As emissões de gases de efeito estufa do Brasil recuaram 16,7% em 2024, atingindo 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e) — o menor nível desde 2009. O dado, divulgado nesta segunda-feira (3) pelo Observatório do Clima e reportado pelo g1, integra a 13ª edição do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa).
O recuo é o segundo maior da série histórica iniciada em 1990 e reflete principalmente a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. As emissões líquidas — que descontam a absorção de carbono por florestas e áreas protegidas — caíram ainda mais, 22%, somando 1,489 GtCO₂e.
Apesar do avanço, o país ainda está distante de cumprir a meta assumida no Acordo de Paris: limitar as emissões líquidas a 1,32 GtCO₂e até o fim de 2025. As projeções indicam que o Brasil deve encerrar o ano com 1,44 GtCO₂e, cerca de 9% acima do compromisso.
“O desmatamento cai, mas todos os outros setores sobem”, alertou David Tsai, coordenador do SEEG. “Estamos falando de uma projeção, mas o número indica que o Brasil ainda está fora da sua meta de clima. Toda a mitigação fica nas costas do combate ao desmatamento, e isso precisa mudar.”
Desmatamento cai, mas fogo e agropecuária resistem
A redução das emissões foi puxada quase integralmente pela categoria de mudança no uso da terra, que engloba o desmatamento. Em 2024, as emissões brutas do setor despencaram 32,5%, de 1,34 GtCO₂e para 906 milhões de toneladas.
Os demais setores permaneceram praticamente estáveis: queda de 0,7% na agropecuária, aumento de 0,8% na energia, 2,8% em processos industriais e 3,6% em resíduos.
Com isso, a composição das emissões nacionais mudou. A mudança no uso da terra passou a responder por 42% do total, seguida da agropecuária (29%), energia (20%), resíduos (5%) e processos industriais (4%).
Mesmo assim, o Brasil ainda figura entre os maiores emissores do mundo. Apenas o desmatamento libera mais carbono que países petrolíferos como a Arábia Saudita e o Canadá.
A pesquisadora Bárbara Zimbres, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), destacou que a queda do desmate ocorreu em um ano de estiagem severa. “Estamos vendo um descolamento entre esses dois processos que normalmente andam juntos, o fogo e o desmatamento”, explicou. “Isso é um sinal de que a mudança do clima já pode estar interferindo perigosamente nas florestas.”
Segundo o SEEG, queimadas não ligadas diretamente ao desmatamento liberaram 241 milhões de toneladas de CO₂ em 2024 — quase o mesmo volume das emissões líquidas por mudança de uso da terra. Se contabilizadas oficialmente, essas emissões dobrariam o impacto do desmatamento sobre o clima.
As queimadas vêm se consolidando como o principal instrumento de devastação da Amazônia. Diferentemente dos desmatamentos em larga escala, o fogo é mais barato, rápido e difícil de monitorar. O fenômeno se intensificou após as secas extremas de 2023 e 2024, impulsionadas pelo El Niño e pelas mudanças climáticas, que deixaram a floresta mais seca e vulnerável.
Pecuária e agricultura continuam no centro do problema
A pecuária segue como o principal motor das emissões brasileiras, responsável por 51% do total — mais do que todo o Japão emite anualmente. O rebanho bovino é uma das maiores fontes de metano, gás com potencial de aquecimento 28 vezes superior ao do dióxido de carbono.
Em 2024, o rebanho caiu 0,2%, mas o confinamento de gado aumentou 11%, o que ajudou a conter o crescimento das emissões. Na agricultura, o uso de fertilizantes nitrogenados e calcário recuou levemente (3,8% e 3,3%, respectivamente), reduzindo as emissões de óxido nitroso e CO₂.
“As emissões do setor agropecuário em 2024 ficaram praticamente estáveis em relação ao ano anterior”, avaliou Priscila Alves, analista-sênior de clima do Imaflora. “Apesar do crescimento esperado, o setor poderia contribuir mais para as remoções de carbono, associadas principalmente às boas práticas agrícolas.”
Energia e resíduos desafiam o equilíbrio climático
O setor energético registrou alta de 0,8%, totalizando 424 milhões de toneladas de CO₂. O aumento foi contido pelo recorde no consumo de etanol — 36 bilhões de litros —, o que reduziu as emissões no transporte de passageiros em 3%.
“A boa safra de cana fez o preço do etanol ser mais competitivo em relação à gasolina”, explicou Felipe Barcellos e Silva, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).
Mesmo com o avanço das fontes renováveis, as emissões da geração elétrica cresceram 17% devido à menor oferta hídrica. Ainda assim, a matriz energética brasileira segue sendo uma das mais limpas do mundo, com 50% de origem renovável — incluindo eólica, solar e biomassa.
O setor de resíduos foi o que mais cresceu proporcionalmente, com alta de 3,6%, passando de 92 para 96 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Segundo Iris Coluna, do ICLEI América do Sul, o aumento reflete a expansão da coleta e o novo retrato populacional do IBGE. “Tivemos em 2024 a maior emissão da série histórica para o setor de resíduos”, afirmou. “Agora precisamos avançar na erradicação da disposição inadequada, promover a recuperação e ampliar o tratamento de esgoto.”
Exportação de petróleo e contradições climáticas
O SEEG também chama atenção para as emissões “ocultas” associadas ao petróleo exportado pelo Brasil. Em 2024, o país enviou ao exterior 85 milhões de toneladas de óleo cru — novo recorde.
“O governo dá com uma mão e tira com a outra para o clima”, criticou Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. “Por um lado, toma medidas adequadas para proteger as florestas e reduz emissões com isso; por outro, dobra a aposta no petróleo que agrava a crise do clima e ameaça essas mesmas florestas.”
Desde 2009, as emissões brutas do país cresceram 15%, apesar da Política Nacional sobre Mudança do Clima (2010) e dos compromissos firmados em 2015. O relatório alerta que o controle do desmatamento já “bateu no teto” e que outros setores — como energia, transportes e indústria — precisarão reduzir emissões com rapidez para que o Brasil atinja as metas até 2030.
Sem avanços concretos, o país pode chegar à COP30, em Belém, sem cumprir sequer o compromisso intermediário de 2025.






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