia e medicina. Na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), consta um registro de estagiária atualmente cancelado.
Nas redes sociais, Michele mantém perfil restrito, acompanhado por diversas autoridades. Em aplicativos de mensagens, apresenta-se como “representante do governo”. Em uma publicação recente nas redes, escreveu que os “requisitos para o crime e para o amor são os mesmos: estar disposto a perder tudo”.
Em nota, a defesa de Michele Montenegro afirmou que ela é “mais uma vítima nos fatos investigados e isso será provado sem dificuldade”. O advogado Paulo Gomes Rangel Neto declarou ainda que busca acesso aos autos do processo para “que tudo seja esclarecido e ela volte à liberdade a que tem direito”.






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