O ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, anunciou sua renúncia neste sábado (25), após semanas de protestos liderados por estudantes e jovens contra o vazamento de uma prova nacional, informa a agência Reuters. A saída representa uma importante vitória para os manifestantes, que exigiam que o integrante do governo assumisse responsabilidade política pelo escândalo.
A mobilização, considerada uma das maiores ondas de protestos de rua registradas no país nos últimos anos, transformou-se em uma crise para o primeiro-ministro Narendra Modi. O movimento ganhou apoio de partidos de oposição, provocou interrupções no Parlamento e se espalhou por diferentes estados indianos.
Em Jantar Mantar, tradicional ponto de manifestações situado próximo à sede do governo, em Nova Déli, a confirmação da renúncia foi recebida com aplausos, gritos e distribuição de doces.
“Conseguimos”, disse Abhijeet Dipke, fundador do “Partido das Baratas”, que liderou os protestos, em meio a aplausos estrondosos no local de manifestação de Jantar Mantar, em Nova Déli.
Renúncia ocorre em meio a confronto com a polícia
Pradhan anunciou sua saída por meio de uma publicação na rede social X. A mensagem foi divulgada no momento em que forças de segurança lançavam gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes na capital indiana.
“Considerando a situação que surgiu em Jantar Mantar e em todo o país, para que forças antinacionais não se aproveitem dessa situação (…) enviei minha carta de renúncia ao primeiro-ministro”, escreveu Pradhan em nota. “Respeito profundamente as aspirações, os sentimentos e as expectativas legítimas da juventude do país.”
A renúncia foi comunicada poucas horas antes de uma nova rodada de negociações prevista entre representantes dos protestos e integrantes do governo.
Pelo menos mil policiais foram mobilizados para proteger a área de Jantar Mantar, segundo jornalistas da agência Reuters que acompanhavam os atos. Ainda neste sábado, as autoridades restringiram o acesso à internet e fecharam 18 estações de metrô em uma tentativa de conter a concentração de manifestantes em Nova Déli.
Mesmo diante do esquema de segurança, os jovens permaneceram no local e entoaram “Jai Hind”, expressão patriótica que significa “Vitória para a Índia”. O hino nacional também foi reproduzido nos alto-falantes instalados na área.
Vazamento afetou cerca de 2 milhões de candidatos
A crise teve início após o vazamento, em maio, da prova de admissão de uma prestigiada faculdade de medicina. O episódio levou ao cancelamento dos resultados e obrigou o governo a determinar a realização de um novo exame.
Cerca de 2 milhões de jovens foram afetados pelo problema, o que provocou revolta entre candidatos e familiares. Os protestos começaram em junho, mas aumentaram de intensidade depois que a polícia reprimiu uma marcha em direção ao Parlamento, na última segunda-feira.
Durante o confronto, dezenas de estudantes ficaram feridos após agentes usarem cassetetes e gás lacrimogêneo para impedir o avanço do grupo.
A repressão ampliou o alcance do movimento e levou estudantes, ativistas e simpatizantes da oposição às ruas em estados como Bengala Ocidental, Telangana, Karnataka e Tamil Nadu. Em alguns locais, os participantes também promoveram boicotes às aulas.
Embora o vazamento da prova tenha sido o estopim das manifestações, os organizadores afirmam que os atos também refletem a insatisfação da juventude com o desemprego, a corrupção e a falta de responsabilização de autoridades.
“A geração jovem está aqui. Esta é uma vitória para a Constituição”, disse o manifestante Tluanga Ralte, caminhando com uma cópia da Constituição indiana no local do protesto após a renúncia do ministro. “Não somos uma geração preguiçosa.”
Saída representa revés para o governo Modi
Dharmendra Pradhan, de 57 anos, é uma das principais lideranças do Partido Bharatiya Janata, o BJP, legenda do primeiro-ministro Narendra Modi. O político vinha sendo tratado como um nome em ascensão e chegou a ser mencionado como possível liderança futura do partido.
Pradhan integra o governo desde que Modi assumiu o poder pela primeira vez, em 2014. Ao longo desse período, comandou as pastas de Petróleo e Gás Natural, Siderurgia e Desenvolvimento de Competências. Em 2021, foi nomeado ministro da Educação.
Seu pai também teve atuação destacada no BJP e ocupou o cargo de ministro federal adjunto entre 1998 e 2004.
A renúncia foi celebrada por lideranças envolvidas nas mobilizações. O ativista Sonam Wangchuk, que realizou uma greve de fome de 26 dias em apoio aos jovens, classificou a saída como “uma vitória da paz, da paciência e da perseverança”.
Pradhan é apenas o segundo ministro a deixar o governo por causa de um escândalo desde a chegada de Modi ao poder, em 2014. O caso anterior ocorreu em outubro de 2018, quando M. J. Akbar renunciou ao cargo de vice-ministro das Relações Exteriores para se defender de acusações de assédio sexual feitas por mais de uma dúzia de mulheres.
A crise representa um dos maiores desafios enfrentados por Modi desde o início de seu terceiro mandato, em 2024. Além da pressão das ruas, partidos de oposição passaram a apoiar as reivindicações dos jovens e interromperam trabalhos no Parlamento para exigir providências.





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