Governo endurece discurso e se mobiliza contra anistia a Bolsonaro

Lula reforça críticas, Gleisi lidera articulação política e Múcio pede conciliação em meio ao julgamento da trama golpista

O governo federal passou a tratar como prioridade a mobilização contra uma eventual anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a seus aliados, segundo informa o jornal O Globo. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, sinalizaram que o Palácio do Planalto usará seu peso político para impedir a medida. Caso a proposta avance no Congresso, aliados dão como certo o veto presidencial, o que obrigaria a oposição a reunir ainda mais votos para derrubá-lo.

Em entrevista ao SBT, Lula reafirmou que não há como perdoar quem atacou a democracia e disse que o próprio Bolsonaro assume culpa ao pedir anistia.

— Ele fica pedindo anistia como se já tivesse sido condenado, ou seja, nem ele acredita nele — disse o presidente, acrescentando: — Quem atenta contra o Estado Democrático de Direito tem que ser punido.

Traidores da pátria’ e soberania em pauta

A ofensiva política ocorre em paralelo à preparação de Lula para o pronunciamento do 7 de Setembro. Gravada no Palácio do Planalto, a fala de quase seis minutos irá ao ar em rede nacional de TV e rádio e terá como mote a defesa da soberania nacional.

O presidente fará críticas a “traidores da pátria”, referência ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, que defende sanções dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras. A expressão depreciativa já tem sido usada por Lula em reuniões recentes.

Na semana passada, em encontro ministerial, ele chamou Eduardo e o próprio Jair Bolsonaro de “maiores traidores da pátria” e cobrou reação do Congresso às investidas do parlamentar no exterior.

Gleisi mira Câmara e Centrão

Na articulação política, Gleisi Hoffmann afirmou, em entrevista à GloboNews, que o governo não descansará até barrar qualquer iniciativa de perdão a Bolsonaro.

— Sequer estamos cogitando que esse projeto seja votado, ainda tem o decreto de regime de urgência que deve ser analisado. Espero que a urgência seja derrotada, e nós vamos trabalhar para isso — declarou a ministra.

Segundo ela, o governo buscará o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para neutralizar o movimento pela anistia. Gleisi ainda criticou o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, defensor do projeto, e afirmou:

— Realmente, é uma pessoa muito fraca, não vejo com condições de ser presidente do País.

Múcio pede conciliação

Enquanto o Planalto radicaliza o discurso, o ministro da Defesa, José Múcio, destoou. Ele evitou críticas diretas à anistia e defendeu que a disputa não se transforme em queda de braço.

— Não conheço o projeto (…), acho que essa queda de braço não favorece o país. Precisamos reconstruir a fraternidade — disse o ministro, completando: — Tenho evitado conversar sobre isso nesse momento.

Cenário no Congresso e barreiras jurídicas

Na Câmara, a oposição acredita já ter votos suficientes para aprovar o projeto, somando o apoio de partidos como PL, União Brasil, PP, Republicanos, PSD, Novo, MDB, Podemos e PSDB/Cidadania. A conta chegaria a 295 deputados, mais da metade do plenário.

No Senado, porém, a situação é mais difícil. A oposição reúne apenas cerca de 30 parlamentares e enfrentará resistências na Comissão de Constituição e Justiça, presidida por Otto Alencar (PSD-BA), crítico da proposta. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também já avisou que não colocará a anistia em votação.

O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), reforçou:

— Não passará no Senado. Não vejo possibilidade de projeto de anistia vindo da Câmara ser apreciado aqui.

Veto presidencial e inconstitucionalidade

Mesmo que a oposição consiga vitórias no Legislativo, teria ainda de superar o veto presidencial, o que exige maioria absoluta: 257 deputados e 41 senadores. Além disso, ministros do Supremo Tribunal Federal já sinalizaram que consideram a anistia inconstitucional, lembrando que a Corte invalidou em 2023 um decreto de Bolsonaro que beneficiava Daniel Silveira.

O advogado Cristiano Maronna, diretor do Justa, destaca que cabe ao Judiciário a palavra final:

— No ordenamento jurídico brasileiro, cabe ao Legislativo criar leis e ao Judiciário realizar o controle de sua constitucionalidade. Quem dá a última palavra sobre uma lei ser ou não compatível com a Constituição é o Judiciário e não há no exercício desse controle de constitucionalidade qualquer invasão de um poder em outro, mas mera aplicação das regras previstas na Constituição Federal.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading