Fala sobre ‘juízes vermelhos e azuis’ provoca confronto no TST

Declaração do presidente da Corte, Vieira de Mello Filho, viraliza, gera reação de ministros e expõe divergências sobre atuação judicial dentro do Tribunal.

Uma declaração do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Vieira de Mello Filho, sobre a existência de juízes “vermelhos e azuis” desencadeou um embate público entre ministros da Corte nesta segunda-feira (4). O episódio, que começou após a viralização de um trecho de fala nas redes sociais, expôs divergências internas e provocou um bate-boca durante sessão plenária.

A controvérsia teve origem em uma declaração feita por Vieira de Mello Filho em um evento, na qual ele mencionou a classificação de magistrados entre “azuis” e “vermelhos”. A fala foi interpretada nas redes sociais como uma referência a posicionamentos políticos ou ideológicos dentro do Judiciário

Durante a sessão, o presidente do TST afirmou que o recorte divulgado foi “maldoso” e que sua intenção era justamente rejeitar esse tipo de rotulação. Segundo ele, a Justiça do Trabalho deve ser marcada pela pluralidade de ideias, sem divisão entre correntes: “Não tem juiz azul nem vermelho. Sou do tempo em que todos nós, com os nossos diferentes pensamentos, trabalhamos para o desenvolvimento, fortalecimento e crescimento da Justiça do Trabalho”.

Troca de acusações no plenário

O episódio ganhou novos contornos quando o ministro Ives Gandra Filho reagiu às declarações, afirmando que há, na prática, diferentes visões jurídicas dentro do tribunal, como correntes mais liberais ou mais intervencionistas. “Há ministros que têm visão mais liberal e mais intervencionista; há uns mais legalistas, outros mais ativistas. Essa realidade não é possível esconder”, afirmou Gandra Filho.

A divergência levou a uma troca direta de críticas entre os dois ministros. Vieira de Mello Filho acusou o colega de contribuir para a criação de rótulos dentro da Corte, enquanto Ives Gandra Filho rebateu, afirmando que reconhecer diferenças não significa atacar a instituição.

O presidente do TST também afirmou que sua manifestação tinha como objetivo defender a Justiça do Trabalho, que, segundo ele, estaria sob ameaça. Ele mencionou ainda preocupações com cursos voltados a advogados que classificariam ministros de acordo com suas decisões.

“Batizado que fui pela cor que me deram, queria deixar claro qual era minha causa. A minha causa é a defesa da instituição. Não participo de nenhum evento pago. Estava dizendo para os juízes que precisamos defender nossa Justiça, que está ameaçada”, replicou Vieira de Mello Filho.

Divisão interna vem à tona

Durante o debate, Ives Gandra Filho destacou que a existência de correntes distintas é natural e faz parte do funcionamento de um tribunal plural. Ele defendeu que divergências devem ser tratadas com respeito e podem contribuir para o desenvolvimento da jurisprudência.

“Tudo isso é uma realidade que vemos diuturnamente no tribunal. Nós temos que saber conviver com nossas divergências, sempre nos respeitando e através delas vamos construir a jurisdição trabalhista”, afirmou Gandra.

A discussão também envolveu críticas indiretas a posicionamentos públicos de magistrados e à relação entre tribunais superiores. Em meio ao confronto, Vieira de Mello Filho questionou o impacto de declarações que, segundo ele, poderiam fragilizar a imagem da Justiça do Trabalho: “Esse tribunal é plural. Sempre teve divergência interna. Só que as divergências internas eram construídas com ideias e argumentos, e não com rótulos”.

Intervenção para conter o conflito

A ministra Maria Cristina Peduzzi interveio no debate e criticou o tom adotado pelos colegas. Ela afirmou não ver “nenhuma atitude democrática” no bate-boca e defendeu que cada magistrado responda por seus atos de forma individual. “Não vejo nenhuma atitude democrática em um bate-boca como esse. Todos aqui atuam em nome da justiça e são agentes da justiça. Ninguém aqui está comprometido com interesses e causas”, declarou a ministra.

O episódio, que durou mais de 30 minutos, evidenciou tensões internas na Corte e trouxe à tona o debate sobre a atuação e a independência dos magistrados, além dos limites da exposição pública dessas divergências.

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