O maior medo das mulheres no Brasil é sofrer um estupro. Em 2025, 82% disseram ter “muito medo” de serem vítimas de violência sexual, e 97% afirmaram conviver com algum grau de temor. Os dados são de pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva e revelam um cenário de insegurança persistente.
Esse medo tem base concreta. Entre 2022 e 2025, o país registrou 22.800 casos de estupro coletivo, quando duas ou mais pessoas participam da violência. São mais de 15 ocorrências por dia, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
No Rio de Janeiro, um dos casos mais recente e que ganhou a mídia no mês de março, época em que se é celebrado o mês da mulher, foi o estupro coletivo de uma adolescente em um apartamento de Copacabana, Zona Sul. Quatro homens de 18 e 19 anos e um adolescente de 17 respondem pelo crime.
Mas esse não foi o único caso ocorrido na capital e no estado. Neste mesmo mês, Agenda do Poder noticiou ao menos cinco episódios de violência sexual.
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que a denúncia é fundamental para interromper o ciclo da violência, garantir proteção às vítimas e possibilitar a responsabilização dos agressores.
Violência ocorre, na maioria das vezes, dentro do convívio da vítima
Ao contrário do senso comum, a maior parte dos casos não envolve desconhecidos. Segundo a pesquisa, 84% dos estupros são cometidos por homens do círculo social da vítima. Entre meninas de até 13 anos, uma estatística aterradora: 72% das violências ocorrem dentro de casa. Na metade dos casos, o agressor é um familiar; em um terço, um amigo ou conhecido da família.
“Na maioria das vezes, a violência sexual acontece no âmbito doméstico. Existem mulheres que são vítimas de crime sexual na rua e por autores desconhecidos, mas os dados estatísticos mostram que a maioria dos autores são homens conhecidos ou companheiros da vítima”, aponta a delegada Elisa Borboni, titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) em Niterói.

Na especializada, o atendimento começa com o acolhimento da vítima e a coleta das primeiras informações. Segundo Elisa, a investigação desse tipo de crime é complexa, principalmente pela ausência de testemunhas e, muitas vezes, de provas imediatas. Por isso, o relato da vítima é peça central para o andamento do inquérito e deve ser considerado com atenção desde o primeiro momento.
“É um crime que gera na vítima uma repulsa. Percebemos, na prática, que o ímpeto da mulher é uma ação que acaba levando ao apagamento dos vestígios. Colocar a roupa para lavar, se limpar. E a gente entende. A palavra da vítima, nesses casos, tem especial relevância”, detalha a delegada.
“A violência sexual, na maioria das vezes, acontece quando os dois estão em algum lugar que ninguém tem acesso. Então, se conseguirmos as provas técnicas, encaminhar a vítima para um exame de corpo de delito, é melhor. Mas a palavra dela é o que mais consideramos.”
Elisa Borboni, titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) em Niterói
Trauma pode ser duradouro e silencioso
Os efeitos da violência sexual vão além do momento do crime. Adriana Lins, coordenadora do Centro Especializado em Atendimento à Mulher (Ceam) Neuza Santos, equipamento da Prefeitura de Niterói, explica que as vítimas podem desenvolver ansiedade, depressão, além de outros impactos que se prolongam por anos.
“A gente observa que elas podem chegar em um quadro de desespero, de medo, de culpabilização, com vergonha, em sofrimento emocional por conta da violência sofrida. Cada mulher chega de uma maneira, mas chega em sofrimento, e isso é importante estarmos atentos”, enfatiza.
“O fato de conseguir falar e perceber que não está sozinha, ela conseguir ter a possibilidade de perceber que não é culpada por aquilo que viveu, ter um acolhimento…O que a gente oferece é esse plano de cuidado, esse acompanhar, na possibilidade dela ressignificar a violência vivida, entender que aquela violência não a define como mulher.”
Adriana Lins, coordenadora do Ceam (Niterói)
O espaço funciona como uma porta de entrada para as vítimas de violência que buscam ajuda. Lá, além do acolhimento, às mulheres recebem assistência psicológica, social e jurídica. A cidade completou, em fevereiro de 2026, um ano inteiro sem nenhum caso de feminicídio.

“Nossa intervenção funciona muito no trabalho de fortalecimento da mulher e de compreender o impacto dessa violência na vida dela. Na construção com ela, para que possa se fortalecer, se proteger e receber o cuidado que busca”.
“Até as primeiras 72h, ela passa por um atendimento em saúde, independente do registro de ocorrência ou não, ela tem esse atendimento para realizar as profilaxias, a prevenção a IST e gravidez”, reforça a profissional.
Sinais de alerta
Segundo a delegada Elisa, não existe um perfil único de agressor, mas há comportamentos recorrentes que podem servir de alerta. O controle excessivo da rotina aparece como um dos principais sinais, muitas vezes acompanhado do isolamento progressivo da vítima em relação à família e aos amigos.
“Quem convive com essa vítima percebe um isolamento. Então, é uma mulher que a partir do momento que o relacionamento se torna violento, começa a se isolar da família, dos amigos… Esse isolamento vem acompanhado de um julgamento. Mas o isolamento da vítima é um alerta de que, talvez, aquela seja uma relação adoecida pela violência”, detalha.
A delegada também destaca que o ciúme excessivo e a vigilância constante do cotidiano são características comuns.
“O agressor, especialmente o agressor sexual, demonstra ciúmes excessivos. Adota diversas formas de controle do dia a dia da vítima. Relacionamentos marcados por controle e isolamento tendem a ser relacionamentos marcados pela violência”, diz.

Impactos sociais da violência
Ao ser questionada sobre as principais demandas das vítimas, além do trauma psicológico, a professora Silene de Moraes, da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio (Uerj), enumera:
“Necessidades básicas de subsistência. Solicitação de abrigo emergencial para mulheres e crianças, acesso a alimentos, vestuário, auxílio transporte e itens de higiene. Por mais básico que possa parecer, essa é uma demanda constante que o serviço social recebe. Além do impacto emocional, do impacto psicológico, dos casos da violência, a atuação técnica também trabalha na rede de garantias de direitos básicos”.
A especialista também chama atenção para a dificuldade de denúncia, que ainda marca a maioria dos casos.
“Grande parte das ocorrências é subnotificada, com estudos apontando que cerca de 8 em cada 10 vítimas não procuraram atendimento especializado”, afirma. Segundo ela, o medo é um dos principais fatores. “As vítimas temem represálias por parte do agressor, que muitas vezes é alguém conhecido ou próximo da família. Ameaças diretas são um fator comum para o silêncio.”
“E muitas vítimas não conhecem seus direitos, desconhecem os serviços especializados de apoio ou acreditam que a denúncia precisa de provas imediatas.”
Silene de Moraes, professora da Faculdade de Serviço Social da Uerj
“Independente de ter vestígio, não precisa de crime para ter medida protetiva. As mulheres sofrem muita pressão dos maridos. Às vezes, ela não quer prender o agressor, mas também não quer que ele se aproxime. Aí vem a medida protetiva. Elas podem chegar aqui hoje e falar: ‘Eu tenho um companheiro que não quero mais que se aproxime de mim’. E não relatar o crime. Ela tem esse direito, a gente vai fazer o pedido e enviar para a Justiça”, completa Elisa.
Apoio e reconstrução
Como parte das políticas públicas voltadas às mulheres no Rio, as salas Mulher Cidadã surgem como espaços de convivência, capacitação e fortalecimento. O projeto, desenvolvido pela Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Mulher, oferece oficinas, rodas de conversa e atividades voltadas ao bem-estar e à autonomia feminina.

Coordenadora da unidade de Paciência, Candida Vieira explica que a proposta não é atuar diretamente no enfrentamento da violência, mas funcionar como porta de entrada e apoio para muitas mulheres.
“Contamos com uma equipe multidisciplinar preparada para acolher, avaliar cada situação e realizar os encaminhamentos adequados”, afirma.
Segundo ela, os encontros acabam assumindo também um papel importante de escuta: “Em alguns casos, o espaço se torna um lugar de desabafo, já que a crença de não haver saída para a situação vivida é predominante. Por isso, o trabalho é minucioso e sensível, pensado para atuar de forma gradual e transformadora”.
“As atividades propostas promovem autonomia, fortalecem a autoestima e ajudam a ressignificar a percepção que essas mulheres têm de si mesmas, mostrando, na prática, que são capazes de conquistar e transformar suas próprias trajetórias”.
Relembre casos de violência sexual ocorridos no mês de março
No dia 2 de março, a Polícia Civil passou a investigar uma denúncia de abuso e importunação sexual contra uma menina de 7 anos dentro da Escola Municipal Mestra Fininha, no bairro do Barreto, em Niterói. Segundo a família, a criança foi abordada por um homem dentro do banheiro da unidade. De acordo com o relato, o suspeito teria pressionado a porta para entrar e se exposto para a vítima. O caso segue sob investigação.
No dia 8 de março, dois homens, de 26 e 23 anos, e uma jovem de 19 foram presos, e um adolescente de 17 anos foi apreendido, suspeitos de participar de um estupro coletivo contra duas adolescentes de 13 anos, em Valença, no interior do estado. Conforme a Polícia Militar, uma das vítimas foi ameaçada para não relatar o ocorrido.
No dia 10 de março, Ademir da Costa Verrheryen foi preso em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, suspeito de cometer estupro virtual, extorsão, violência psicológica e perseguição contra adolescentes pela internet. Segundo a Polícia Civil, uma das vítimas tinha 11 anos quando passou a ser ameaçada e permaneceu sob intimidação por cerca de nove anos, até decidir denunciar o caso.
Também no dia 10 de março, um professor universitário foi preso no bairro do Grajaú, na Zona Norte do Rio, suspeito de abusar sexualmente de quatro meninas, com idades entre 10 e 14 anos. De acordo com as investigações, ele se aproveitava da vulnerabilidade financeira das famílias e da relação de confiança estabelecida por meio de um projeto de assistência jurídica para se aproximar das vítimas. A polícia aponta ainda que o suspeito produzia e armazenava registros dos abusos.
No dia 11 de março, um homem foi preso, acusado de estuprar uma mulher com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. A investigação aponta que ele ofereceu carona à vítima e desviou o trajeto até a Praia da Reserva, onde cometeu o crime. De acordo com a polícia, a mulher estava em situação de vulnerabilidade devido ao transtorno e usava um cordão identificador. Ela procurou atendimento médico e registrou o caso na delegacia.
Como buscar ajuda
Em casos de emergência, mulheres vítimas de violência devem ligar para o 190 ou acionar o botão de emergência do app Rede Mulher, que envia em tempo real a localização da vítima para a Central da Polícia Militar.
As mulheres fluminenses contam ainda com as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) e os Núcleos Integrados de Atendimento à Mulher (Niams). Os endereços estão neste link, na parte ‘atendimento à mulher’.
Qualquer mulher que sofre violência pode buscar ajuda na rede de proteção do estado, responsável pelos encaminhamentos para o Lar da Mulher. É necessário procurar algum Centro Especializado de Atendimento à Mulher ou as delegacias especializadas.
Queimados
Endereço: Rua Ministro Odilon Braga 26, Centro
Horário: 8h às 17h
Telefone (whatsApp): 21 99370-8773
Baixada (Nova Iguaçu)
Endereço: Rua Terezinha Pinto 297, 2º andar, Centro
Horário: 9h às 17h
Telefone (whatsApp): 21 99370-0206
Márcia Lyra (Rio)
Endereço: Rua Regente Feijó 15, Centro
Horário: 9h às 18h
Telefone (whatsApp): 21 99369-1159
Neuza Santos (Niterói)
Endereço: Rua Cônsul Francisco Cruz 49, Centro, Niterói
Horário: 9h às 17h
Telefone: (21) 2719-3047
Sala da mulher
Sala Mulher Cidadã – Cosmos
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Clínica da Família Valdecir Salustino Cardozo – Praça Manuel Mariz, s/n – Cosmos
Sala Mulher Cidadã – Paciência
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Estr. Santa Eugênia, 653 – Paciência
Sala Mulher Cidadã – Santa Cruz
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Rua Felipe Cardoso, 1042, Santa Cruz
Sala Mulher Cidadã – Sepetiba
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Estr. Santo Antônio, 85/836 – Sepetiba
Sala Mulher Cidadã – Campinho
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Clínica da Família Lecy Ranquine – Estrada do Campinho, s/n – Conjunto Campinho
Sala Mulher Cidadã Gouveia
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Estr. do Gouveia, 2 – Paciência
Sala Mulher Cidadã Penha
Segunda a sexta-feira 8h às 17h, Sábado 8h às 12h
Avenida Vicente de Carvalho, 1129 – Vila da Penha
Sala Mulher Cidadã Gamboa
Segunda a sexta-feira 8h às 17h
Rua Bento Ribeiro, 85 – Gamboa


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