Igreja histórica no Centro do Rio foi invadida por bandidos quatro vezes em menos de um ano

Relicário e até fragmento do osso de São Benedito são roubados

Palco de episódios importantes na trajetória do país, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, na Rua Uruguaiana, no Centro, foi roubada novamente no último fim de semana. Desta vez, levaram um relicário, relíquias de São Benedito (um fragmento do osso do santo), terços, medalhinhas e até o dinheiro do caixa da lojinha. Esta é quarta vez, em 11 meses, que a igreja é alvo de criminosos.

— Esperamos que a polícia consiga recuperar. Já tínhamos câmeras de segurança perto da loja, agora vamos instalar mais. Além disso, existe o plano de colocar alarme — diz o padre Robson Cristo de Oliveira, reitor do templo. — Valor financeiro não tem tanto, mas há o valor afetivo. São objetos sagrados.

Muita história

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos surgiu na segunda metade do século XVII, inicialmente para apoiar escravizados, cuidando dos mais necessitados e eventualmente comprando alforrias. Em 1737, teve sua própria igreja inaugurada na antiga Rua da Vala (atual Uruguaiana) e elevada, no mesmo ano, a catedral — nesta condição, que durou sete décadas, tornou-se a primeira igreja no Rio a receber a família real portuguesa em sua chegada à cidade, em 1808. O endereço no Centro ainda abrigou importantes encontros para os movimentos da independência e da abolição no Brasil.

Não por acaso, a igreja também abriga o Museu do Negro, com obras de arte, documentos e objetos da época da escravidão.

Entre os funcionários, a suspeita é de que alguém tenha entrado no local no dia da festa do padroeiro São Benedito, que aconteceu no último sábado, quando a igreja estava com as três portas abertas e recebeu grande movimento. A ocorrência foi registrada na 1ª DP (Praça Mauá) e a polícia analisa imagens de câmeras de segurança.

Reitor, funcionários e até representantes da arquidiocese descartam a hipótese de que os objetos tenham sido alvo de quadrilhas especializadas em roubar objetos sagrados. Na última ocorrência também foram levados uma mesa de som — que substituía outra roubada anteriormente — e um ventilador de chão.

Daisy Ketzer, assessora de patrimônio histórico e cultural da Arquidiocese do Rio, acredita que se trata de um roubo de ocasião.

— Este provavelmente não é um furto orquestrado de objeto específico. Existe um mercado grande de roubo de objetos sacros, mas está ficando cada vez mais difícil realizar esse tipo de ação. Temos a delegacia da Polícia Federal, que cuida de Patrimônio e Meio Ambiente, e tem feito um ótimo trabalho em parceria com Iphan — diz ela.

‘Um pecado’

No mês passado, a PF recuperou três peças sacras de prata e as restituiu à Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, também no Centro. O Iphan identificou num leilão objetos com características de bens tombados e as comparou com as que estavam catalogadas no rol de bens culturais procurados. Todas tinham uma gravação em latim no seu escudo central e “teriam sido produzidas na segunda metade do século XVIII”, informou a PF. A devolução dos objetos foi celebrada com uma missa.

Outro furto, o do ostensório do século XVIII da Igreja de São Francisco de Paula, não teve o mesmo desfecho. Mesmo após a identificação do suspeito e sua prisão, o objeto tombado não foi recuperado.

— Demorou mais o padre preenchendo o papel (do registro da ocorrência) da delegacia do que ele sendo solto. Esse tipo de roubo é um pecado, muitas vezes as pessoas derretem o objeto. Não sei o que é pior: colocarem em leilão, venderem ou derreterem — lamenta Daisy Ketzer.

Com informações de O Globo

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