‘Estamos tentando fazer uma revolução’: da França à Albânia, jovens ocupam as ruas e sacodem a Europa

Manifestações contra o custo de vida, a crise habitacional, a precarização da educação e denúncias de corrupção mobilizam milhares de pessoas; jovens lideram atos que se espalham pelo continente

Adicione a Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

Uma onda de manifestações contra a deterioração das condições de vida, o aumento das desigualdades e a insatisfação com os governos tomou as ruas de diferentes países europeus neste fim de semana, informa O Globo. Os protestos, marcados pela forte presença de jovens e estudantes, provocaram confrontos com a polícia, incêndios em prédios públicos e milhares de detenções, principalmente na França, onde mais de 1.800 pessoas foram presas.

Além dos franceses, manifestantes ocuparam ruas e praças da Bélgica, Itália, Portugal e Albânia, com reivindicações que vão desde a redução do custo da educação até o combate à corrupção. Em Lisboa, jovens montaram um acampamento contra os preços dos imóveis, enquanto estudantes albaneses enfrentaram a polícia pelo quinto dia consecutivo no sábado (17).

Embora tenham motivações específicas em cada país, os movimentos refletem uma insatisfação crescente com a perda do poder de compra, a dificuldade de acesso à moradia, os baixos salários e o enfraquecimento dos serviços públicos.

Os protestos também ultrapassaram as fronteiras europeias. Na Tunísia, no norte da África, milhares de pessoas marcharam contra a crise econômica e as restrições às liberdades democráticas.

França tem 1.800 presos, centenas de feridos e prefeitura destruída por incêndio

A França registrou as maiores manifestações do fim de semana. Entre 550 mil e 800 mil pessoas participaram dos atos de sábado, segundo estimativas das autoridades e da central sindical CGT, respectivamente.

A mobilização foi convocada pelo movimento dos Coletes Amarelos e reuniu estudantes que protestam desde setembro contra as condições das escolas e a precarização do ensino.

Embora a maior parte das manifestações tenha ocorrido pacificamente, grupos promoveram saques, depredações e ataques a edifícios públicos.

Um dos episódios mais graves aconteceu em Limoges, onde um incêndio destruiu grande parte da prefeitura, um edifício histórico do século XIX.

O balanço divulgado neste domingo (18) pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez, aponta mais de 1.800 presos e mais de 500 policiais, gendarmes e bombeiros feridos. Aproximadamente 1.500 estabelecimentos comerciais sofreram danos.

O governo francês atribuiu os episódios de violência à “ultraesquerda” e ao partido França Insubmissa. O líder da legenda, Jean-Luc Mélenchon, reagiu responsabilizando o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, a quem acusou de ser “responsável pelo caos”.

Diante da dimensão dos distúrbios, os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon solicitaram uma reunião com Lecornu.

O presidente Emmanuel Macron deverá fazer um pronunciamento à nação neste domingo, às 20h no horário francês, 15h em Brasília, em meio ao agravamento da crise política e social.

Bélgica e Itália registram confrontos entre estudantes e policiais

Na Bélgica, centenas de manifestantes, principalmente jovens, ocuparam o centro de Bruxelas no sábado para protestar contra o aumento dos custos da educação e mudanças que, segundo organizações estudantis, poderão dificultar o acesso ao ensino superior.

Parte da mobilização foi inspirada pelos protestos na vizinha França, conforme informações da agência Reuters.

Durante os atos, grupos de manifestantes mascarados entraram em confronto com as forças de segurança, que utilizaram gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar a multidão.

“O que está acontecendo em Bruxelas já não é um simples protesto”, escreveu no X o ministro do Interior belga, Bernard Quintin, que prometeu usar “todos os meios necessários para restabelecer a ordem diante dos desordeiros”.

Também houve manifestações em Liège, no leste do país, onde estudantes denunciam o aumento dos custos de materiais escolares e as dificuldades enfrentadas no sistema de ensino francófono.

Na Itália, protestos contra o custo de vida, os baixos salários e a insegurança no emprego terminaram em confrontos em Milão, Bolonha e Turim.

Em Bolonha, manifestantes lançaram pedras e garrafas contra policiais nas proximidades da estação ferroviária. As forças de segurança responderam com gás lacrimogêneo e jatos de água.

Em Milão, uma barricada formada por materiais inflamáveis foi incendiada diante da Catedral de Milão, na Piazza Duomo. Policiais também tentaram dispersar grupos encapuzados nas imediações da Galleria Vittorio Emanuele II, tradicional centro comercial da cidade.

Em Roma, dezenas de milhares de pessoas participaram de uma manifestação sindical pacífica na Piazza del Popolo.

