Fuga de Flávio Bolsonaro amplia lista de políticos que deixaram o Brasil sob pressão da Justiça

Após descumprir ordem do STF para entregar passaportes, senador tem paradeiro desconhecido e pode repetir trajetória de Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e Carla Zambelli, que buscaram refúgio no exterior em meio a investigações ou condenações

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A saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil após a derrota na eleição presidencial acrescenta um novo capítulo a uma sequência de episódios envolvendo políticos brasileiros que se instalaram no exterior em meio a investigações, processos judiciais ou condenações. De Eduardo Bolsonaro a Carla Zambelli, passando pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, os casos expõem as dificuldades enfrentadas pela Justiça para alcançar investigados e condenados que atravessam as fronteiras nacionais.

No caso de Flávio, a Agência Reuters e o jornal New York Times (NYT) publicaram notícia na tarde desta terça-feira (27/out) confirmando que o senador está a caminho dos EUA. A fuga ainda não foi confirmada oficialmente até a tarde desta terça-feira (27). A Polícia Federal não encontrou registros de saída do senador pelos controles migratórios brasileiros, enquanto autoridades argentinas informaram não haver registro de sua entrada no país. O parlamentar também não cumpriu a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes em 24 horas. Os documentos foram cancelados pela PF.

A suspeita ganhou força depois que o portal argentino Infobae noticiou que o senador teria atravessado a fronteira em direção a Puerto Iguazú, de onde embarcaria em um avião particular para os Estados Unidos. A informação passou a ser investigada pelas autoridades brasileiras. O senador é alvo de apurações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro e negócios relacionados a plataformas de apostas. Ele nega irregularidades e classificou as medidas judiciais como perseguição política.

Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos Estados Unidos

O exemplo mais próximo de Flávio está na própria família. Seu irmão Eduardo Bolsonaro deixou o Brasil e se estabeleceu nos Estados Unidos, onde passou a atuar politicamente contra decisões do Supremo. Ao lado do influenciador Paulo Figueiredo, foi acusado pela Procuradoria-Geral da República de articular sanções contra autoridades brasileiras para pressionar o Judiciário no julgamento da tentativa de golpe de Estado envolvendo Jair Bolsonaro.

Eduardo acabou condenado a quatro anos de prisão e passou a ser alvo de mandado de prisão no Brasil. Paulo Figueiredo, que já residia nos Estados Unidos, também foi denunciado por coação no curso do processo. Ambos rejeitaram as acusações e sustentaram que suas atividades constituíam atuação política legítima.

Dias antes do segundo turno, Eduardo defendeu publicamente que Flávio deixasse o país caso perdesse a disputa presidencial. A declaração foi feita em entrevista ao comentarista norte-americano Steven Crowder, em 23 de outubro.

Ramagem atravessou fronteira e Zambelli buscou proteção na Itália

Outro integrante do grupo político de Jair Bolsonaro, o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), deixou o Brasil clandestinamente em 2025, segundo a Polícia Federal. Condenado pelo STF a 16 anos de prisão pela participação na trama golpista, o ex-diretor da Abin teria atravessado a fronteira com a Guiana antes de seguir para os Estados Unidos, apesar de estar proibido judicialmente de viajar ao exterior.

Em abril de 2026, Ramagem chegou a ser detido por autoridades migratórias norte-americanas, mas foi libertado dois dias depois. O governo brasileiro apresentou pedido de extradição para que ele cumpra a pena no país.

A ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) escolheu a Itália, país do qual também possui cidadania, depois de ser condenada a dez anos de prisão pela invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Presa em Roma em julho de 2025, ela foi libertada em maio de 2026, após uma decisão da Justiça italiana contrária à extradição. Posteriormente, a Corte de Cassação determinou novo julgamento do pedido. A condenação brasileira permanece válida.

Também estão nessa relação nomes sem mandato parlamentar, como o blogueiro Allan dos Santos, radicado nos Estados Unidos e considerado foragido desde 2021, quando teve a prisão preventiva decretada em investigações sobre a disseminação de notícias falsas e a atuação de grupos digitais investigados pelo Supremo.

Fugas políticas têm antecedentes no Mensalão

O recurso de deixar o território brasileiro para escapar de uma condenação não começou com os processos relacionados ao bolsonarismo. Em 2013, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, ligado ao PT, fugiu para a Itália após ser condenado no julgamento do mensalão.

Pizzolato utilizou um passaporte em nome de um irmão falecido para chegar à Europa. Localizado e preso em 2014, acabou extraditado em outubro de 2015, depois de uma longa disputa judicial. A condenação foi de 12 anos e sete meses por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

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