Artigo – Hudson Carvalho
Passados 16 anos, Marcelo Freixo retirou-se do PSOL para se candidatar a governador, amparado por alicerce político-partidário mais abrangente. Há tempos, ele coreografava esse passo, “desguetizando” as suas posições; às vezes até em enfrentamento às decisões do seu ex-grêmio. No post “Exorcizar Crivella” aqui no Face, de 20 de novembro do ano passado, eu assinalava: “Não ficarei surpreso, se Freixo, cedo ou tarde, deixar o partido, para ancorar os seus projetos públicos em bases mais amplas”.
A despeito de suas virtudes, as assépticas e segregacionistas boutiques partidárias, como o Novo, a Rede e o PSOL, ao sonorizarem discursos compreensíveis apenas por parte minoritária dos cidadãos dos grandes centros urbanos, limitam-se nas perspectivas em pleitos majoritários. Não foi ao acaso que Freixo perdeu duas eleições à Prefeitura do Rio, conseguindo, inclusive, a façanha de protagonizar derrota para Marcelo Crivella.
Isso se deveu mais às circunstâncias preponderantes do que às ocasionais fragilidades próprias de Freixo. Agora, saindo do PSOL, ele tenta contornar esse entrave, mas não será fácil. Por mais que tenha evoluído – e evoluiu muito politicamente -, a troca de sigla não o desonera, automaticamente, de eflúvios pretéritos.
Não gosto de rascunhar cenários eleitorais prematuros, fora das campanhas com os candidatos já oficializados. Aprendi que as danças preliminares têm pouca valia para os desfechos finais. É óbvio que governantes e ex-governantes carregam avaliações prévias; mesmo assim, parciais, pois a maioria da população não consegue ajuizá-los com precisão. E o critério de rejeição consagra peso demasiado, o que vale para todos. No caso presente, há pouquíssimas postulações em campo, o que deprime o exercício de futurologia. Nas disputas pelo governo do Estado do Rio, algumas considerações se impõem.
As lógicas de voto no interior e na capital costumam se diferenciar. No rastro de boas administrações à frente da Prefeitura do Rio, Cesar Maia, em 1998, e Eduardo Paes, em 2018, perderam, por motivos distintos, o governo do estado para Anthony Garotinho e Wilson Witzel, respectivamente, não obstante tivessem ganho na capital. Uma gestão bem-sucedida, por exemplo, no Rio não se irradia nem anima mecanicamente uma moradora de Miracema ou de São João de Meriti, mesmo se reconhecida. Para ela, prevalecem as conjunções locais e particulares. A quase totalidade das gentes vota por associação.
No interior, a influência de um vereador, de um pastor, de uma médica, de um próximo qualquer supera as impressões difusas emanadas por candidatos alienígenas. Se aproximar do universo do eleitor, permeando o máximo de interlocuções, faz-se fundamental. Não basta ser “bom”; tem que ser “avizinhado”. E essa afinidade não se expressa somente por contato direto; ela se apruma igualmente por intermediação ou espelhamento. O desconhecido Witzel elegeu-se, exclusivamente, por propagação da vinculação a Bolsonaro. Outro ponto: o interior permanece, majoritariamente, conservador; cada vez mais, com o incremento das igrejas evangélicas e a excitação dos estamentos de direita. Mesmo na carona de uma coligação mais inclusiva, Freixo deparar-se-á com inúmeras dificuldades pela frente. Ao que tudo indica, segundo o noticiário, ele busca atrair segmentos de fora da esquerda para colaborar com o seu plano de governo. Indício promissor, embora isso não atenue a possível estratégia dos adversários de carimbá-lo como um “radical de esquerda” e patrono das agendas identitárias.
Sem experiência administrativa para ostentar, talvez as suas melhores opções se sustentem na possiblidade – ainda bastante remota – de uma transfusão para o plano estadual da radicalidade que provavelmente adensará o pleito presidencial. Ou seja, também no Estado do Rio, apostar em um tsunami objetivando varrer Bolsonaro e os bolsonaristas do mapa. Freixo afasta-se do PSOL para remodelar e moderar a imagem, porém as suas chances poderão vir a depender, paradoxalmente, de um aquecimento do processo.
Se vier a existir, nada assegura, entretanto, que onda antibolsonarista nacional atingirá reflexamente outros litorais. Há de se ponderar a força de Bolsonaro no Estado do Rio. De acordo com o último levantamento do Instituto Paraná, apesar de perder para Lula nacionalmente no momento, Bolsonaro o ultrapassa em terreno fluminense.
