Os assassinatos de dois políticos da Baixada Fluminense na última semana jogam luz sobre a violência contra pessoas com vínculos políticos na região. A exploração imobiliária de milícias e a disputa por redutos de influência são apontadas como as principais motivações desses atentados, que se intensificam em anos eleitorais.

Um levantamento feito pela Agenda do Poder identificou dez assassinatos de políticos da Baixada das eleições de 2024 para cá em áreas sob o domínio de grupos paramilitares (veja a lista abaixo).

O caso mais recente ocorreu no último sábado (25), quando o suplente de vereador Filipinho Cardoso foi morto a tiros em um depósito de bebidas no bairro Figueira, em Duque de Caxias.

O atentado ocorreu apenas dois dias após a morte do vereador Maninho de Cabuçu, baleado quando estava na garupa de uma moto em Nova Iguaçu, como mostra uma câmera de segurança. Ambos os crimes, ocorridos em áreas de domínio de grupos armados, são investigados pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF).

O sociólogo José Cláudio Alves diz que esses crimes estão ligados a uma estrutura ligada ao crime organizado. “São casos que ocorrem em meio a disputas políticas incorporadas a uma estrutura miliciana”, diz.

Ele acredita que o aumento da violência política em ano eleitoral pode estar relacionada a emendas parlamentares com potencial de arrecadação milionária e à construção da nova Ceasa em Duque de Caxias. Mas cita uma ligação ainda mais direta e preocupante com as milícias: a exploração imobiliária.

“As milícias controlam loteamentos clandestinos há muitos anos, que ajudaram a formar uma estrutura urbana explorada pelo crime organizado. O possível surgimento de novos empreendimentos imobiliários legalizados na Baixada mexe com essa estrutura de poder. Isso representa um projeto de urbanização controlado pela estrutura miliciana”.

José Cláudio Alves, sociólogo

José Cláudio Alves relaciona essa expansão imobiliária a mortes ligadas aos grupos paramilitares. “É voto, é grana, é ocupação territorial. E tudo isso em meio a um ano eleitoral, com articulações nos bastidores em uma área de milícia. Cada vez mais o mercado ilegal está articulado com o mercado legal. E, quem domina o jogo político, vai fazer essa articulação. É inevitável que ocorram assassinatos”, avalia.

Pesquisa mapeia conexão entre crimes e política

A reportagem também analisou o estudo “Violência e Crime na Política”, desenvolvido pelo Laboratório de Estudos sobre Política e Violência da UFF em conjunto com o Observatório das Favelas. Ao todo, foram pesquisados 267 casos de violência no meio político de janeiro de 2022 a junho de 2025.

Os dados indicam que os assassinatos mais que triplicam em anos eleitorais, com média de uma morte a cada 22 dias. O relatório, que também inclui ameaças e agressões, registrou 24 ataques em áreas sob o domínio de grupos armados em 2024, quando ocorreram as eleições municipais no país.

Um dos autores do estudo, o cientista social e pesquisador João Trajano diz que a pesquisa identifica um estreitamento nas relações entre a política institucional e os grupos armados em áreas sob o domínio do crime organizado.

“Há uma proximidade entre o meio político e figuras vinculadas a esses grupos criminais. Isso faz com que esses criminosos tenham uma participação política nas localidades onde ocorrem esses atendados”, diz.

“Tudo indica que existe um vínculo entre o controle territorial armado e o voto nessas regiões onde ocorrem violência letal envolvendo personagens ligados ao meio político. E a tendência é de que esses casos ocorram com maior frequência nos anos eleitorais”.

João Trajano, cientista social

De ‘escolhido pela milícia’ a alvo: quem era Maninho

Maninho de Cabuçu estava na garupa de uma moto quando foi baleado — Foto: Reprodução

Maninho de Cabuçu já foi apontado por investigações conduzidas pela Polícia Civil como suspeito de ter sido o “escolhido pela milícia” para atuar em Cabuçu, seu reduto político em Nova Iguaçu.

Ele chegou a ser alvo de um mandado de busca e apreensão durante as investigações que apuravam o assassinato de Domingos Barbosa Cabral, executado em outubro de 2020 por homens de touca ninja. Na época, o homem morto era candidato a vereador de Nova Iguaçu e rival político de Maninho.

O vereador Germano Silva, conhecido como Maninho de Cabuçu. — Foto: Reprodução

Em setembro de 2016, também às vésperas das eleições, Maninho chegou a ser detido com uma arma com documentação irregular e R$ 35 mil em dinheiro. Ele era apontado como suspeito de integrar uma franquia da antiga Liga da Justiça na Baixada Fluminense.

Nos últimos anos, porém, Maninho de Cabuçu conquistou poder político. O enterro dele mobilizou a população e autoridades políticas. O deputado estadual Carlinhos BNH (PP) pediu um minuto de silêncio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e solicitou prioridade nas investigações.

