Entenda o acordo que Cláudio Castro e Eduardo Paes estão tentando firmar

O acordo passa pela definição do que é prioritário para os dois grupos políticos.

O governador Cláudio Castro e o prefeito Eduardo Paes estão vinculados a projetos eleitorais antagônicos. O primeiro segue a cartilha do bolsonarismo e avança na articulação da candidatura ao Senado em dobradinha com Flávio Bolsonaro. Já o prefeito, por convicção e estratégia, transita em campo oposto: mantém relações cordiais com Lula e se prepara para disputar o governo do Rio em uma aliança de centro-esquerda.

Aparentemente, não há interseção entre os dois projetos. Contudo, se na geometria duas linhas paralelas não têm ponto em comum, na política é diferente. Os limites são fluidos, inexatos e flexíveis, a depender de acordos e conveniências. Há momentos em que linhas se cruzam para, mais adiante, voltarem a se distanciar em paralelo. De resto, diálogo e moderação são atributos da boa política.

É por essa razão que Castro e Paes se reuniram no Palácio Laranjeiras na sexta-feira, 15 de agosto. Não se tratou de aliança, coligação ou algo semelhante. “Borboleta não cruza com jacaré”, definiu com propriedade uma fonte que testemunhou o encontro. O que foi construído, em quase cinco horas de conversa, foi uma versão aprimorada do que se convencionou chamar de pacto de não agressão. Na prática, Paes e Castro firmaram um compromisso tácito de não atrapalharem um ao outro.

O acordo passa pela definição do que é prioritário para os dois grupos políticos. Como é sabido, o PL de Jair Bolsonaro tem como principal foco a eleição ao Senado. O ex-presidente quer maioria na Câmara Alta para impichar ou, ao menos, controlar ministros do STF. Já o PSD mira o governo do Rio. Pragmático, o partido vislumbra a possibilidade real de conquistar o controle do segundo estado mais importante da federação. São projetos não colidentes. Daí o espaço para a conversa.

Nesse pacto de colaboração mútua — alinhavado no emblemático Salão Luís XIV do Palácio Laranjeiras, palco de tantas negociações na história recente da República — Paes se comprometeu a não criar obstáculos às candidaturas ao Senado do PL, deixando o campo livre para Castro e Flávio. Assim, estaria descartada, por exemplo, a possibilidade de Pedro Paulo concorrer ao Senado. Caso fosse candidato, ele disputaria justamente na faixa de eleitores de centro-direita, onde Castro consolida seu projeto, o que seria naturalmente um estorvo às pretensões do governador.

Castro, por sua vez, não deve mergulhar de cabeça na campanha por sua sucessão. Pretende se manter distante da disputa para não dificultar minimamente o projeto de Paes. Após o rompimento com Rodrigo Bacellar, o governador decidiu focar exclusivamente na campanha ao Senado. Até porque essa é a principal estratégia do bolsonarismo em 2026.

O senador Flávio Bolsonaro tem ciência da articulação. E não é impossível que venha a ser procurado por Eduardo Paes para, tête-à-tête, avançarem nesse discreto acordo de ajuda recíproca.

Sem alianças ou coligações formais, o PL daria uma “mãozinha” a Eduardo Paes, evitando lançar uma candidatura competitiva ao governo. Em contrapartida, Paes retribuiria ao se ausentar da disputa pelo Senado.

Mas, como falta mais de um ano para o pleito — e, como dizia Magalhães Pinto, “política é como nuvem, muda a qualquer momento, a depender do vento” — é prudente aguardar.

Se as eleições fossem hoje, este seria o acordo.

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