Menos de seis meses antes de ser morto a tiros em uma universidade dos EUA, o influenciador trumpista Charlie Kirk, de 31 anos, já havia direcionado duras críticas ao Brasil, informa a colunista Mariana Sanches, do portal UOL. Em seu programa “The Charlie Kirk Show”, em 27 de março, ele pediu ao então presidente Donald Trump que impusesse “tarifas e, se necessário, sanções ao Brasil” em resposta ao que chamou de “comportamento imprudente e imoral” do Supremo Tribunal Federal.
Naquele momento, o tribunal brasileiro havia acabado de aceitar a denúncia contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. A fala de Kirk ecoava entre a militância conservadora nos Estados Unidos e logo seria incorporada pelo próprio Trump em sua política externa.
O atentado em Utah
Enquanto em Brasília ministros do STF analisavam a responsabilidade de Bolsonaro na trama golpista, Kirk discursava para estudantes na Utah Valley University, no estado de Utah. A palestra foi interrompida por disparos de fuzil.
O influenciador foi atingido no pescoço, sofreu intenso sangramento e não resistiu, apesar de ter recebido atendimento médico imediato. A morte de Kirk, figura central do movimento Make America Great Again entre jovens universitários, provocou comoção nacional. A Casa Branca decretou luto oficial até 14 de setembro.
Alinhamento com Trump e tarifas contra o Brasil
Em março, Kirk já antecipava pontos que reapareceriam meses depois na carta de Trump ao governo brasileiro, em 9 de julho. O republicano anunciou um tarifaço de 50% sobre produtos importados do Brasil, justificando a medida tanto pelo julgamento de Bolsonaro —que chamou de “caça às bruxas”— quanto pelas decisões do STF de moderar conteúdos nas redes sociais.
Segundo Trump, as medidas da Corte brasileira violavam a liberdade de expressão e causavam prejuízo financeiro às big techs, peças-chave da economia dos EUA. Além da sobretaxa, foram impostas sanções pessoais a ministros do STF, como restrições de visto e a aplicação da Lei Global Magnitsky contra Alexandre de Moraes, relator do processo.
Kirk havia defendido no programa: “Isso acontece em um país, o Brasil, que supostamente chamamos de aliado. Se a Rússia fizesse isso, nós a sancionaríamos. Se o Brasil faz isso, por que estamos tolerando? E a resposta é que não deveríamos”.
O olhar sobre o Brasil
O interesse de Kirk no Brasil vinha de antes. Em março de 2023, ele entrevistou Bolsonaro em Miami, quando o ex-presidente estava hospedado em um hotel de Trump. Na ocasião, Bolsonaro negou ter planejado golpe de Estado e disse ser vítima de perseguição das autoridades brasileiras. Kirk reforçou que “as direitas ao redor do mundo deveriam se unir”.
No ano seguinte, em setembro de 2024, o programa recebeu o comentarista político Paulo Figueiredo. O tema era a disputa entre Elon Musk, dono do X (ex-Twitter), e o ministro Alexandre de Moraes. Figueiredo defendeu que o STF violava liberdades individuais, tese que Kirk abraçou em definitivo. Pouco depois, Figueiredo e o deputado Eduardo Bolsonaro impulsionariam uma campanha internacional para pressionar por sanções contra o Brasil.
Repercussão da morte
A notícia do atentado provocou reação imediata entre aliados de Bolsonaro. Paulo Figueiredo, ex-comentarista da Jovem Pan e aliado de Eduardo Bolsonaro nos EUA, publicou nas redes imagens gráficas do ataque com a legenda “Meu Deus, meu Deus”. Horas depois, escreveu um longo texto de homenagem:
“Foi ele um dos primeiros que abriu espaço em seu respeitado programa para que eu pudesse denunciar o que estava acontecendo. Foi ele quem deu voz ao Brasil quando quase ninguém se importava. Posso dizer sem medo: sem esse guerreiro, jamais teríamos chegado ao ponto de conquistar sanções contra Alexandre de Moraes e outros ministros do STF. Todos os que amam a liberdade, inclusive no Brasil, devemos muito a ele”, afirmou.
Kirk também comparava os episódios do 8 de janeiro de 2023, em Brasília, com o 6 de janeiro de 2021, em Washington. Para ele, os dois movimentos refletiam um mesmo combate contra o “despotismo judicial”. A trajetória interrompida pelo ataque em Utah deixa em aberto o futuro da mobilização internacional que ajudou a articular contra o STF e em defesa de Bolsonaro.






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