A investigação do assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo ganhou novos contornos. Fontes foi morto em uma emboscada em Praia Grande, no litoral paulista, onde exercia o cargo de secretário municipal de Administração desde 2023. O programa Fantástico, da TV Globo, revelou que o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa com a qual manteve histórico de confronto ao longo da carreira.
Ruy ingressou na Polícia Civil nos anos 1980 e ganhou destaque pelas investigações contra o crime organizado. Em 1999, comandou a prisão de Marcos Willian Camacho, o Marcola, que se tornaria o principal líder do PCC. Durante a série de ataques orquestrados pela facção em maio de 2006, foi um dos responsáveis pelas investigações.
Já em 2019, após assumir o cargo máximo da Polícia Civil paulista como delegado-geral, liderou a transferência de 22 chefes do PCC para presídios federais de segurança máxima. Na mesma época, policiais prenderam o grupo criminoso conhecido como Bonde dos 14. Em audiência sobre o caso, Fontes chegou a declarar que seu nome constava numa lista de alvos do PCC: “Meu nome estava entre eles”, afirmou na ocasião.
Ameaças seguiram
Mesmo após sua aposentadoria, em 2023, Ruy continuou recebendo ameaças. Segundo o Fantástico, um relatório sigiloso de 2024, chamado “Bate Bola”, detalhava planos de atentados contra autoridades e apontava ordens emitidas de dentro dos presídios. De acordo com o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, as instruções não saíam por escrito, mas eram transmitidas verbalmente, por meio de advogados e familiares de presos ligados à cúpula do PCC.
O relatório citava diretamente a perseguição a Gakiya e a Ruy Fontes. “Ele me disse: ‘Doutor Lincoln, o senhor está mais tranquilo porque está muito bem protegido pela sua escolta. Eu, como aposentado, não tenho esse direito’”, relatou o promotor.
Preocupação com segurança
Em entrevista anterior a um podcast do jornal O Globo, em parceria com a rádio CBN, Ruy também demonstrou preocupação com sua segurança. Disse que vivia sozinho em Praia Grande e que, por estar aposentado, não tinha a mesma estrutura de proteção oferecida a policiais da ativa. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o ex-delegado não chegou a solicitar escolta. A legislação atual não prevê proteção para policiais aposentados. No momento do crime, ele também não utilizava carro blindado.
Até agora, quatro pessoas foram presas por suspeita de envolvimento no assassinato. Daeshly Oliveira Pires teria transportado um dos fuzis usados na execução. Luiz Henrique Santos Batista, conhecido como Fofão, é apontado como responsável por ajudar na fuga. Rafael Dias Simões se entregou à polícia e é considerado um dos executores.
Willian Marques, dono da casa usada como base pela quadrilha em Praia Grande, também se apresentou às autoridades. A defesa de Marques afirmou ter sido surpreendida com a ordem de prisão, mas declarou que ele está disposto a colaborar com as investigações. Já o advogado de Rafael Dias negou a participação do cliente no crime. A reportagem não conseguiu contato com os representantes de Daeshly e Luiz Henrique.
Quem são os foragidos
Três suspeitos seguem foragidos: Flávio Henrique de Souza, Felipe Avelino da Silva (conhecido como Mascherano) e Luiz Antônio Rodrigues Miranda, que teria ordenado a busca pela arma usada na execução.
As investigações seguem em andamento. De acordo com o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Muraro Derrite, ainda não se descarta a hipótese de que o assassinato tenha ligação com o cargo de Ruy como secretário municipal. No entanto, ele afirma que o envolvimento do crime organizado é evidente: “Não temos dúvidas da participação do PCC”, concluiu.






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