Mais de 4.400 episódios de violência armada registrados no entorno de escolas públicas apenas em 2022 ajudam a dimensionar o impacto da insegurança sobre a educação no estado do Rio de Janeiro.
Os dados, que atingem cerca de 1.800 unidades e aproximadamente 800 mil estudantes, foram apresentados em audiência pública realizada nesta quinta-feira (30) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que discutiu os efeitos diretos desses episódios no aprendizado e na permanência dos alunos.
O levantamento faz parte do estudo “Educação Sob Cerco”, elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado, pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Segundo os pesquisadores, a violência armada se consolidou como um obstáculo recorrente ao funcionamento regular das escolas.
Impacto desde 2022
Os números indicam que o problema não é pontual. Em 2022, os mais de 4.400 registros de tiroteios próximos a escolas afetaram quase metade dos estudantes da rede em determinadas regiões. O estudo aponta que a exposição frequente à violência interfere diretamente na rotina escolar e nas condições de aprendizagem.
Entre as áreas mais atingidas, o Complexo da Maré aparece com 276 episódios registrados nas proximidades de 45 escolas. Outras regiões como Vila Kennedy, Manguinhos, Rocinha, Jacarezinho e Costa Barros também apresentam altos índices.
Interrupções nas aulas
Dados mais recentes mostram que o cenário se manteve nos anos seguintes. Entre 2023 e julho de 2025, foram registradas mais de 2.200 interrupções no funcionamento de escolas por causa de confrontos armados e operações policiais.
Em setembro de 2024, um único dia concentrou o fechamento de pelo menos 27 unidades. As paralisações afetam o calendário escolar e dificultam a continuidade das atividades pedagógicas.
Efeitos na permanência escolar
Durante a audiência, a deputada Dani Balbi (PC do B), presidente da Comissão de Trabalho, destacou que a violência tem reflexos diretos na evasão escolar.
“As unidades escolares têm que interromper suas atividades quando há episódios de violência, o que gera um aumento da taxa de abandono escolar. Esta é uma realidade que precisamos enfrentar”, afirmou.
Ela também chamou atenção para o ambiente dentro das escolas. “A juventude negra, as mulheres, com aumento da misoginia, encontram um ambiente mais hostil”, disse.
Relatos da comunidade escolar
Representantes de estudantes, professores e gestores relataram dificuldades enfrentadas no dia a dia. A presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, Roberta Poullynne, defendeu mudanças no modelo de ensino.
“A escola que temos hoje não nos forma criticamente e defendemos a construção de um novo modelo de educação”, afirmou.
Já a presidente da Associação dos Diretores de Escolas Públicas do Estado do Rio de Janeiro, Teresa Pimentel, destacou a falta de apoio aos profissionais. “Todos os dias, recebemos denúncias e reclamações sobre questões de violência na escola. E os diretores não têm apoio do governo para nos ajudar a enfrentar o problema”, disse.
Propostas e encaminhamentos
Ao final da audiência, a comissão definiu uma série de medidas, como o envio de ofícios à Secretaria de Estado de Educação e ao governo estadual solicitando a retomada do cargo de inspetor escolar e a garantia de recursos para alimentação nas unidades.
Também foi proposta a inclusão de verbas na Lei de Diretrizes Orçamentárias para realização de concursos públicos na área da educação, além do encaminhamento das demandas ao Supremo Tribunal Federal.
A expectativa é que as propostas contribuam para reduzir os impactos da violência no ambiente escolar e melhorar as condições de ensino no estado.






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