Direita mantém maioria no Rio há 20 anos, mas perfil mudou desde 2018, diz estudo da UFRJ

Estudo do Lappcom revela domínio histórico da direita na Alerj e na Câmara dos Deputados, mas mostra avanço da extrema-direita sobre o espaço antes ocupado pela direita tradicional

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A maioria das cadeiras ocupadas pela direita na representação política do Rio de Janeiro não é um fenômeno recente. O que mudou de maneira mais acentuada foi a composição desse campo. Uma pesquisa do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), da UFRJ, mostra que, entre 2014 e 2022, partidos classificados como de extrema-direita passaram de nenhuma cadeira para 37,1% da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), enquanto a direita tradicional caiu de 62,9% para 30%.

Na atual legislatura, eleita em 2022, os dois segmentos somam, portanto, 67,1% das cadeiras estaduais. Ao mesmo tempo, a categoria de centro deixou de aparecer na classificação utilizada pelo levantamento. O movimento se repete, com percentuais próximos, na bancada fluminense na Câmara dos Deputados.

Maioria vem de eleições anteriores

A série histórica mostra que o predomínio da direita antecede as transformações políticas ocorridas a partir de 2018. Nas seis eleições examinadas desde 2002, esse bloco conquistou a maioria das cadeiras tanto na Alerj quanto na representação do Rio na Câmara.

O menor percentual identificado na Assembleia foi de 58,6%, em 2002. Na bancada federal, o piso também ocorreu naquele ano, quando o bloco representava 60,9% das cadeiras.

Isso significa que o principal movimento encontrado pela pesquisa não foi uma simples troca de maioria entre direita e esquerda, mas uma redistribuição das forças dentro do próprio campo da direita.

Segundo a cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Lappcom, há “uma certa regularidade no campo da esquerda”, enquanto a transformação mais evidente ocorreu no outro lado do espectro político, com partidos tradicionalmente classificados à direita perdendo espaço para legendas posicionadas mais distantes do centro.

Extrema-direita passa de zero a 37,1%

Os números evidenciam a dimensão dessa mudança. Em 2014, nenhuma cadeira da Alerj estava enquadrada na categoria extrema-direita utilizada pelo levantamento. O percentual chegou a 37,1% em 2022.

No mesmo intervalo, a direita passou de 62,9% para 30% das cadeiras estaduais. Entre os deputados federais do Rio, a trajetória foi semelhante: a extrema-direita avançou de 2,2% para 37%, enquanto a direita recuou de 65,2% para 30,4%.

Mayra resume o movimento como uma mudança na correlação de forças dentro desse campo. “Os partidos da direita tradicional vêm perdendo espaço desde 2018 para os partidos mais ao extremo”, afirmou.

Segundo sua análise, essas legendas ganharam espaço político a partir de 2018, sobretudo o PL. A cientista política afirma que a sigla “se transforma na maior máquina partidária do estado do Rio”, levando em consideração sua presença nas bancadas legislativas e nas administrações municipais.

Centro desaparece da classificação em 2022

Outro resultado destacado pelo levantamento é o esvaziamento das posições intermediárias. Na classificação adotada pelos pesquisadores, a categoria centro chegou a zero tanto na Alerj quanto na bancada federal em 2022. A centro-esquerda também perdeu representação ao longo da série e terminou o período com menos de um quarto do espaço que ocupava em 2002.

A esquerda, por outro lado, não cresceu na mesma proporção da retração do centro. Em 2022, o bloco de esquerda representava 24,3% das cadeiras estaduais, abaixo dos 35,7% registrados em 2002.

Na bancada federal, o movimento foi semelhante: 28,3% em 2022, contra 37% duas décadas antes. Houve recuperação em comparação com 2018, mas concentrada nas categorias classificadas pelo estudo como esquerda e extrema-esquerda, enquanto a centro-esquerda continuou perdendo espaço.

Alerj e Câmara seguem trajetórias semelhantes

O levantamento identificou ainda um comportamento semelhante entre as duas arenas analisadas. As mudanças registradas na composição ideológica da Alerj ocorreram em direção e intensidade próximas às verificadas entre os deputados federais eleitos pelo Rio.

Para os pesquisadores, esse paralelismo sugere que fatores semelhantes podem estar influenciando as duas disputas proporcionais. O próprio estudo ressalta, porém, que essa hipótese ainda precisa ser testada por meio da análise dos dados eleitorais desagregados por municípios e regiões do estado.

Os dados também indicam que a classificação ideológica ajuda a explicar apenas parte do comportamento parlamentar. Em votações de conteúdo programático, segundo a pesquisa, a divisão dos votos tende a acompanhar as posições atribuídas aos partidos.

Em matérias relacionadas à distribuição de recursos para o Rio, às prerrogativas do Legislativo ou à relação com o governador, entretanto, parlamentares classificados em posições ideológicas distintas podem votar juntos.

Metodologia exige ressalvas

O estudo, no entanto, faz ponderações sobre os números. Uma delas envolve a classificação do PL no ponto máximo da escala utilizada pela pesquisa, decisão metodológica que responde por parcela relevante do percentual de extrema-direita registrado em 2022.

Por isso, o crescimento de 0% para 37,1% na Alerj não deve ser interpretado isoladamente como deslocamento individual dos eleitores ou parlamentares. O resultado combina mudanças efetivas na distribuição das cadeiras com os critérios empregados para classificar ideologicamente cada legenda.

Outro fator é o próprio sistema eleitoral. A transformação dos votos em cadeiras depende da fórmula proporcional, das coligações, permitidas até 2018, e das federações partidárias utilizadas a partir das eleições de 2022.

O Lappcom pretende avançar agora na análise territorial dos resultados, comparando diferentes regiões do estado e cruzando a classificação partidária com a votação nominal dos candidatos.

Outra etapa prevista é levar o levantamento às câmaras municipais e incorporar os indicadores à plataforma CartPol, ferramenta desenvolvida pelo laboratório para análise geográfica de dados eleitorais. A plataforma cruza informações eleitorais e territoriais para identificar padrões de votação no estado.

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