Fundador da Reag negocia delação e pode revelar esquema bilionário ligado ao PCC na economia

João Carlos Mansur busca acordo com o Ministério Público sobre lavagem de dinheiro e infiltração do crime organizado no setor financeiro

O empresário João Carlos Mansur, fundador da gestora de investimentos Reag, intensificou as negociações para firmar um acordo de delação premiada no âmbito das investigações que envolvem o caso Banco Master e a Operação Carbono Oculto. As tratativas com o Ministério Público tiveram início ainda em novembro de 2025 e seguem em andamento.

Mansur é investigado por suspeitas de participação em um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de recursos ilícitos ligados ao crime organizado, especialmente o PCC (Primeiro Comando da Capital), em atividades da economia formal. Apesar das negociações avançadas, o empresário ainda não se pronunciou publicamente sobre o acordo.

As apurações indicam que a Reag, gestora que chegou a administrar cerca de R$ 352 bilhões, teria sido utilizada como estrutura para movimentação e “legalização” de recursos de origem criminosa, por meio de fundos de investimento.

Delação pode ser articulada em conjunto com outros investigados

Um dos pontos que chamam a atenção das autoridades é o fato de Mansur ser representado pelo mesmo advogado de Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master. Nos bastidores, investigadores consideram a possibilidade de uma colaboração coordenada entre os dois.

Embora não exista formalmente uma “delação conjunta”, as defesas podem alinhar versões e apresentar relatos complementares, desde que não haja contradições. Cada investigado, no entanto, assina seu próprio acordo, e os benefícios concedidos dependem do volume e da relevância das informações fornecidas.

A expectativa é que, caso confirmadas, as delações possam ampliar o alcance das investigações e revelar conexões entre diferentes núcleos do suposto esquema financeiro.

Operação investiga lavagem bilionária e uso de fundos exclusivos

A Operação Carbono Oculto apura um esquema complexo que envolve fraudes, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, com atuação em setores como combustíveis e mercado financeiro. Segundo investigadores, o grupo teria movimentado cerca de US$ 10 bilhões.

Parte desse montante teria sido ocultada por meio de fundos exclusivos — veículos de investimento com um único cotista — frequentemente utilizados por grandes investidores devido à discrição e benefícios fiscais.

As autoridades apontam que esses fundos podem ter sido usados como “fachada” para mascarar a origem ilícita dos recursos e dificultar o rastreamento financeiro.

Negociações enfrentaram entraves em diferentes esferas

Antes de avançar nas tratativas atuais, a defesa de Mansur chegou a apresentar propostas de colaboração ao Ministério Público Federal, mas as conversas não prosperaram. Posteriormente, as negociações foram direcionadas ao Ministério Público de São Paulo, onde continuam em andamento.

O fato de o acordo estar sendo discutido na esfera estadual indica que, até o momento, não há menção a autoridades com foro privilegiado em nível federal. Além disso, eventuais valores recuperados deverão ser destinados ao estado de São Paulo.

Para que o acordo seja homologado, Mansur precisará admitir participação em crimes e apresentar provas consistentes que sustentem suas declarações.

Crise na Reag e avanço das investigações ampliam pressão

A situação da Reag se agravou após o avanço das investigações. Em janeiro de 2026, a gestora foi alvo da operação Compliance Zero, que apura irregularidades envolvendo fundos usados para inflar o patrimônio do Banco Master.

Pouco depois, o Banco Central decretou a liquidação da instituição, citando comprometimento financeiro e graves violações às normas do sistema financeiro nacional.

Apesar disso, Mansur tem negado irregularidades. Em depoimento recente à CPI do Crime Organizado, afirmou que a empresa possuía um sistema de compliance robusto e atribuiu a investigação ao fato de a gestora ser independente e de grande porte.

Outros investigados também buscam acordos de colaboração

Além de Mansur, outros nomes ligados às investigações também avaliam firmar acordos de delação premiada. Entre eles estão empresários considerados foragidos e suspeitos de participação direta no esquema financeiro.

Outro investigado no caso Banco Master, Fabiano Zettel, também trocou de defesa recentemente com o objetivo de avançar em negociações com as autoridades.

As delações, se concretizadas, podem representar um novo capítulo nas investigações sobre a atuação do crime organizado no sistema financeiro brasileiro, com potencial de atingir novos envolvidos e aprofundar o alcance das apurações.

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