Fiesp, Força Sindical e CNI criticam Selic a 13,75% e cobram redução dos juros

Entidades empresariais e sindicais contestam decisão do Banco Central, apontam impactos sobre crédito, investimentos e empregos e defendem mudanças na política monetária

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A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano provocou críticas de representantes da indústria e dos trabalhadores. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Força Sindical e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) contestaram a manutenção dos juros nesse patamar e defenderam medidas para reduzir o custo do crédito e estimular a atividade econômica.

As três entidades apontaram consequências da política monetária restritiva sobre o financiamento das empresas, o endividamento das famílias, os investimentos produtivos e a geração de empregos. Também manifestaram preocupação com o impacto dos juros sobre o crescimento econômico em 2027.

A decisão anunciada nesta quarta-feira (4) interrompeu uma sequência de cinco reduções consecutivas da Selic, iniciada em março de 2026, quando a taxa estava em 15% ao ano.

Fiesp aponta impacto dos juros sobre empresas e consumidores

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, classificou o patamar atual dos juros como excessivo e cobrou mudanças nas políticas monetária e fiscal. Segundo ele, a Selic está aproximadamente três vezes acima da inflação corrente, o que penaliza empresas, empreendedores e consumidores.

Skaf afirmou que o custo dos empréstimos bancários compromete a capacidade de investimento do setor produtivo. Segundo o dirigente, financiamentos na faixa de 30% ao ano dificultam a realização de novos projetos e a expansão das atividades empresariais.

O presidente da Fiesp também chamou a atenção para o endividamento das famílias e das empresas e para as despesas do governo com os juros da dívida pública, que, segundo ele, ultrapassam R$ 1 trilhão por ano.

A entidade defende a revisão das políticas monetária e fiscal para permitir a redução da Selic e melhorar as condições de competitividade da economia brasileira.

Força Sindical denuncia favorecimento ao rentismo

O presidente da Força Sindical, Miguel Torres, classificou a manutenção da Selic em 13,75% como uma forma de favorecimento ao rentismo e denunciou o que chamou de “extorsão financeira” no país.

Em nota divulgada nesta quarta-feira (4), a central sindical criticou a decisão do Copom e afirmou que os juros elevados prejudicam a produção, o crédito e a geração de empregos.

A entidade também alertou para uma possível redução dos investimentos em 2027, caso permaneçam as atuais condições de financiamento. Na avaliação da Força Sindical, o custo do crédito dificulta a expansão das empresas, restringe o consumo e limita a criação de postos de trabalho.

Miguel Torres defendeu a redução dos juros, a ampliação da oferta de crédito e investimentos em infraestrutura como medidas para fortalecer o mercado interno e estimular a atividade econômica.

A central sindical também relacionou a manutenção da taxa básica em nível elevado ao aumento dos recursos destinados à remuneração do capital financeiro, em detrimento dos investimentos produtivos.

CNI pede retomada dos cortes em dezembro

A Confederação Nacional da Indústria também criticou a decisão do Banco Central e defendeu que o ciclo de redução da Selic seja retomado na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 8 e 9 de dezembro.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, considerou a política monetária excessivamente conservadora e afirmou que existem condições para diminuir os juros sem comprometer o controle da inflação.

Segundo Alban, as expectativas de inflação pioraram, mas a projeção para o segundo trimestre de 2028, considerado o horizonte relevante da política monetária, está em 4%, dentro do intervalo de tolerância da meta estabelecida pelo Banco Central.

A confederação também destacou que a taxa real de juros está próxima de 8,4%, enquanto o patamar neutro estimado pela entidade é de 5%. A política monetária brasileira, segundo a CNI, permanece contracionista há 58 meses.

Para a entidade, a manutenção dos juros elevados encarece o capital de giro, dificulta o financiamento das empresas e aumenta o comprometimento da renda das famílias com dívidas.

Endividamento das famílias e dificuldades da indústria

A CNI apresentou indicadores para demonstrar os efeitos das condições de crédito sobre a economia. Em agosto, o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 29%, maior percentual em 21 anos. O endividamento familiar alcançou 50,1% da renda acumulada em 12 meses.

Na indústria, uma consulta realizada em outubro mostrou que 51,9% dos empresários entrevistados esperavam precisar de mais financiamento para pagar fornecedores nos três meses seguintes. Outros 56,9% projetavam redução dos lucros no mesmo período.

A Sondagem Industrial de setembro também identificou aumento dos estoques indesejados, que atingiram o maior nível desde outubro de 2023, além da pior avaliação das margens de lucro desde a pandemia.

A confederação apontou ainda dificuldades em outros setores. Em agosto, as vendas do comércio varejista estavam aproximadamente 1% abaixo do nível registrado em janeiro. Já o volume de atividade dos serviços permanecia praticamente inalterado desde o encerramento de 2025.

Brasil tem maior taxa real de juros entre 40 países

A manutenção da Selic em 13,75% coloca o Brasil na primeira posição de um levantamento internacional sobre juros reais elaborado pelos sites MoneYou e Lev Intelligence.

De acordo com o estudo, a taxa real brasileira está em 8,45% ao ano, considerando os juros nominais descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses. A Rússia aparece na segunda colocação, com 6,79%.

A taxa real representa o custo dos juros após o desconto da inflação. Esse indicador permite comparar as condições monetárias entre diferentes países.

A Selic influencia as taxas de empréstimos e financiamentos contratados por famílias e empresas, além da remuneração de aplicações financeiras e das despesas do governo com a dívida pública.

CNI também cobra medidas para equilibrar as contas públicas

Além de defender a redução dos juros, a CNI manifestou preocupação com a situação fiscal brasileira. A entidade relacionou a percepção de risco sobre as contas públicas à desvalorização do real, à elevação dos juros de longo prazo e às perdas registradas na bolsa após as eleições presidenciais.

Entre os problemas apontados estão o crescimento da dívida pública, a dependência de deduções legais para o cumprimento da meta de resultado primário e o volume de títulos públicos cuja remuneração está vinculada à Selic.

A confederação avalia que o aumento das despesas com juros também pressiona as contas do governo e pode ampliar a percepção de risco entre investidores.

Por isso, defende compromissos com a sustentabilidade fiscal e medidas específicas para enfrentar os desequilíbrios das contas públicas, sem transferir a maior parte dos custos para empresas e consumidores por meio de juros elevados.

Copom volta a discutir a Selic em dezembro

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro e será o último encontro do colegiado em 2026.

O Banco Central utiliza a Selic como principal instrumento para controlar a inflação. A elevação dos juros encarece o crédito e tende a reduzir o consumo e os investimentos, contribuindo para diminuir as pressões sobre os preços.

A meta contínua de inflação é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. Na avaliação da autoridade monetária, as decisões sobre a taxa básica consideram principalmente as projeções de inflação e as expectativas do mercado.

Fiesp, Força Sindical e CNI defendem que a política monetária seja revista para permitir a redução dos juros e diminuir os impactos do custo do crédito sobre a produção, o consumo, os investimentos e o emprego.

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