Foi político o argumento decisivo para o ministro Tarcísio Freitas reabrir o debate sobre a privatização do Santos Dumont

RICARDO BRUNO A argumentação política foi decisiva para o ministro Tarcísio Freitas, da Infraestrutura, reabrir o debate sobre o modelo de privatização do Santos Dumont, através da criação de um grupo de trabalho.  Em conversa particular, antes da reunião técnica, o governador Cláudio Castro convenceu o ministro de que o Governo Federal não poderia seguir…

RICARDO BRUNO

A argumentação política foi decisiva para o ministro Tarcísio Freitas, da Infraestrutura, reabrir o debate sobre o modelo de privatização do Santos Dumont, através da criação de um grupo de trabalho.

 Em conversa particular, antes da reunião técnica, o governador Cláudio Castro convenceu o ministro de que o Governo Federal não poderia seguir impermeável aos argumentos contrários porque o tema conseguiu  unificar unanimemente as lideranças políticas e empresariais fluminenses, tornando-se uma forte bandeira eleitoral – contra a qual a base de Jair Bolsonaro não poderia se posicionar, sob pena de completo isolamento.

Um dos técnicos mais qualificados da administração federal, Tarcísio Padilha é carioca; como Cláudio Castro, é filiado ao PL; e cogita a possibilidade de se candidatar ao governo de São Paulo. A lógica política e a nem sempre fácil estratégia eleitoral são questões hoje bastante sensíveis ao ministro.

No encontro reservado, o governador afirmou ainda que a defesa de mudanças no edital surgiu no bojo de um debate técnico mas ganhou, nos últimos dias, forte conotação política, o que  não poderia ser desconsiderado.

Cláudio Castro, por suposto, estava se referindo às posições do presidente da Alerj, o petista André Ceciliano; do prefeito Eduardo Paes (PSD); e das três principais lideranças empresariais do Rio, os presidentes da Firjan, da Fecomércio, e da Associação Comercial –  todos contrários aos moldes de concessão do edital.

O governador se queixou também do tom da nota emitida, sexta-feira passada, pelo Ministério, que, em linguagem áspera e com certa arrogância, reafirma as linhas centrais do edital, refuta a possibilidade de alterações e aconselha o governo do estado e a prefeitura da capital a cuidarem de segurança pública e mobilidade.

Se antes Tarcísio  se mostrava convencido de seus argumentos, um tanto ensimesmado,  depois do encontro, passou a ponderar com boa vontade às teses contrárias.

Na reunião principal, da qual participaram o senador Carlos Portinho e o secretário chefe da Casa Civil, Nicolas Miccione, o ministro fez um longa exposição baseada nos argumentos de sua equipe técnica. Em síntese, fez formalmente  a defesa das linhas centrais do edital, cujo maior pecado é tratar da privatização do Santos Dumont de modo isolado, não considerando a necessidade estratégica de integração operacional com o Galeão.

Coube ao senador Carlos Portinho contraditá-lo. Um dos mais preparados estudiosos do tema, Portinho demoliu de modo convincente e didático todos os argumentos apresentados pelo ministro, centrando fogo na forma equivocada de se modelar a concessão de modo estanque, absolutamente apartado do óbvio imperativo de integração entre os dois terminais.

Disse também sobre a concorrência hoje existente entre o Rio e Belo Horizonte como o segundo hub internacional do país, que seria afetada com inclusão de três aeroportos deficitários de Minas Gerais no mesmo pacote de privatização. Além de misturar aeroportos de estados concorrentes, o inusitado contrapeso também poderia favorecer a atual operadora de Confins e Pampulha.

Tarcísio, então, aquiesceu e anunciou a criação de um grupo de trabalho para reabrir o debate. Mas não suspendeu o trâmite e os prazos da licitação.  Antes de encerrar,  Portinho lhe avisou também  que já havia protocolado uma representação no TCU  para interromper o certame nos moldes propostos. E que não a retiraria sem que houvesse resultado objetivo, em torno do qual passou a ter esperanças após o encontro.

Leia também: Após reunião no Ministério da Infraestrutura, Cláudio Castro anuncia a criação de grupo de trabalho para rediscutir modelo de privatização do Santos Dumont

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