Fachin defende STF e diz que irregularidades em investigações financeiras serão analisadas

Presidente da Corte reforça papel do Banco Central, da PF e do Ministério Público em meio a críticas sobre o caso Banco Master

Em meio a investigações de grande impacto sobre o sistema financeiro nacional e a críticas dirigidas ao Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, divulgou nesta quinta-feira (22) uma nota pública em defesa da atuação institucional do Judiciário. Sem citar diretamente o caso do Banco Master, o magistrado afirmou que eventuais vícios ou irregularidades nos processos em curso serão examinados nos termos regimentais e constitucionais.

A manifestação ocorre em um contexto de tensão política e jurídica envolvendo decisões do ministro Dias Toffoli, relator de procedimentos relacionados ao Banco Master, alvo de apurações sobre supostas fraudes financeiras. Mais cedo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, determinou o arquivamento de um pedido apresentado por deputados que solicitavam o afastamento de Toffoli da relatoria do caso.

Entre as decisões do ministro que geraram questionamentos públicos estão a restrição de acesso da Polícia Federal a celulares apreendidos durante operações e a autorização para a realização de uma acareação entre técnicos do Banco Central — responsável pela decretação da liquidação do Banco Master — e executivos da instituição financeira ligada ao empresário Daniel Vorcaro.

Resposta institucional em momentos de crise

Na nota, Fachin destacou que situações com impacto direto sobre o sistema financeiro exigem atuação “firme, coordenada e estritamente constitucional” por parte das instituições responsáveis. Segundo ele, a Constituição atribui ao Banco Central a missão de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, proteger depositantes e prevenir riscos sistêmicos, funções que devem ser exercidas com autonomia técnica e sem interferências indevidas.

O presidente do STF também ressaltou o papel da Polícia Federal na apuração de crimes como gestão temerária, fraude financeira, lavagem de dinheiro e manipulação de informações, além da atuação do Ministério Público, por meio da Procuradoria-Geral da República, na persecução penal e no controle da legalidade das investigações.

Ao abordar o papel do Supremo Tribunal Federal, Fachin enfatizou que a Corte atua como guardiã da Constituição, respeitando o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Ele reforçou que, mesmo durante o recesso do Judiciário, decisões urgentes podem ser tomadas pela Presidência ou pelo relator, conforme prevê o regimento interno, e que todas as deliberações estão sujeitas à posterior análise do colegiado.

“O exercício regular da jurisdição durante o recesso é legítimo, sem exceção. Eventuais vícios ou irregularidades alegados serão examinados com a seriedade que merecem”, afirmou o ministro, destacando que a Presidência do STF não antecipa juízos, mas também não se esquiva de conduzir os processos dentro das regras institucionais.

Críticas, pressão política e defesa da democracia

Em um dos trechos mais contundentes da nota, Fachin reagiu a ataques dirigidos ao Supremo, afirmando que a Corte não se curva a ameaças ou intimidações. Segundo ele, tentativas de desmoralizar o STF para fragilizar sua autoridade representam um ataque direto à democracia constitucional e ao Estado de Direito.

“A crítica é legítima e necessária. O que não se admite é a destruição de instituições para a proteção de interesses escusos ou projetos de poder”, declarou. Para o presidente da Corte, transparência, ética e credibilidade são pilares essenciais para o fortalecimento do regime democrático.

Veja a íntegra da nota de Fachin:

Adversidades não suspendem o Direito. É precisamente nos momentos de tribulações que o império da legalidade, discernimento e serenidade demonstra sua razão de ser. É com os olhos voltados para esse dever que miro fatos presentes.As situações com impactos diretos sobre o sistema financeiro nacional exigem mesmo resposta firme, coordenada e estritamente constitucional das instituições competentes. A Constituição da República atribui ao Banco Central do Brasil o dever jurídico de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, a continuidade das operações bancárias essenciais, a proteção dos depositantes e a prevenção de riscos sistêmicos. Tais competências, de natureza técnica e indelegável, devem ser exercidas com plena autonomia e sem ingerências indevidas. A atuação da Polícia Federal é igualmente indispensável, sobretudo na apuração de eventuais práticas criminosas de gestão temerária, fraude financeira, manipulação de informações, lavagem de dinheiro e outros ilícitos previstos na legislação penal e financeira.

Cabe à Procuradoria-Geral da República, no âmbito de suas atribuições constitucionais, promover a persecução penal e controlar a legalidade das investigações. O Ministério Público, como instituição permanente, exerce papel fundamental na tutela da ordem econômica e do regime jurídico de defesa dos consumidores.

A seu turno, a Corte constitucional brasileira se pauta pela guarda da Constituição, pelo devido processo legal, pelo contraditório, e pela ampla defesa, cumprindo respeitar os campos de atribuições do Ministério Público e da Polícia Federal, porém, atuando na regular supervisão judicial, como vem sendo feito no âmbito dessa Suprema Corte pelo Ministro relator, DIAS TOFFOLI. No tocante ao Supremo Tribunal Federal, registro que o Tribunal Pleno se encontra atualmente em recesso. Nesse período, matérias urgentes são apreciadas pela Presidência ou pelo Relator, nos termos regimentais. Encontra-se regularmente no exercício da Presidência o Ministro Alexandre de Moraes, Vice-Presidente desta Corte. As matérias de competência do Tribunal Pleno ou das Turmas, quando decididas no recesso, serão, oportunamente, submetidas à deliberação colegiada, com observância do devido processo constitucional, da segurança jurídica e da uniformidade decisória. A colegialidade é método.

É legítimo o exercício regular da jurisdição por parte dos membros do Tribunal no período do recesso, sem exceção. Eventuais vícios ou irregularidades alegados serão examinados nos termos regimentais e processuais. Questões tais têm rito próprio e serão apreciadas pelo colegiado com a seriedade que merecem. A Presidência não antecipa juízos, mas tampouco se furta a conduzi-los.É induvidoso que todos se submetem à lei, inclusive a própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça.

O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço.Transparência, ética, credibilidade e respeitabilidade faz bem ao Estado de direito. Este deve ser compromisso de todos nós democratas.

Brasília, 22 de janeiro de 2026.

Luiz Edson Fachin, Presidente do Supremo Tribunal Federal

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading