O cientista político Paulo Baía é o convidado deste domingo (30) do programa Jogo do Poder, apresentado pelo jornalista Ricardo Bruno. Na entrevista, que vai ao ar às 23h20 pela Rede CNT e também no YouTube, Baía faz uma ampla análise da disputa eleitoral de 2026, passando pela corrida presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, pela eleição para o Governo do Rio de Janeiro e pelo cenário ainda indefinido para as duas vagas ao Senado.
Ao longo da conversa, o cientista político destaca o estreitamento da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas, avalia a consolidação do bolsonarismo no eleitorado fluminense e chama atenção para o crescimento de Douglas Ruas (PL) na corrida pelo Palácio Guanabara. Para Baía, o candidato passou a representar uma preocupação mais concreta para Eduardo Paes (PSD).
“Se o Eduardo Paes estava preocupado com o Garotinho há duas semanas atrás, ele agora tem que se preocupar efetivamente com o Douglas Ruas”, afirmou.
Lula e Flávio caminham para disputa apertada
No cenário nacional, Baía avalia que Lula e Flávio Bolsonaro estão consolidados como os principais nomes da corrida presidencial. Segundo ele, as pesquisas mencionadas durante o programa apontam uma distância pequena entre os dois no primeiro turno.
“As pesquisas estão aí mostrando que a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro é pequena no primeiro turno. Isso indica uma situação: vamos ter segundo turno”, disse.
O cientista político considera que Flávio conseguiu se consolidar como candidato competitivo apesar dos ataques recebidos durante a pré-campanha e o início da disputa. Ao mesmo tempo, Lula também mantém uma base eleitoral sólida.
“Os dois estão estruturalmente empatados”, avaliou Baía ao comentar o quadro apresentado pelos levantamentos citados durante a entrevista.
Um dos aspectos destacados pelo programa é o elevado número de eleitores ainda sem uma definição. Segundo os dados mencionados na conversa, essa parcela estaria entre 35% e 40%, deixando uma fatia significativa do eleitorado disponível para ser conquistada durante a campanha.
Baía também observou que a direita chega ao primeiro turno dividida entre Flávio Bolsonaro e candidaturas como as de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos. Na avaliação dele, boa parte desses votos poderia migrar para Flávio em um eventual segundo turno.
“Esses eleitores tendem, em sua maioria, lógico que não é 100%, no segundo turno caminhar com o Flávio. Por isso, essa diferença que nós estamos vendo agora para o primeiro turno é preocupante para a campanha do Lula e animadora para a campanha de Flávio Bolsonaro.”
Polarização continua, mas mudou de comportamento
A entrevista também abordou a polarização política no país. Para Paulo Baía, a divisão entre campos ideológicos permanece forte, mas teria deixado de produzir, com a mesma intensidade, os conflitos pessoais e familiares observados em eleições anteriores.
“A polarização existe, mas algo interessante é que a polarização foi naturalizada”, disse.
Baía comparou o comportamento político atual à rivalidade entre torcedores de futebol. Segundo ele, as pessoas continuam firmes em suas posições, mas aprenderam a evitar determinados assuntos nos ambientes em que sabem que uma discussão poderia gerar conflito.
“Houve uma mudança de qualidade. As pessoas não estão brigando mais com as outras, embora todas continuem firmes na sua posição”, afirmou.
Bolsonarismo segue forte no Rio
Ao trazer a eleição presidencial para o cenário fluminense, Baía afirmou que o bolsonarismo se consolidou no Estado do Rio não apenas na capital, mas também no interior e, especialmente, na Região Metropolitana.
Na análise dele, o estado precisa ser observado a partir de três grandes territórios eleitorais: a cidade do Rio junto com Niterói, a Região Metropolitana sem essas duas cidades e o interior.
“Só na cidade do Rio de Janeiro e em Niterói é que o Lula está numa posição mais privilegiada. Nas outras regiões, não”, afirmou.
Baía ressaltou principalmente o peso eleitoral da Região Metropolitana. Segundo ele, enquanto o interior reúne cerca de 23% dos votos do estado, os municípios metropolitanos concentram uma parcela muito mais significativa do eleitorado e podem ser decisivos na eleição.
O cientista político também apontou a influência do eleitorado evangélico, especialmente na Baixada Fluminense e na Zona Oeste da capital. O programa citou Nova Iguaçu como exemplo de município com forte presença de moradores vinculados a denominações evangélicas.
“O voto evangélico é muito importante e as pesquisas têm destacado isso aqui, sobretudo no Rio de Janeiro”, afirmou Baía.
Apesar da vantagem atribuída a Flávio Bolsonaro no estado, Baía ponderou que o senador ainda não reproduz a hegemonia eleitoral alcançada pelo pai, Jair Bolsonaro, nas eleições presidenciais anteriores.
“As pesquisas dizem que não. As pesquisas dizem que ele está bem, está à frente, mas ele não reproduz a hegemonia de Jair Bolsonaro”, disse.
Para o cientista político, essa diferença pode manter espaço para Lula disputar o eleitorado fluminense com maior competitividade em um eventual segundo turno.
Baía ainda destacou o desempenho de Renan Santos no Rio e avaliou que o candidato pode disputar uma parcela pequena, mas relevante, do eleitorado. Segundo ele, um resultado entre 3% e 4% já teria peso em uma eleição apertada.
Douglas Ruas cresce e muda cálculo da eleição estadual
Quando a entrevista se voltou para a corrida ao Governo do Rio, Paulo Baía avaliou que Eduardo Paes continua como favorito à primeira colocação no primeiro turno.
“Para o primeiro lugar, o que indicam as pesquisas, as últimas duas, tanto do Datafolha quanto da Quaest, é que o Eduardo Paes chega em primeiro lugar”, afirmou.
O cientista político, porém, apontou duas mudanças importantes no cenário: a perda de força de Anthony Garotinho e o avanço de Douglas Ruas.
Segundo Baía, as discussões judiciais envolvendo a candidatura de Garotinho teriam produzido um efeito político negativo sobre sua campanha. Ao mesmo tempo, Ruas avançou após intensificar as agendas de rua e sua associação com Flávio Bolsonaro.
“Houve uma inflexão positiva do Douglas Ruas na medida em que a campanha começou de rua, ao colar com Flávio, grandes ações, sobretudo aqui na Região Metropolitana”, disse.
Baía citou ações na Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo, além de um grande evento no Maracanãzinho, como parte da estratégia adotada pelo candidato do PL.
“Muita gente subestimou o Douglas Ruas. Eu mesmo, nas primeiras análises, subestimei o Douglas Ruas. Mas o Douglas Ruas deu um salto significativo. É algo para prestar atenção no que está acontecendo”, afirmou.
O desempenho de Ruas no debate entre os candidatos também foi lembrado durante o programa. Na avaliação apresentada na entrevista, ele demonstrou firmeza e equilíbrio diante dos adversários e conseguiu explorar uma estratégia de aproximação direta com Flávio Bolsonaro.
Baía considera essa associação essencial para que Ruas continue crescendo.
“É o único caminho que ele tem. E ele está fazendo bem esse caminho”, disse.
Baía vê novo patamar se Ruas chegar a 25%
Questionado por Ricardo Bruno sobre até onde Douglas Ruas poderia avançar, Paulo Baía apontou os 25% das intenções de voto como uma espécie de linha divisória da campanha.
“Se ele chega a 25, ele já não é mais um figurante na eleição”, afirmou.
Segundo ele, o impacto da propaganda eleitoral na televisão, a intensificação da campanha nas ruas, as redes sociais e os grupos de WhatsApp serão fundamentais para medir a capacidade do candidato do PL de continuar avançando durante setembro.
“O 25% torna o Douglas Ruas um candidato competitivo para o segundo turno”, acrescentou.
É nesse contexto que Baía fez uma de suas avaliações mais contundentes sobre a disputa.
“Se o Eduardo Paes estava preocupado com o Garotinho há duas semanas atrás, ele agora tem que se preocupar efetivamente com o Douglas Ruas.”
Garotinho pode ser decisivo para haver segundo turno
A permanência de Anthony Garotinho na disputa também foi apontada como uma variável decisiva.
Para Baía, a presença do ex-governador fragmenta o eleitorado e dificulta uma eventual tentativa de Paes de vencer ainda no primeiro turno.
“A campanha do Garotinho vai definir se vai ter primeiro turno ou segundo turno”, avaliou.
Segundo o cientista político, caso Garotinho permaneça na urna, o cenário mais provável seria uma disputa em duas etapas.
“Se ele permanece, certamente teremos segundo turno”, disse.
Por outro lado, uma eventual retirada de Garotinho por decisão judicial poderia ampliar o espaço eleitoral de Paes. Baía considera que, nesse cenário, o candidato do PSD teria possibilidade de se aproximar da marca necessária para uma definição na primeira votação.
Paes é conhecido, mas enfrenta um teto
Outro ponto explorado durante a entrevista foi a dificuldade de Eduardo Paes para ampliar significativamente sua vantagem nas pesquisas, apesar de ser um político amplamente conhecido pelos eleitores.
Paes já governou a capital por quatro mandatos e construiu uma ampla aliança para a disputa estadual, com apoio de prefeitos e lideranças políticas de diferentes regiões.
Na avaliação de Baía, porém, o conhecimento do nome não significa necessariamente uma conversão automática em votos.
“Eduardo Paes é muito conhecido no estado todo. Ele não é um nome desconhecido. Agora, ele tem uma aceitação na cidade do Rio de Janeiro muito maior”, explicou.
Baía lembrou a eleição estadual de 2018 e avaliou que Paes encontrou dificuldades para transformar sua popularidade na capital em apoio suficiente na Região Metropolitana e no interior.
