Fazenda prevê que risco de pautas-bomba pode chegar a R$ 2 trilhões em 10 anos

Equipe econômica alerta para impacto bilionário de projetos em tramitação no Congresso e afirma que medidas podem pressionar juros, dívida pública e metas fiscais

O Ministério da Fazenda acendeu um sinal de alerta diante do avanço de uma série de projetos no Congresso Nacional que, segundo cálculos da equipe econômica, podem provocar um impacto superior a R$ 2 trilhões nas contas públicas ao longo da próxima década, informa o portal Metrópoles. As propostas, classificadas pelo governo como “pautas-bomba”, ampliam despesas ou reduzem receitas da União e são vistas como uma ameaça ao equilíbrio fiscal do país.

A preocupação tem sido vocalizada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que vem intensificando as críticas ao andamento de iniciativas com elevado custo orçamentário em um cenário marcado por incertezas econômicas internacionais e desafios para o cumprimento das metas fiscais estabelecidas pelo governo federal.

Na avaliação da equipe econômica, a aprovação dessas medidas pode comprometer a trajetória da dívida pública, elevar a percepção de risco entre investidores e dificultar o trabalho do Banco Central no processo de redução dos juros.

Segundo integrantes do governo, o avanço das propostas ocorre em um momento delicado para a economia brasileira e pode exigir respostas institucionais caso os projetos sejam aprovados sem adequações consideradas necessárias.

Governo fala em impacto sobre juros e contas públicas

A avaliação do Ministério da Fazenda é que a expansão de gastos sem a correspondente indicação de fontes de financiamento compromete a sustentabilidade das contas públicas e aumenta as dificuldades para atingir os objetivos fiscais dos próximos anos.

Nesse contexto, o governo tem defendido a revisão dos projetos ainda durante sua tramitação no Congresso Nacional.

“Não é suportado pelas contas. Partes do projeto têm de ser revistas na Câmara dos Deputados ou, eventualmente, em veto do presidente da República. Se preciso, a gente vai questionar eventual ação do Congresso que não cumpra a Lei de Responsabilidade Fiscal no Supremo Tribunal Federal. Isso tudo será avaliado com rigor, serenidade e ampla comunicação com o Congresso”, disse.

A declaração evidencia que o Palácio do Planalto não descarta recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) caso considere que determinadas propostas violam regras fiscais ou dispositivos previstos na legislação orçamentária.

Projetos bilionários avançam no Congresso

Entre as iniciativas que mais preocupam a área econômica está a proposta que permite a renegociação de dívidas do setor agropecuário em condições consideradas mais favoráveis aos produtores rurais.

O texto foi aprovado pelo Senado Federal mesmo sem acordo prévio com o governo e, segundo estimativas da Fazenda, pode gerar um impacto acumulado de aproximadamente R$ 1,4 trilhão ao longo dos próximos dez anos.

Outra medida apontada como fonte de preocupação é a chamada PEC das Igrejas, cujo custo potencial foi calculado pela equipe econômica em cerca de R$ 100 bilhões no mesmo período.

Também está na lista a proposta relacionada à aposentadoria dos agentes comunitários de saúde e de combate às endemias. Pelos cálculos do governo, a medida pode representar um impacto de aproximadamente R$ 500 bilhões em dez anos.

Na área da saúde, o projeto que estabelece um piso salarial nacional para médicos e cirurgiões-dentistas aparece entre as iniciativas de maior peso fiscal. A estimativa do Ministério da Fazenda aponta para um custo próximo de R$ 500 bilhões ao longo da próxima década.

Pacote supera R$ 2 trilhões

Somadas, essas propostas formam um conjunto de medidas que, segundo a equipe econômica, ultrapassa a marca de R$ 2 trilhões em impacto fiscal potencial.

O cálculo apresentado pelo governo considera os efeitos acumulados de cada projeto durante um período de dez anos:

  • Renegociação de dívidas rurais: R$ 1,4 trilhão;
  • PEC das Igrejas: R$ 100 bilhões;
  • Aposentadoria dos agentes de saúde: R$ 500 bilhões;
  • Piso salarial de médicos e dentistas: R$ 500 bilhões.

Os números têm sido utilizados pela Fazenda para argumentar que a aprovação simultânea dessas iniciativas poderia gerar forte pressão sobre as finanças públicas e comprometer a capacidade de investimento do Estado em outras áreas.

Tensão entre Planalto e Congresso aumenta

O debate em torno das chamadas pautas-bomba também expõe o desgaste na relação entre o governo federal e o Congresso Nacional.

Nos últimos dias, propostas consideradas prioritárias por diferentes setores da sociedade avançaram mesmo após manifestações da equipe econômica pedindo adiamento das votações ou alterações nos textos para reduzir o impacto fiscal.

O caso da renegociação das dívidas rurais é apontado como um dos exemplos mais emblemáticos desse movimento. A proposta foi aprovada no Senado sem o aval do governo e deverá retornar à Câmara dos Deputados para nova análise.

A avaliação de integrantes do Planalto é que o ambiente político tem dificultado a construção de consensos em torno da agenda fiscal defendida pelo Ministério da Fazenda.

Possibilidade de vetos e judicialização

Diante do avanço das matérias, o governo já sinalizou que poderá utilizar diferentes instrumentos para tentar conter os efeitos das propostas.

Entre as alternativas estudadas estão vetos presidenciais a dispositivos específicos dos projetos aprovados pelo Congresso e, em último caso, a contestação das medidas no Supremo Tribunal Federal.

A estratégia busca preservar as metas fiscais e evitar que novas despesas sejam incorporadas ao orçamento sem compensações consideradas adequadas pela equipe econômica.

Com a tramitação das propostas ainda em curso, a disputa entre governo e Congresso sobre os rumos da política fiscal promete permanecer no centro do debate político e econômico nos próximos meses.

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