Investigação liga PMs da Rota e ex-presidente da Câmara de SP ao PCC

Corregedoria aponta que policiais da elite da PM fizeram escolta para diretores da Transwolff, empresa sob suspeita de ligação com o crime organizado,

Uma investigação da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo aponta que policiais da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tropa de elite da corporação, prestaram serviços de segurança privada para diretores da Transwolff, empresa de ônibus que teve contrato cancelado pela prefeitura e é apontada como controlada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

Durante a apuração, investigadores obtiveram diálogos com referências a um “chefe Milton” e relatos de suspeitos indicando que o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), que presidiu a Câmara Municipal por seis vezes, seria o verdadeiro proprietário da empresa. O político nega a acusação.

Segundo a Corregedoria, cinco dos sete policiais suspeitos de integrar o esquema pertenciam à Rota. O chamado “bico” fora do expediente já é proibido pela corporação, mas os investigadores afirmam que a atuação foi além de um trabalho irregular.

Adesão consciente ao esquema

De acordo com o inquérito, os PMs teriam aderido de forma “consciente e voluntária” ao esquema e contribuído para a “continuidade operacional das atividades empresariais utilizadas para a lavagem de capitais”. Além da escolta aos diretores investigados por ligação com o PCC, os pagamentos teriam sido feitos por meio de notas fiscais frias.

Três dos sete policiais foram presos em operação deflagrada na semana passada. Eles teriam feito a escolta dos diretores Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té, entre 2020 e 2024.

Entre os presos está o capitão Alexandre Paulino Vieira, ex-assessor militar da Câmara Municipal, apontado como coordenador do esquema. Segundo a investigação, ele exercia funções típicas de gestão, como definir escalas, valores, contratações, coordenação e dispensa dos policiais.

Quem são os policiais citados

Os PMs contratados para a segurança pessoal e patrimonial pertenciam ou já haviam servido na Rota. Entre eles estão o subtenente Ronaldo Alexandre de Souza, os sargentos Alexandre Aleixo Romano Cezário e Nereu Aparecido Alves e o cabo Marcio Henrique de Souza Santos. O capitão Alexandre Vieira também atuou como oficial de Inteligência da Rota entre 2008 e 2010.

O inquérito destaca que, no período em que coordenava o esquema, o capitão Alexandre teria chefiado operações de inteligência que tinham como alvo justamente os dois diretores da Transwolff, o que, para os investigadores, indica que ele conhecia o histórico criminal de quem passou a escoltar.

Em áudios interceptados, Cícero de Oliveira afirma que teve a ideia de contratar policiais da Rota para “ajudar” e questiona: “Se a gente fosse bandido, como é que eu, como bandido, vou pedir para contratar a Rota para fazer segurança pra gente?”.

Rota, afastamentos e mensagens

A investigação cita que a cúpula da Rota orientou o afastamento dos policiais quando o nome do grupamento foi ligado à Transwolff após a deflagração de uma operação do Ministério Público em 2020. Um dos PMs, o sargento Romano Cezário, disse ter pedido transferência para continuar trabalhando para a empresa.

Em mensagem ao diretor da companhia, ele relatou que explicou ao comandante que, após 27 anos de serviço, não permaneceria mais na unidade e que já havia decidido “ficar com vocês”, em referência à empresa.

Os policiais também atendiam demandas pessoais da família de Cícero de Oliveira, como buscar a babá do filho e levar ou buscar crianças na escola. Para a Corregedoria, a estrutura montada permitia que os diretores circulassem pela cidade com tranquilidade.

Notas fiscais e empresa de segurança

Em uma gravação, o capitão Alexandre envia a Cícero a imagem de uma nota fiscal para conferir se estava de acordo. Afirma que, como a empresa não era dele, outro responsável emitiria o documento e aguardava os dados para a emissão. O diretor, então, encaminha as informações.

A empresa usada para emitir a nota, segundo a investigação, é a AM3-Segurança e Vigilância, localizada no bairro de Santana. Ela está em nome da mãe de um dos PMs, o tenente-coronel José Henrique Martins Flores, apontado como suspeito de ser o verdadeiro administrador.

A defesa do capitão Alexandre Paulino afirma que ele é inocente de todas as acusações. As defesas dos outros investigados não foram localizadas. A Transwolff declarou que sempre contratou empresas de segurança regularmente constituídas e que colabora com as autoridades.

Depoimentos e suspeita de elo político

Em depoimento, um dos PMs presos afirmou que o ex-vereador Milton Leite seria o “dono de fato” da empresa, embora tenha reconhecido não ter como comprovar a acusação. O sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário prestou depoimento no âmbito da Operação Kratos, que levou às prisões na semana passada.

O inquérito também reúne trocas de mensagens que, para os investigadores, indicariam subordinação dos PMs ao então presidente da Câmara. Em agosto de 2023, o sargento Nereu Aparecido Alves enviou mensagem a Cícero de Oliveira dizendo que estava em uma agenda e que “o celular do chefe” estava com ele, acompanhada de foto de um evento.

Na sequência das conversas, os interlocutores trataram de dinheiro. O diretor orienta o sargento a buscar “uns QSJ”, sigla que, segundo a corporação, é jargão militar para propina. Na operação, cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo foi apreendido na casa de Nereu.

Negativa do ex-vereador

Procurado, Milton Leite negou ser dono da Transwolff e afirmou não conhecer o sargento Cezário. Disse que a acusação é uma ilação e desafiou a apresentação de provas materiais que o liguem à empresa.

A investigação segue em andamento e apura a extensão do envolvimento de policiais militares, empresários e possíveis conexões políticas no esquema.

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