Governo vê interferência dos EUA nas eleições e teme escalada até o 2º turno

Planalto monitora manifestações do governo Trump, suspeitas de impulsionamento e financiamento externo e contatos de autoridades dos EUA com influenciadores brasileiros; campanha de Flávio Bolsonaro nega irregularidades

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O governo brasileiro avalia que ações dos Estados Unidos com potencial para influenciar as eleições presidenciais de 2026 já estão em curso e podem ganhar intensidade até um eventual segundo turno. Segundo integrantes do Palácio do Planalto, quatro frentes concentram as preocupações: manifestações políticas de autoridades estadunidenses, possível impulsionamento de conteúdo a partir do exterior, suspeitas sobre financiamento estrangeiro e encontros de representantes dos EUA com influenciadores brasileiros.

A avaliação não significa que as suspeitas tenham sido comprovadas. Parte delas é contestada pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que nega receber impulsionamento ou financiamento estrangeiro. A legislação eleitoral brasileira proíbe que partidos e candidatos recebam recursos de origem estrangeira.

A preocupação do governo ganhou força depois que um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), enviado no fim de agosto ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), elevou a possibilidade de influência externa dos Estados Unidos no pleito brasileiro a um “nível de criticidade”.

Planalto monitora movimentos de Trump

A primeira frente observada envolve possíveis manifestações públicas do presidente dos EUA, Donald Trump, e do secretário de Estado, Marco Rubio, durante a reta final da eleição brasileira.

O governo brasileiro considera que precedentes recentes na América Latina ajudam a explicar a preocupação. Na Colômbia, Trump declarou publicamente apoio a Abelardo de la Espriella antes do segundo turno presidencial de junho. O presidente dos EUA classificou o candidato como “forte, inteligente e determinado” e anunciou seu apoio contra Iván Cepeda.

Outro ponto monitorado é a circulação de conteúdo eleitoral nas redes sociais. Integrantes da campanha do PT e o candidato Renan Santos (Missão) levantaram suspeitas de que perfis favoráveis a Flávio Bolsonaro estejam recebendo impulsionamento pago a partir dos Estados Unidos. A campanha do senador nega qualquer impulsionamento estrangeiro.

Financiamento estrangeiro entra no radar

Uma terceira frente envolve suspeitas relacionadas à Rockbridge Network. Questionamentos sobre uma possível participação do grupo no financiamento de atividades destinadas a beneficiar Flávio foram inicialmente levantados por Renan Santos e posteriormente incorporados a uma iniciativa do PT levada às autoridades.

Até o momento, as alegações não representam comprovação de que recursos estrangeiros tenham financiado a candidatura do senador. A campanha de Flávio nega irregularidades.

A quarta preocupação está relacionada a encontros entre autoridades estadunidenses e influenciadores brasileiros de extrema direita. Oficialmente, as conversas abordaram temas como liberdade de expressão e ambiente digital. Integrantes do PT, porém, interpretam os contatos como parte de uma tentativa de apresentar a interlocutores brasileiros as posições do governo estadunidense sobre o cenário político e eleitoral do país.

Abin aponta disputa geopolítica

O relatório da Abin situa o risco de interferência em um contexto mais amplo de disputa geopolítica entre Estados Unidos e China na América Latina.

O documento cita atos e documentos produzidos pelo governo Trump entre novembro de 2025 e maio deste ano. Segundo a agência, um dos objetivos dos EUA seria a “redução da influência de potências rivais dos EUA na América Latina e de negação do acesso dessas potências a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região, em favor de seu controle, direto ou indireto, pelo governo dos EUA ou pelo capital privado estadunidense”.

A Abin também identificou uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”. A avaliação é de que a aproximação de Brasília com Pequim e a importância estratégica dos recursos naturais brasileiros aumentam o interesse dos EUA sobre os rumos políticos do país.

O assunto chegou ao discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22). Sem citar diretamente Trump ao tratar do processo eleitoral, Lula criticou interferências externas e defendeu a soberania brasileira.

A menos de duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, o governo acompanha agora se haverá novas manifestações de autoridades estadunidenses ou outros movimentos que possam ser interpretados como tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro.

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