As autoridades regulatórias e de investigação dos Estados Unidos apuram se o ex-deputado republicano George Santos, filho de brasileiros e figura envolvida em uma série de controvérsias políticas e judiciais nos últimos anos, utilizou informações privilegiadas para obter vantagem financeira em um mercado de apostas ligado a eventos políticos.
O caso ganhou repercussão após surgir a suspeita de que Santos teria apostado contra sua própria presença no tradicional discurso do Estado da União do presidente Donald Trump, realizado no fim de fevereiro, mesmo após anunciar publicamente que compareceria à cerimônia.
A investigação ocorre em um momento de crescente escrutínio sobre os chamados mercados de previsão, plataformas que permitem apostas financeiras em acontecimentos políticos, econômicos e sociais e que vêm registrando forte expansão nos Estados Unidos.
Aposta levantou suspeitas
Pouco antes do discurso de Trump, a participação de George Santos tornou-se um dos temas mais comentados entre usuários da plataforma Kalshi, especializada em mercados de previsão. Apostadores negociavam contratos relacionados à lista de convidados e à presença de figuras políticas no evento.
Em meio às especulações, o próprio Santos publicou um vídeo na rede social X para alimentar a expectativa.
“Estarei na plateia”, provocou Santos em um vídeo publicano no X.
O que chamou a atenção das autoridades, porém, foi o fato de o ex-congressista não ter comparecido ao discurso. Segundo uma pessoa familiarizada com o caso, que falou sob condição de anonimato ao jornal The New York Times, a Kalshi identificou que Santos teria apostado justamente contra sua presença no evento.
Diante da suspeita de uso de informação privilegiada, a empresa decidiu encaminhar o caso ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos e à Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), órgão responsável pela supervisão dos mercados de previsão e de determinados instrumentos financeiros.
Regulador financeiro abriu apuração
De acordo com outra fonte ouvida pelo The New York Times, a CFTC já conduz uma investigação formal sobre o caso. Ainda não há confirmação de que o Departamento de Justiça tenha aberto um procedimento próprio.
George Santos não respondeu aos pedidos de comentário encaminhados pela imprensa dos EUA.
A investigação coloca novamente os holofotes sobre o funcionamento dos mercados de previsão, um setor que vem crescendo rapidamente e que se tornou alvo de debates sobre transparência, fiscalização e possíveis conflitos de interesse.
A Kalshi, uma das principais empresas do segmento, possui ligações com integrantes do círculo político e empresarial ligado ao presidente Donald Trump. No início do ano passado, a companhia anunciou Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente, como consultor estratégico.
Pressão sobre a fiscalização
O caso surge em meio a questionamentos sobre a atuação da própria CFTC na supervisão desse mercado.
Uma investigação publicada recentemente pelo The New York Times apontou que a agência reguladora adotou uma série de decisões favoráveis às empresas de mercados de previsão durante a atual administração Trump.
A reportagem também revelou que dois funcionários de carreira da comissão, que teriam questionado a condução de processos envolvendo essas plataformas, foram afastados de suas funções e submetidos a investigações internas.
Em entrevista ao jornal, o presidente da CFTC, Michael S. Selig, afirmou que a agência pretende agir com rigor diante de eventuais irregularidades e prometeu responsabilizar quem violar as regras do setor.
Trajetória marcada por escândalos
A nova investigação adiciona mais um capítulo à trajetória turbulenta de George Santos.
Eleito para representar o estado de Nova York na Câmara dos Deputados, Santos passou a ser alvo de questionamentos após reportagens revelarem inconsistências e falsidades em sua biografia.
Em 2023, o ex-congressista foi acusado de fraude depois que investigações jornalísticas apontaram que ele teria mentido sobre aspectos de sua formação acadêmica, trajetória profissional e patrimônio.
Posteriormente, promotores federais o acusaram de apresentar informações falsas em documentos oficiais e de participar de esquemas envolvendo recursos de campanha e doações políticas.
A gravidade das acusações levou à sua expulsão da Câmara dos Deputados, uma medida rara na história do Congresso estadunidense.
Mais tarde, Santos foi condenado a sete anos de prisão. No entanto, acabou deixando a prisão após o presidente Donald Trump decidir comutar sua pena.
Sequência de casos envolvendo informação privilegiada
A apuração envolvendo George Santos não é um episódio isolado.
Nas últimas semanas, autoridades dos EUA abriram outras investigações relacionadas ao uso indevido de informações privilegiadas em mercados de previsão.
No mês passado, o Departamento de Justiça e a CFTC acusaram um funcionário do Google de utilizar informações internas para realizar apostas sobre resultados de buscas na internet.






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