Como registrou o jornalista Ricardo Bruno no seu site “A Agenda do Poder”, o acidental governador Cláudio Castro manobra com surpreendente competência política. No caso, leia-se: capacidade de agregar apoios das correntes políticas tradicionais que não sabem sobreviver fora do poder. Ciente dos seus limites e contingências e sem resultados administrativos visíveis para oferecer, pragmaticamente, ele aposta na velha cartilha de se fortalecer através da cooptação de políticos de baixa extração, poluídos ou não, abrigados em um “secretariado pífio”, nos dizeres do jornalista Ancelmo Gois.
A prioridade é a reeleição, e não a gestão. Aparentemente, a inexpressividade do governador configura-se em ativo, pois a classe política o vê como frágil dependente, como alguém, que não sombreia ninguém, suscetível a ordenhações fisiológicas. A ALERJ animou o impeachment de Witzel muito em razão de contar em substituí-lo por um governador mais domesticável. Sob o puro prisma do pragmatismo político-eleitoral, a desenvoltura de Cláudio Castro, de fato, impressiona. Do ponto de vista econômico, como diversos entes federativos, o Estado do Rio, com as suas dívidas incomensuráveis, depende, visceralmente, da boa vontade do governo federal. Seja qual for o presidente da República de plantão, é oneroso para governadores se lhe oporem desabridamente. De temperamento plácido e gregário, Cláudio Castro não quer brigar, destoando do comportamento predominante no ambiente político atual.
Ao jornal Valor, em entrevista recente, reafirmou a sua natureza, adulterando famoso dito popular: “Dou um boi para não entrar em uma briga e dez boiadas para sair dela”. Ata-se ao presidente Jair Bolsonaro sob esses primados. Demonstra saber, contudo, que o relacionamento poderá acarretar ônus eleitoral e inspirar felonias. Por isso, cerca-se também de legendas que não apoiarão Bolsonaro em 2022, como o PSDB, para mitigar a conexão com o presidente. No mais, perante as especulações, é incerto se Bolsonaro o apadrinhará ou se lançará outro cabresteado ao governo estadual. Com a venda da Cedae, o anódino governador capitalizou-se e contará com bilhões de reais para gastar em obras e saciar os políticos, permitindo-lhe apresentar rendimentos administrativos que sustentem uma candidatura competitiva.
Conforme o Instituto Paraná, tendo caído de paraquedas no Palácio Guanabara, só 35% dos fluminenses sabem que Cláudio Castro governa o estado. Se Bolsonaro abraçar outra candidatura, no entanto, as estruturas do governador sofrerão abalos e as suas probabilidades minguam. A esta altura, “achismos” temporãos sobre as futuras jornadas eleitorais equivalem a uma nota de três reais. E haverá sempre a imposição do inesperado.
A eleição presidencial tende a influenciar os pleitos estaduais, seja na montagem dos palanques, seja nas dinâmicas dos confrontos, notadamente se Bolsonaro e Lula se facearem. Em função das últimas pesquisas que dão Lula à frente de Bolsonaro, criou-se uma certa euforia sobre a possibilidade de nos livrarmos do presidente. Houve quem já despejasse Bolsonaro do segundo turno.
A meu ver, infelizmente, entusiasmo precipitado e infundado. Em entrevista ao Globo, o cientista social Marcos Nobre alertou sobre os embaraços das oposições – sobretudo, dos segmentos de direita não bolsonaristas – e as bonanças que se avizinham em favor do revigoramento de Bolsonaro: ampliação do contingente vacinado, recuperação econômica, extensão do auxílio emergencial e Bolsa Família turbinado. Concordo com ele. Ademais, Bolsonaro traduz a emergência dos novos atores que ganharam voz, após décadas de silêncio ressentido. O Brasil profundo é capiau, e não moderninho. E isso é uma constatação, e não um juízo. Essa gente identifica-se com Bolsonaro. Ocorre que a fração mais pobre dela se reconhece também em Lula. E isso é relevantíssimo. O contexto vindouro tende a favorecer a Bolsonaro, que, todavia, aparenta ter o condão de pôr tudo a perder.
Depois da gravíssima e escandalosa capitulação do Exército no episódio Pazuello e da narrativa do voto impresso, uma eventual derrota de Bolsonaro terá que se revestir de extrema contundência numérica, sob o risco de aventuras golpistas. Não bastará derrotar Bolsonaro; terá que ser de forma cabal.
Faleceu o vice-presidente Marco Maciel. Muitos têm testemunhado sobre as suas admiráveis qualidades públicas e pessoais. Como jornalista, tive poucos contatos com ele, mas sempre o admirei imensamente. Foi dos políticos brasileiros que mais estimei. Marco Maciel era, literalmente, um lorde. Tinha princípio público e grandeza excedentes. Seria extraordinário que a abrangência do seu espírito de civilidade imperasse no país. Seríamos uma outra nação; infinitamente melhor.





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