Os Estados Unidos formalizaram a retirada do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em meio a um novo confronto entre o governo de Donald Trump e organismos internacionais. A decisão foi divulgada nesta sexta-feira (18), um dia depois de uma missão independente da ONU apontar fundamentos razoáveis para acreditar que forças estadunidenses cometeram crimes de guerra durante ataques no Irã.
O Departamento de Estado dos EUA anunciou o encerramento formal da participação do país no conselho. Washington acusa o órgão de promover o que classificou como “retórica antiamericana”.
A decisão ocorre no momento em que os Estados Unidos enfrentam questionamentos sobre duas ofensivas realizadas em território iraniano em 28 de fevereiro, no primeiro dia do conflito. A missão de investigação da ONU analisou bombardeios contra uma escola primária em Minab e contra um complexo esportivo e uma área residencial em Lamerd.
As conclusões apresentadas pelos peritos não representam uma condenação judicial dos Estados Unidos. A missão independente reúne e analisa evidências e pode produzir material que eventualmente seja utilizado em outros procedimentos nacionais ou internacionais.
Ataque a escola matou mais de 150 pessoas
O caso mais grave analisado pela missão envolve o bombardeio da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, em Minab. Segundo o relatório, mais de 150 pessoas morreram no local, incluindo cerca de 120 crianças.
Os investigadores apontaram motivos razoáveis para acreditar que o ataque dos EUA foi “indiscriminado contra civis e bens de caráter civil”.
O relatório também identificou o emprego de mísseis Tomahawk no bombardeio contra a escola e questionou se foram tomadas todas as precauções necessárias para confirmar a existência de um alvo militar no local antes da ofensiva.
Segundo a missão, as características externas do prédio permitiam sua identificação como uma instalação escolar. Os investigadores concluíram que o episódio pode configurar violação das normas internacionais aplicáveis aos conflitos armados.
ONU também investiga bombardeio em Lamerd
A missão analisou ainda um ataque realizado no mesmo dia em Lamerd. A ofensiva atingiu um complexo esportivo e uma área residencial e deixou 22 civis mortos ou feridos, segundo os investigadores.
Os peritos chegaram a uma conclusão semelhante à do episódio de Minab e afirmaram haver fundamentos razoáveis para acreditar que o ataque também tenha sido indiscriminado. Considerando os dois episódios, ao menos 178 civis foram mortos, de acordo com o relatório.
O documento não se restringe, porém, à atuação estadunidense. A missão também acusou autoridades iranianas de crimes contra a humanidade durante a repressão aos protestos iniciados no fim de 2025, apontando episódios de mortes ilegais, tortura e detenções arbitrárias.
Washington rompe com conselho
A retirada amplia o histórico de divergências entre Donald Trump e o Conselho de Direitos Humanos. Durante seu primeiro mandato, em 2018, o republicano já havia retirado os Estados Unidos do órgão, alegando, entre outros motivos, viés contra Israel e problemas na composição do colegiado. O país retornou durante o governo de Joe Biden.
Agora, Washington volta a se afastar formalmente do conselho em um momento de forte tensão internacional envolvendo o conflito com o Irã.
Nesta semana, o episódio de Minab também foi lembrado na sede da ONU em Genebra. A Missão Permanente do Irã junto às Nações Unidas organizou uma exposição com pinturas de crianças da cidade.
A mostra, intitulada “As Crianças Ainda Pintam o Sol”, foi apresentada enquanto o Conselho de Direitos Humanos se prepara para discutir as conclusões da missão independente sobre as violações atribuídas tanto aos Estados Unidos durante os ataques quanto ao governo iraniano na repressão interna.







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