Hierarquia do CV, drones e ordens de execução: veja o que motivou a megaoperação no Rio

Os arquivos se baseiam em interceptações de mensagens, áudios e publicações nas redes sociais dos traficantes

Documentos que embasaram a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, revelou, em detalhes, como opera a cúpula do Comando Vermelho (CV).

Os arquivos, que se baseiam em interceptações de mensagens, áudios e publicações nas redes sociais, detalham a investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), que deu origem a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ).

A Operação Contenção, realizada na última terça-feira (28), terminou com mais de 120 mortos. Entre eles, quatro eram policiais. Três inocentes também foram baleados. Ao todo, os agentes apreenderam 91 fuzis.

Estrutura de poder e expansão

O documento elaborado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ mapeia a estrutura hierárquica da facção na Penha. No topo do esquema aparecem Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala.

Segundo os promotores, Doca é o principal líder do CV em liberdade, abaixo apenas de Marcinho VP e Fernandinho Beira-Mar, ambos detidos em presídios federais.

Por causa da posição estratégica, Doca vivia cercado por seguranças armados e controlava o tráfico por meio de ordens em mensagens.

“Ninguém dá tiro sem ordem do Doca ou do Bala”, escreveu um integrante da facção em um dos grupos interceptados.

Casa de Doca com seguranças armados | Reprodução

Os gerentes e a rotina do tráfico

Abaixo da dupla de chefes estavam Carlos Costa Neves, o Gardenal, e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão ou Síndico da Penha, responsáveis pela gestão direta das operações.

Gardenal teria papel central na expansão do CV para a zona oeste, especialmente na região de Jacarepaguá, tradicionalmente controlada por milicianos. O MP cita fotos em que ele exibe armas, dinheiro e carros de luxo, como um Porsche Taycan.

Já Grandão atuava como gestor das bocas de fumo e disciplinador das condutas dos traficantes.

Em uma das mensagens, ele proíbe a entrada de fuzis em um evento local para evitar confronto e “deixar o morador curtir”. Em outra, comunica pagamentos e mudanças de escala entre os subordinados.

Ordem do Grandão aos traficantes | Reprodução

Violência interna e punições

As provas reunidas pelos investigadores também mostram o uso sistemático da violência como forma de controle. Em um áudio atribuído a Gardenal, ele ordena a execução de um vendedor de drogas acusado de perder uma carga.

“É, o vapor mais derramado, o gerente nós vai matar agora, na frente de geral. Se o Bacurau aparecer, nós vamos mandar geral brotar aqui, o gerente vai executar ele na frente de geral”.

O documento ainda cita Juan Breno Malta Ramos, o BMW, como gerente do tráfico na Gardênia Azul e chefe do Grupo Sombra, braço de extermínio da facção.

O MP anexou imagens de moradores torturados, entre elas a de uma mulher dentro de um balde de gelo e a de um homem sendo agredido. Um vídeo mostra outro homem sendo arrastado por um carro, amordaçado e algemado, para confessar uma delação a um grupo rival.

Moradores torturados pelos traficantes | Reprodução

Drones, câmeras e vigilância permanente

As interceptações indicam que os traficantes buscavam aprimorar o sistema de monitoramento nas favelas. Em conversas obtidas pelo MP, integrantes da facção discutem a compra de drones com câmeras térmicas, capazes de identificar pessoas no escuro.

“O meu não é noturno, o meu é câmera normal. Nós temos que ver o térmico”, escreveu um dos traficantes.

“A gente tem que se adequar à tecnologia, entendeu?”, respondeu outro.

Segundo o MP, o objetivo era reforçar o controle territorial e antecipar incursões policiais. A facção também já operava uma rede própria de câmeras nas comunidades para acompanhar a movimentação de agentes e rivais.

Assalto a banco e crimes paralelos

A denúncia ainda menciona Samuel Almeida da Silva, o Samuca da 29, gerente de uma boca de fumo na Penha.

Em troca de mensagens com outro integrante, identificado como Drope, ele admite ter participado de um assalto a banco em Duque de Caxias, em abril de 2022, quando caixas eletrônicos foram explodidos.

“Visão [olha] que bonito”, escreveu Samuca.

“Estourou, né, pai. Quero ir nuns bagulhos assim. (…) Só assim pra ficar suave”, respondeu Drope.

Major da PM pediu ajuda ao CV

Um major da Polícia Militar pediu ajuda ao traficante Grandão para tentar recuperar um carro roubado.

Na troca de mensagens obtida pelos investigadores, o PM Ulisses Estevam envia uma foto do veículo a Grandão e informa que está no Morro da Fé, na Penha. O oficial segue ativo na corporação.

“Preciso recuperar. Carro do 01. Esse eu tenho que resolver”, escreveu o policial.

Após o pedido, Grandão acionou administradores de um grupo chamado “CPX da Penha”, pedindo que localizassem o automóvel. O veículo havia sido roubado em 26 de abril de 2024 e foi encontrado três dias depois, em 29 de abril.

Procurada, a PM não comentou o caso. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.

O resultado da Operação Contenção

Com base nesse conjunto de provas, o MPRJ denunciou 69 integrantes do Comando Vermelho. A operação que se seguiu mobilizou diversas forças de segurança e teve como foco os complexos da Penha e do Alemão.

Uma coletiva organizada pelas forças de segurança do estado vai detalhar, nesta sexta-feira (31), os nomes dos presos e mortos na ação. O principal alvo, Doca, segue foragido.

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