O furto sistemático de cabos de energia elétrica e fibra óptica se tornou um dos crimes mais lesivos à vida cotidiana dos moradores do Rio de Janeiro, segundo informações do portal Extra. As ações criminosas, além de deixar bairros inteiros sem luz, internet ou sinalização de trânsito, afetam diretamente hospitais, escolas e empresas. Nesta quinta-feira (25), uma operação coordenada pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), com apoio da Polícia Civil do Paraná, desarticulou uma quadrilha com atuação interestadual, especializada nesse tipo de crime.
A operação, batizada de Caminho do Cobre II, prendeu sete suspeitos — dois em flagrante — e teve 46 mandados de busca e apreensão cumpridos no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 200 milhões em bens e contas bancárias dos investigados. Um dos alvos era um depósito em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, onde foram apreendidas 200 toneladas de cobre furtado.
Segundo o delegado Jefferson Ferreira, titular da DRF, os criminosos tinham conhecimento técnico e usavam disfarces para não levantar suspeitas.
— Essas pessoas eram escolhidas pelo conhecimento técnico em cobre e energia. Assim, elas eram capazes de evitar problemas, como choques ou danos aos materiais retirados — explicou Ferreira, acrescentando que cada técnico recebia cerca de R$ 200 por furto.
Tráfico dava proteção às ações
A quadrilha era protegida por traficantes armados do Comando Vermelho, responsáveis por garantir a atuação dos técnicos nos locais dos crimes. O secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, destacou o envolvimento de empresários do setor de reciclagem e ferros-velhos com a facção criminosa:
— Conseguimos comprovar a vinculação de grandes empresários do meio de reciclagem e ferros-velhos com o Comando Vermelho.
A logística do esquema envolvia técnicos usando uniformes falsificados de concessionárias, crachás e ordens de serviço forjadas. Caminhões eram utilizados para puxar os cabos das galerias subterrâneas, e batedores armados escoltavam o material até depósitos em comunidades como o Fallet-Fogueteiro (Rio Comprido), o Complexo do Salgueiro (São Gonçalo) e áreas de Queimados, na Baixada Fluminense.
Nos depósitos, os fios eram desencapados, queimados e preparados para venda. O cobre era então repassado a empresas de reciclagem ligadas aos próprios chefes da organização, e posteriormente comercializado com metalúrgicas do Rio e de São Paulo. O faturamento era dividido com os traficantes que garantiam a “segurança” da operação.
Lavagem de dinheiro milionária
A denúncia contra 22 integrantes do grupo, apresentada pela promotora Elisa Pittaro, da 2ª Promotoria de Investigação Penal de Nova Iguaçu, detalha o funcionamento de uma estrutura criminosa complexa e hierarquizada. Dividida em três núcleos — comando, intermediário e operacional —, a quadrilha era responsável por toda a cadeia do crime: do planejamento à lavagem do dinheiro.
A movimentação financeira incluía transações bancárias fracionadas, aquisição de carros de luxo, emissão de notas fiscais falsas e contratos simulados com empresas reais. Segundo a Polícia Civil, o chefe da organização era o jornalista Ricardo Lyra Ribeiro, que também atuava como contador da facção e elo com o tráfico do Fallet-Fogueteiro. Preso no Paraná em 2023, ele teria sido substituído por sua esposa, acusada de continuar comandando o esquema até ser presa nesta quinta-feira.
Prejuízo bilionário para empresas e população
O impacto da ação criminosa é sentido diariamente pela população. De acordo com a Light, concessionária de energia, entre 2024 e abril de 2025 foram furtados 135 quilômetros de cabos — o suficiente para ligar a cidade do Rio a Volta Redonda, no Sul Fluminense. Somente nos primeiros quatro meses deste ano, foram 58 mil metros levados por criminosos.
— As áreas mais afetadas são Ipanema, Copacabana, Centro e Barra da Tijuca. Mais do que o prejuízo que a Light tem, é o prejuízo que isso traz para toda a população. Este crime afeta diretamente serviços essenciais, como hospitais e transporte — destacou Leonardo Bersot, gerente de manutenção da rede subterrânea da empresa.
O setor de telecomunicações também sofre. Segundo a Conexis, que representa as operadoras, foram mais de 504 mil metros de cabos furtados no Estado do Rio em 2022. Em 2023, foram registrados 137.643 metros, e até o primeiro semestre de 2024, 50.198 metros já haviam sido levados.
Com prejuízos que ultrapassam os milhões de reais e prejuízos incalculáveis à população, a Polícia Civil promete novas fases da operação para desmantelar o restante do esquema e atacar o eixo de lavagem de dinheiro envolvido na cadeia criminosa.
— Quando a Caminhos do Cobre foi criada, demos um duro golpe nesse mercado ilegal de comercialização de cabos furtados. Agora, vamos atuar contra a lavagem de dinheiro. Esse é só o início de um novo trabalho, que vai contar com ações contínuas — afirmou Felipe Curi.
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