Pré-candidato ao Governo do Rio e presidente da Alerj, o deputado Douglas Ruas (PL) se manifestou sobre o caso. “Reafirmo o compromisso de zelar pelo pleno exercício dos mandatos parlamentares. Um episódio como este representa grave afronta às instituições democráticas”, afirmou.

Líder do governo Maurício Moraes e presidente da Câmara, Márcio Guerreiro, doaram sangue / Divulgação

O caso mobilizou os vereadores de Nova Iguaçu, que doaram sangue em homenagem ao parlamentar morto.

Sociólogo propõe federalização de investigações

O sociólogo Ignacio Cano relaciona o aumento da violência em anos eleitorais à ligação histórica da política com os grupos de extermínio na Baixada. “É uma das poucas regiões no país onde existe tradicionalmente a violência política na disputa por poder. Isso envolve candidatos sendo mortos. E, também, políticos investigados por suspeita de envolvimento nesses crimes”.

Para Cano, a única forma de coibir os crimes eleitorais é a federalização das investigações. “É inadmissível que políticos continuem sendo assassinados todos os anos nessa região. É preciso que haja uma investigação externa conduzida pela Polícia Federal para desarticular as conexões entre a política e a violência organizada”, propõe.

O sociólogo acredita que a violência política na Baixada tem inclusive desestimulado projetos políticos.

“A pessoa que quer se candidatar a algum cargo na Baixada pensa: ‘Eu posso ser assassinado, não vale a pena’. Isso desestimula a participação de novos candidatos, deixando a população refém de estruturas tradicionais armadas. Por isso, a política da região tem sempre as mesmas figuras carimbadas”.

Ignacio Cano, sociólogo

Ele diz, ainda, que a violência política na região está sempre vinculada à corrupção e a busca por benefícios a grupos políticos. “Não são assassinatos por motivos ideológicos, e é uma violência permanente”, explica.

Cronologia das mortes

15 de junho de 2024 – Juliana Lira de Souza, a Nega Juh, foi morta a tiros em Nova Iguaçu. Ela estava em um bar quando homens encapuzados desceram de um carro atirando. Nega Juh era pré-candidata a vereadora no município pelo PSOL. Alexsander de Souza Gomes, filho dela, também morreu na ação.

20 de junho de 2024 – O comerciante Livercino Marcelino dos Santos, o Lili da Kombi, foi assassinado a tiros na porta de um bar em Magé. Ele era pré-candidato a vereador na cidade de Guapimirim pelo partido Agir.

22 de junho de 2024 – Michel Laeber Estevão, o Xexéu, foi morto a tiros perto da sua casa em Duque de Caxias. Filiado ao MDB, ele era assessor do vereador Sandro Lelis.

13 de setembro de 2024 – Jean Paulo de Araújo foi morto a tiros ao ser alvo de um ataque a tiros quando estava em um carro com a esposa e o filho de 2 anos em Japeri. Na época, ele coordenava a campanha para a reeleição do vereador Rogério Castro (PSD).

24 de setembro de 2024 – João Fernandes Teixeira Filho, o Joãozinho Fernandes, foi morto a tiros em Nova Iguaçu. Na época do crime, ele era candidato ao cargo de vereador pelo Avante.

Silmar Braga foi um dos políticos mortos na Baixada / Crédito: Câmara de Magé

20 de janeiro de 2025 – O vereador Silmar Braga de Souza (PP) foi morto a tiros ao sair de casa em Magé. O suplente Mário Jorge Soares Gentil foi preso em dezembro daquele ano, acusado de ter sido o mandante do crime. Segundo a Polícia Civil, o crime foi motivado por uma disputa territorial entre eles por influência no Jardim Nova Marília. Genro de Gentil, Gutemberg de Santana foi preso em fevereiro deste ano sob a acusação de ter sido o autor do crime.

Dedinho foi socorrido com vida, mas não resistiu aos ferimentos I Reprodução

23 de maio de 2025 – Jorge Henrique da Costa Nunes, o Dedinho, ex-presidente da Câmara de Vereadores de Nilópolis morreu após ser baleado na frente da sua casa. Segundo a Polícia Civil, um carro passou em frente à casa do político e efetuou disparos em sua direção.

28 de março – Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que criminosos mataram Leonardo da Rosa Anjos em Japeri. Ele era filho do vereador Elias dos Anjos, filiado ao Solidariedade.

23 de abril – O vereador Germano Silva de Oliveira, o Maninho de Cabuçu, morreu após ter sido alvo de um atentado quando estava na garupa de uma moto em Nova Iguaçu. O atirador se aproximou em uma outra moto antes de disparar contra a vítima, em ação gravada por uma câmera de segurança.

Filipinho era suplente de vereador em Duque de Caxias / Crédito: arquivo pessoal

25 de abril – O suplente de vereador Luis Felipe Cardoso Nunes, o Filipinho Cardoso, estava em um depósito de bebidas em Duque de Caxias quando homens armados passaram pelo local atirando.

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