Estudo indica ligação entre dengue e síndrome de Guillain-Barré no Brasil

Análise com dados do SUS mostra aumento expressivo do risco nas semanas após a doença

O Brasil enfrentou, em 2024, a maior epidemia de dengue de sua história recente, com cerca de 6,5 milhões de casos prováveis e mais de 5.800 mortes. Embora 2025 tenha registrado uma redução significativa, com aproximadamente 1,6 milhão de casos até novembro, a circulação do vírus seguiu elevada. Para 2026, projeções da Fiocruz indicam que a doença continuará a afetar a população, com estimativa de cerca de 2 milhões de infecções.

Além dos sintomas mais comuns, como febre, dores no corpo, mal-estar e manchas vermelhas, pesquisadores passaram a investigar uma possível associação entre a dengue e complicações neurológicas raras, como a síndrome de Guillain-Barré. Os resultados foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine deste mês.

Risco aumentado após infecção

O estudo analisou dados do Sistema Único de Saúde e identificou que pessoas infectadas pela dengue têm um risco 17 vezes maior de desenvolver a síndrome de Guillain-Barré nas seis semanas seguintes à infecção, em comparação com períodos posteriores.

A análise foi feita com base em três grandes bancos de dados nacionais: registros de hospitalizações, notificações de dengue e óbitos. Entre 2023 e 2024, foram identificadas mais de 5.000 internações por Guillain-Barré, sendo 89 delas associadas a infecções recentes por dengue.

O risco se mostrou ainda mais elevado nas duas primeiras semanas após o início dos sintomas, quando pode chegar a ser cerca de 30 vezes maior. Após seis semanas, os índices retornam ao padrão esperado.

O que é a síndrome de Guillain-Barré

A síndrome de Guillain-Barré é uma condição rara, geralmente desencadeada por infecções, em que o sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos. Os primeiros sinais costumam ser fraqueza muscular nas pernas e formigamento nos pés, podendo evoluir para braços e rosto.

Em casos mais graves, o quadro pode levar à paralisia total e à necessidade de suporte respiratório. Embora rara, a condição exige atenção imediata, especialmente após episódios recentes de infecção viral.

Como o estudo foi conduzido

Para investigar a relação entre dengue e Guillain-Barré, os pesquisadores utilizaram uma metodologia chamada série de casos autocontrolada. Nesse modelo, cada paciente é comparado com ele mesmo em diferentes períodos de tempo.

A análise considerou o intervalo entre uma e seis semanas após o início dos sintomas de dengue e comparou com períodos posteriores. Esse método permitiu identificar com maior precisão o aumento do risco associado à infecção.

Em termos absolutos, a estimativa aponta que, a cada 1 milhão de casos de dengue, cerca de 36 pessoas podem desenvolver a síndrome.

Tratamento e importância do diagnóstico precoce

O tratamento da síndrome de Guillain-Barré é mais eficaz quando iniciado rapidamente. As principais opções disponíveis no SUS são a imunoglobulina intravenosa e a plasmaférese, procedimento que filtra o sangue para remover anticorpos que atacam os nervos.

O país conta com 136 Centros Especializados em Reabilitação para atender pacientes com a condição. Ainda assim, o fator tempo é decisivo: quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de recuperação.

Por isso, sintomas como fraqueza nas pernas, dificuldade para caminhar ou formigamento após um quadro recente de dengue devem ser avaliados com urgência.

Prevenção e vacinação

O controle da dengue continua sendo essencial para evitar não apenas os sintomas mais conhecidos, mas também complicações mais graves. Medidas como eliminar água parada, combater o mosquito Aedes aegypti e ampliar a cobertura vacinal são consideradas fundamentais.

A vacina contra a dengue passou a ser oferecida no SUS em 2024, inicialmente para adolescentes de 10 a 14 anos. No entanto, a cobertura ainda não atingiu o nível recomendado. Com a aprovação de um novo imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, a expectativa é ampliar as faixas etárias atendidas.

Outras estratégias também vêm sendo testadas, como a liberação de mosquitos com a bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade de transmissão do vírus.

Desafio global de saúde

A dengue integra o grupo das arboviroses, que já demonstraram potencial de causar impactos severos na saúde pública, como ocorreu com o zika vírus, associado à microcefalia e ao aumento de casos de Guillain-Barré.

O enfrentamento dessas doenças exige ação coordenada entre governo, profissionais de saúde e população. O avanço da pesquisa científica amplia o conhecimento sobre os riscos, mas também reforça a necessidade de prevenção contínua.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading