Francisco escolhe descanso eterno em Santa Maria Maggiore, longe da tradição vaticana

Papa morto aos 88 anos pediu sepultura simples, fora da Basílica de São Pedro, e dedicou seu sofrimento final à paz mundial

O papa Francisco, que morreu na segunda-feira (21) em decorrência de um acidente vascular cerebral que provocou uma insuficiência cardíaca irreversível, expressou em testamento o desejo de ser sepultado longe da tradição seguida por muitos de seus antecessores. Conforme revelou o documento, redigido em 29 de junho de 2022, o pontífice argentino pediu para ser enterrado na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, com um túmulo simples e discreto: sem ornamentos, apenas com seu nome papal inscrito em latim — “Franciscus”.

A informação foi divulgada nesta segunda-feira e confirma a distância simbólica que Francisco quis manter em relação ao cerimonial vaticano. Enquanto a maioria dos papas recentes foram sepultados na Basílica de São Pedro, dentro do Vaticano, a escolha de Santa Maria Maggiore destaca uma das igrejas mais queridas pelo pontífice, dedicada à Virgem Maria.

Durante seu pontificado, Francisco cultivou uma relação afetiva intensa com o local. Costumava visitá-lo para rezar antes e depois de cada viagem apostólica, além de passar por lá sempre que deixava o hospital. A última visita foi registrada em 23 de março de 2025, após uma internação no Hospital Gemelli.

Além de indicar o local e o tipo de sepultura, o papa jesuíta também utilizou o testamento para compartilhar um gesto espiritual. Segundo o documento, ele ofereceu os sofrimentos enfrentados no fim da vida “pela paz no mundo e pela fraternidade entre os povos”, reafirmando o tom pastoral e humanista que marcou seus doze anos de pontificado.

Com a escolha de Santa Maria Maggiore, Francisco se junta a um seleto grupo de papas sepultados fora do Vaticano. Apenas outros sete pontífices — Clemente VIII, Clemente IX, Paulo V, Sixto V, Pio V, Nicolau IV e Honório III — foram enterrados na mesma basílica. A decisão final de Francisco representa a coerência entre o que pregou em vida e o legado que quis deixar após a morte: simplicidade, devoção mariana e um chamado permanente à paz.

Leia o documento na íntegra deixado pelo Papa:

“Em nome da Santíssima Trindade. Amém.

Sentindo que se aproxima o ocaso da minha vida terrena e com viva esperança na Vida Eterna, desejo expressar minha vontade testamentária unicamente no que diz respeito ao local da minha sepultura.

Minha vida e o ministério sacerdotal e episcopal confiei sempre à Mãe do Nosso Senhor, Maria Santíssima. Por isso, peço que meus restos mortais repousem, na espera do dia da ressurreição, na Basílica Papal de Santa Maria Maior.

Desejo que minha última viagem terrena se conclua justamente neste antiquíssimo santuário mariano, onde eu ia rezar no início e no fim de cada Viagem Apostólica, para confiar com fé minhas intenções à Mãe Imaculada e agradecer-Lhe pelo cuidado dócil e materno.

Peço que minha tumba seja preparada no lóculo da nave lateral entre a Capela Paulina (Capela da Salus Populi Romani) e a Capela Sforza, da mencionada Basílica Papal, conforme indicado em anexo.

O sepulcro deve ser na terra; simples, sem ornamentos especiais, e com a única inscrição: Franciscus.

As despesas com a preparação da minha sepultura serão cobertas com a quantia do benfeitor que determinei transferir para a Basílica Papal de Santa Maria Maior e da qual providenciei instruções apropriadas a Dom Rolandas Makrickas, Comissário Extraordinário do Capítulo Liberiano.

Que o Senhor conceda a devida recompensa àqueles que me quiseram bem e que continuarão a rezar por mim.

Ofereço ao Senhor o sofrimento que se fez presente na última parte da minha vida, pela paz no mundo e pela fraternidade entre os povos.”

Com informação de O Globo.

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