Durante o ato, Maurizio Landini, secretário-geral da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL), anunciou uma greve geral para 20 de novembro, data em que também está prevista uma mobilização estudantil de alcance europeu.

Crise da habitação leva manifestantes a montar acampamento em Lisboa

Em Portugal, a indignação com os preços dos imóveis e a perda do poder de compra levou milhares de pessoas às ruas em diferentes cidades.

Em Lisboa, centenas de manifestantes, principalmente jovens, montaram dezenas de tendas na Praça do Rossio, uma das áreas mais movimentadas da capital portuguesa.

O acampamento foi instalado após manifestações contra o custo da moradia e amplia uma mobilização semelhante iniciada na cidade do Porto.

Os protestos também encontram paralelo na Espanha, onde movimentos sociais vêm denunciando há semanas as dificuldades de acesso à habitação.

Segundo dados oficiais, os preços dos imóveis em Portugal aumentaram 124% entre 2015 e 2024, aproximadamente o dobro da média registrada na União Europeia.

O encarecimento da moradia, associado aos salários e ao custo de vida, tem dificultado especialmente o acesso dos jovens à casa própria e ao aluguel.

“A classe social portuguesa que paga impostos, que mantém este país a funcionar, está sob ataque e a perder os seus direitos, nomeadamente o direito à habitação”, afirmou a assistente social Elena Costa, de 46 anos.

O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, declarou no início da semana que compreende a insatisfação popular, mas pediu aos adversários políticos que não importem para o país “climas de instabilidade e protesto”.

A declaração foi interpretada como uma referência à onda de manifestações na França.

Albânia enfrenta sexto dia de confrontos e pressão pela renúncia do primeiro-ministro

Na Albânia, os protestos contra o governo do primeiro-ministro Edi Rama chegaram neste domingo ao sexto dia consecutivo de confrontos.

No sábado, manifestantes mascarados, muitos deles estudantes secundaristas e universitários, lançaram pedras e coquetéis molotov contra policiais que protegiam o Ministério da Educação, em Tirana.

Segundo a BBC, as forças de segurança responderam com gás lacrimogêneo e canhões de água. Também surgiram relatos sobre o uso de balas de borracha.

Oitenta pessoas foram acusadas de participação em desordens, enquanto centenas foram presas ou passaram a ser investigadas.

Os protestos tiveram início em junho, inicialmente associados a reivindicações estudantis, mas ganharam dimensão política após denúncias de corrupção envolvendo integrantes da administração de Rama, que governa o país há 13 anos.

A tensão aumentou depois da prisão de Vlora Hyseni, chefe do serviço secreto albanês, acusada de ajudar um empresário próximo ao primeiro-ministro a escapar da Justiça.

Rama nega conhecimento de irregularidades e atribui os protestos à oposição e à “agenda sinistra de atores estrangeiros”, sem identificar quais seriam esses grupos.

A influência das manifestações francesas também aparece no discurso dos estudantes albaneses.

Em entrevista à BBC, um estudante de Medicina de 19 anos, identificado apenas como George, afirmou que os manifestantes decidiram endurecer a mobilização após meses de protestos sem resultados.

“Fomos pacíficos por 135 dias. Agora estamos tentando fazer como na França, estamos tentando fazer uma revolução”, disse.

Tunísia também registra manifestações contra pobreza e restrições às liberdades

A insatisfação popular também levou milhares de pessoas às ruas na Tunísia, país do norte da África que atravessa uma crise econômica e política.

Mais de 3 mil manifestantes participaram de uma marcha no sábado, em Túnis, convocada pela central sindical UGTT e por partidos de oposição.

Os participantes denunciaram a alta do custo de vida, a corrupção e as restrições às liberdades individuais e políticas.

A manifestação ocorreu sob forte presença policial na Avenida Habib Bourguiba, tradicional palco de mobilizações políticas na capital tunisiana.

“Não há democracia sem liberdades” e “não há dignidade com pobreza”, diziam cartazes.

A estudante de Odontologia Mayssa Batikh, de 21 anos, criticou a situação econômica e política do país.

“Temos o direito de viver com dignidade. As políticas atuais não tranquilizam os jovens, e a corrupção bloqueia tudo”, afirmou a estudante de Odontologia Mayssa Batikh, de 21 anos.

A Tunísia foi o único país a consolidar inicialmente uma experiência democrática após a Primavera Árabe, em 2011. Entretanto, organizações de direitos humanos denunciam o enfraquecimento das instituições e das liberdades desde que o presidente Kais Saied concentrou poderes, em 2021.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo