Incêndios na França e na Espanha forçam retirada de mais de 270 mil pessoas e ameaçam vinícolas

Chamas avançam sobre áreas residenciais e mobilizam reforços internacionais em meio a ventos fortes, calor e baixa umidade

Mais de 270 mil pessoas foram retiradas de suas casas ou obrigadas a permanecer confinadas por causa de grandes incêndios florestais que atingem o sudoeste da França e regiões próximas a Madri, na Espanha. As chamas avançam sobre áreas residenciais, florestas, instalações estratégicas e regiões de forte importância econômica, enquanto autoridades europeias ampliam a mobilização de bombeiros, militares e aeronaves especializadas.

Na Espanha, mais de 70 mil pessoas foram desalojadas ou orientadas a não deixar suas residências na região de Madri. A presidente regional, Isabel Díaz Ayuso, classificou a emergência como o “pior incêndio da História” naquela área, segundo a agência AFP.

Na França, aproximadamente 197 mil pessoas foram retiradas das zonas ameaçadas no sudoeste do país. Os incêndios já destruíram cerca de 22 mil hectares, área equivalente ao dobro do território de Paris, de acordo com o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez.

Focos ameaçam se unir nos arredores de Madri

Equipes de emergência trabalhavam neste sábado (25) para impedir que os diferentes focos de incêndio ativos na Espanha se encontrassem, o que poderia ampliar ainda mais a área atingida e dificultar as operações de controle.

Um dos principais focos, na região de Madri, consumiu aproximadamente 6 mil hectares. Outro incêndio, na vizinha Castela e Leão, já devastou cerca de 9 mil hectares. O receio das autoridades é que as duas frentes avancem uma em direção à outra, impulsionadas pelos ventos fortes.

“A previsão é de que o vento se mantenha e de que até a noite o incêndio continue avançando”, disse o delegado do governo regional, Fran Martín Aguirre.

O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que seu país e o continente europeu “vivem uma situação dramática”.

O conselheiro regional de Meio Ambiente, Carlos Novillo, alertou que o incêndio no sudoeste da região de Madri atingiu seu “momento mais crítico” e está “além da capacidade de extinção”.

A Guarda Civil prendeu uma pessoa e investigava outra sob suspeita de envolvimento no início do incêndio em Castela e Leão. As causas dos demais focos ainda estavam sendo apuradas.

Embora as chamas permaneçam afastadas do centro de Madri, elas atingem municípios residenciais densamente povoados e cercados por colinas, áreas de mata e vegetação rasteira. Esse tipo de terreno favorece a rápida propagação do fogo e dificulta a criação de barreiras de contenção.

Instalações espaciais são esvaziadas

A emergência também afetou instalações estratégicas usadas para a comunicação com sondas e robôs espaciais.

Um complexo da Nasa localizado em Robledo de Chavela, na região de Madri, foi completamente esvaziado. Uma instalação da Agência Espacial Europeia na cidade de Cebreros também precisou ser evacuada.

Segundo uma porta-voz ouvida pela AFP, um dos incêndios nos arredores da capital espanhola “atravessou” a instalação da Nasa na Espanha.

O complexo integra uma rede internacional responsável pelo envio e recebimento de sinais de missões espaciais. A interrupção prolongada das atividades poderia afetar parte das comunicações com equipamentos em operação fora da Terra.

As condições meteorológicas continuavam sendo o principal obstáculo para bombeiros e militares. Rajadas de vento, temperaturas elevadas e baixa umidade favoreciam o avanço das chamas e dificultavam o lançamento de água pelas aeronaves.

“Temos uma situação adversa, como vocês podem ver pelo vento. Temos estimativas superiores a 50 km/h, e a temperatura também não vai facilitar a nossa tarefa, nem o grau de umidade”, indicou o ministro do Interior, Fernando Grande Marlaska, em um posto de comando naquela área.

Outro grande incêndio, em Guadalajara, começou na sexta-feira em uma região pouco povoada a nordeste de Madri. Depois de consumir aproximadamente 32 mil hectares, o foco entrou em fase de estabilização, permitindo a retirada das tropas do Exército mobilizadas para a área.

Desde o início do ano, quase 130 mil hectares foram queimados na Espanha. Em todo o ano de 2025, a área atingida havia chegado a 393 mil hectares.

Chamas avançam sobre região de Bordeaux

Na França, os incêndios devastam áreas próximas à região vinícola de Bordeaux, no sudoeste do país. A emergência obrigou moradores e turistas a deixarem a península de Cap Ferret por barco e por estradas, em plena temporada de férias.

Iniciado na quarta-feira (22), o incêndio já é considerado o mais destrutivo registrado na França nos últimos 50 anos. As chamas superaram, em extensão e intensidade, os grandes incêndios que atingiram a mesma região em 2022.

Os departamentos de Gironda, cuja capital é Bordeaux, e Landes são os mais afetados. A região abriga alguns dos vinhedos mais prestigiados do mundo e produz rótulos que transformaram Bordeaux em uma referência internacional no setor de vinhos.

Laurent Nuñez prometeu que as autoridades francesas “farão todo o possível para proteger” a cidade de Bordeaux.

As autoridades afirmam que o centro da cidade não enfrenta risco imediato. Mesmo assim, novas retiradas preventivas foram determinadas durante a madrugada diante da mudança de direção dos ventos e do avanço das chamas em direção a zonas mais povoadas.

Além da ameaça às comunidades e às florestas, o fogo coloca em risco uma economia fortemente dependente da viticultura, do turismo, da gastronomia e de atividades associadas à produção de vinho.

França mobiliza avião de grande porte

O governo francês prepara o uso de um avião militar de carga A400M adaptado para lançar retardantes sobre as áreas atingidas. A aeronave deverá atuar em pontos considerados estratégicos para impedir que o incêndio avance em direção a cidades e áreas de produção agrícola.

Nuñez afirmou que o equipamento será incorporado a uma batalha “longa e muito difícil” contra as chamas na região de Gironda.

Diante do agravamento da emergência, o presidente Emmanuel Macron determinou na sexta-feira (24) que as Forças Armadas reforçassem ao máximo as operações conduzidas pela Defesa Civil.

O Corpo de Bombeiros de Paris também enviou equipes adicionais para o sudoeste do país. A mobilização é significativamente maior do que a organizada durante os incêndios de quatro anos atrás.

Milhares de pessoas deixaram suas casas sem previsão de retorno. Muitas delas foram encaminhadas a ginásios, escolas, centros comunitários e instalações provisórias organizadas pelas autoridades locais.

Desde janeiro, mais de 50 mil hectares foram queimados na França, quase três vezes a área registrada no mesmo período de 2025, segundo o ministro do Interior.

O ano de 2026 já é o segundo com maior área destruída por incêndios na União Europeia desde o início dos registros, há duas décadas. Os números têm como base dados de satélite do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, analisados pela AFP.

União Europeia envia aviões e helicópteros

França e Espanha solicitaram reforços ao mecanismo de proteção civil da União Europeia. Países do bloco começaram a enviar aeronaves especializadas e equipes para apoiar as operações de combate.

Macron informou que a França receberá dois aviões Canadair da Croácia, duas aeronaves Air Tractor de Portugal e dois helicópteros pesados Black Hawk enviados pela República Tcheca e pela Eslováquia.

Na Espanha, Fernando Grande-Marlaska anunciou que Itália e Grécia enviarão, cada uma, dois aviões Canadair capazes de recolher e lançar grandes quantidades de água sobre os incêndios.

A operação internacional busca aliviar a pressão sobre as equipes locais, que enfrentam jornadas prolongadas e condições consideradas extremamente perigosas.

Climatologistas do grupo World Weather Attribution concluíram que as mudanças climáticas, provocadas principalmente pela queima contínua de petróleo, carvão e gás, intensificaram a seca que afeta a Europa. A combinação de vegetação ressecada, calor extremo e ventos fortes cria condições favoráveis para incêndios mais rápidos, intensos e difíceis de controlar.

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