Fuga do Rio: por que essa cidade da Serra Fluminense virou o novo paraíso dos cariocas cansados da violência

As estatísticas da cidade são comparáveis às de capitais como Viena (Áustria) e Copenhague (Dinamarca), conhecidas pela baixa criminalidade, infraestrutura urbana eficiente e forte presença das forças de segurança.

“Um dia, eu cheguei à conclusão de que não tinha estudado tanto pra viver de chamar vagabundo de excelência”, chuta de bico o advogado Pedro Duarte que largou uma carreira promissora no Rio e se mudou para Teresópolis, onde hoje se dedica a cultivar morangos.  “Estou dando as meus filhos uma infância de brincadeiras na terra. Aqui tem educação de qualidade e qualquer coisa o Rio está a  menos de uma hora e meia”, conclui. Pedro não é um caso isolado. Desde a pandemia, muita gente largou a Guanabara e subiu a serra, em busca de mais qualidade de vida e segurança em um climinha mais ameno.  E ao que tudo indica a migração pandêmica pode se tornar definitiva.

FUGA DAS GRANDES CIDADES?

Segundo dados do Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Administração de Imóveis do Rio de Janeiro (SECOVI RJ), Teresópolis teve um crescimento de quase 20% na demanda por imóveis residenciais entre 2020 e 2024. O povo não é bobo, e o número de anúncios de imóveis na cidade nos portais OLX, Viva Real e Zap Imóveis disparou 39% em dois anos. O número de contratos de compra e venda subiu 17,4% neste mesmo período, e o preço do metro quadrado subiu 18% em bairros como Agriões, Quebra-Fascos e Parque do Imbuí.

O PERFIL DO NOVO MORADOR

Uma pesquisa feita pela UERJ no ano passado apontou números interessantes sobre quem está se mudando para Teresópolis. De acordo com o estudo, 43% dos novos moradores vêm da Zona Norte do Rio.  Outros 22% são da turma do Pedro, ou seja, famílias com filhos pequenos em busca de boas escolas e segurança. Já 19% são aposentados ou profissionais liberais que adotaram o home office, como o terapeuta holístico Ewerton Silva.  “A maior parte dos meus atendimentos é online. Vou ao Rio no máximo duas vezes por semana”, conta ele, que também subiu a serra durante a pandemia e não pensa em descer mais.

Outro fator que explica o êxodo é o econômico. Enquanto o aluguel de um apartamento de dois quartos em um bairro quente e pouco glamouroso na Zona Norte carioca sai na média por R$ 2.200, em Teresópolis é possível alugar um apartamento com a mesma metragem por uma média de R$ 1.400. A diferença no IPTU então é gritante: média de R$ 1.900 na Zona Norte contra R$ 650 em Terê. Não a toa, segundo dados do IBGE Teresópolis ganhou mais de 12 mil moradores desde 2022.

SEGURANÇA EM PRIMEIRO LUGAR

Enquanto a violência domina os noticiários da capital fluminense, Teresópolis se destaca na contramão desse cenário. O município tem alcançado marcas históricas nos índices de criminalidade e vem se consolidando como um dos exemplos mais bem-sucedidos de gestão integrada da segurança pública no estado. “Teresópolis está há 12 meses sem nenhum registro de roubo de veículo e há 35 meses sem nenhum latrocínio. Esses são números de país europeu”, diz o ex-oficial do Bope e consultor em segurança Rodrigo Pimentel.

De fato, as estatísticas da cidade são comparáveis às de capitais como Viena (Áustria) e Copenhague (Dinamarca), conhecidas pela baixa criminalidade, infraestrutura urbana eficiente e forte presença das forças de segurança. Para os responsáveis pela segurança em Teresópolis, os bons resultados são fruto direto da integração entre os órgãos municipais e estaduais, aliada ao investimento em tecnologia e planejamento. Não houve um caso roubo de carga desde julho de 2023, os números de letalidade violenta despencaram 41% nos primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2024. Os homicídios dolosos tiveram redução de 33% e as ocorrências de feminicídio caíram 60%. Por outro lado, as prisões em flagrante aumentaram 29%.

O centro de treinamento da CBF na Granja Comary

CONSTRUÇÃO CIVIL AQUECIDA

O setor da construção civil emprega hoje mais de 2.500 pessoas em Teresópolis. Entre 2022 e 2024 foram lançados 11 novos empreendimentos imobiliários na cidade. Segundo o SECOVI RJ os loteamentos horizontais registram a maior procura, o que indica uma tendência clara de busca por imóveis com foco em sustentabilidade, home office e conforto, como chalés. Os points mais procurados pelos grandes investidores ficam nos arredores da Feirinha do Alto e da Serra dos Órgãos.

NEM TUDO SAO MORANGOS

A Infraestrutura de Teresópolis vem acompanhando o crescimento da cidade, mas ainda tem desafios a enfrentar. Terê enfrenta pressão sobre questões de saneamento e mobilidade. O número de carros aumentou 30% nos últimos cinco anos e há reclamações sobre o abastecimento de água nos bairros de expansão.  A Prefeitura lançou este ano um Plano Diretor Participativo, para ordenar o crescimento e definir as novas áreas de expansão.  A conferir.

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