Para 2026, o candidato buscou corrigir essa deficiência com uma engenharia política que inclui a aproximação com a família Reis e a escolha de Jane Reis como vice, além da construção de alianças com prefeitos da Baixada Fluminense.
Ainda assim, segundo Baía, os apoios municipais não são suficientes por si só para definir uma eleição.
“Decisivo, não. São importantes, evidente que uma eleição você tem que ter uma base territorial, mas hoje existem dois territórios. Existe um território geográfico e existe um território digital, um território midiático.”
Redes sociais mudaram o peso dos prefeitos
Paulo Baía considera que as campanhas atualmente precisam disputar simultaneamente o território físico e o digital.
Os prefeitos continuam tendo influência, estruturas políticas e bases eleitorais locais, mas redes sociais, televisão, WhatsApp e outros meios de comunicação passaram a funcionar como uma segunda arena eleitoral, capaz de ultrapassar fronteiras municipais.
Segundo o cientista político, os dois ambientes acabam se retroalimentando.
“O digital vai para o territorial e o territorial pelos cortes”, afirmou.
Esse movimento também ajuda a explicar a estratégia de Douglas Ruas de produzir conteúdos em conjunto com Flávio Bolsonaro. Durante a entrevista, Baía destacou a repetição da associação entre os dois candidatos nos vídeos que circulam nas plataformas digitais.
Imagem de Paes no interior entra na disputa
A relação de Eduardo Paes com o eleitor do interior também foi discutida no programa.
Ricardo Bruno abordou pesquisas e avaliações segundo as quais parte do eleitorado associa o ex-prefeito da capital mais fortemente aos grandes eventos realizados em Copacabana do que às entregas administrativas de seus governos.
Baía afirmou já ter identificado esse tipo de percepção em pesquisas e observou que o tema passou a ser explorado pela própria campanha de Douglas Ruas.
“Não é por acaso”, afirmou.
O cientista político relacionou a estratégia aos ataques de Ruas aos grandes eventos realizados na capital e ao discurso de interiorização de investimentos.
Para Baía, Paes não enfrenta necessariamente uma rejeição pessoal intensa no interior, mas ainda precisa produzir identificação eleitoral.
“As pessoas até acham ele interessante, mas não o escolhem com afeto”, resumiu.
Senado tem quase 90% do eleitorado indefinido
Na parte final do programa, Paulo Baía e Ricardo Bruno analisaram a corrida pelas duas vagas ao Senado.
O principal dado discutido foi o alto percentual de indecisos. Segundo a pesquisa mencionada durante a entrevista, 88% dos eleitores ainda não teriam definido seus dois votos para senador.
Para Baía, essa característica torna qualquer previsão especialmente difícil.
“O eleitor vai começar a se preocupar com a eleição do Senado ali 15 dias antes do dia 4 de outubro”, afirmou.
O cientista político chamou atenção também para o fato de que parte do eleitorado ainda desconhece que neste ano serão escolhidos dois senadores.
“A eleição está em aberto para todos os nomes”, disse.
Benedita lidera, mas eleição permanece aberta
Benedita da Silva aparece, segundo os levantamentos comentados no programa, com os maiores índices de intenção de voto, mas também com elevada rejeição.
Baía ponderou que isso não elimina sua competitividade, principalmente porque a petista possui um eleitorado consolidado.
O mesmo raciocínio foi aplicado a Marcelo Crivella, outro candidato com alto grau de conhecimento e com uma base eleitoral própria.
“Os dois têm grupos muito sólidos de apoio. Tanto a Benedita tem um grupo sólido de apoio quanto Crivella”, afirmou.
Baía ressaltou, porém, que nenhuma dessas estruturas garante vitória em uma eleição na qual quase nove em cada dez eleitores, conforme o dado apresentado no programa, ainda não fizeram suas escolhas.
Carlos Jordy aparece competitivo
Outro nome destacado na entrevista foi Carlos Jordy. O candidato conseguiu aparecer entre os primeiros colocados pouco tempo depois do lançamento de sua campanha, desempenho que Baía relaciona à identificação com o eleitorado bolsonarista.
“Ele lançou a campanha numa campanha que está zerada”, avaliou.
Segundo o cientista político, Jordy também chega ao pleito com a experiência recente da eleição municipal de Niterói e presença eleitoral em uma região que influencia municípios como São Gonçalo e Itaboraí.
Baía ainda destacou a votação atribuída a Mônica Benício nas pesquisas e interpretou o desempenho como sinal de que uma parcela da esquerda pode utilizá-la como segundo voto ao Senado.
Pedro Paulo precisa ampliar eleitorado
Pedro Paulo também foi tema da parte final do programa. Aliado próximo de Eduardo Paes, ele percorre o estado ao lado do candidato ao governo e tenta avançar entre os eleitores que já manifestam voto em Benedita da Silva.
Segundo Baía, a estrutura política construída por Paes pode ajudar Pedro Paulo, mas o candidato ainda precisa crescer em áreas eleitoralmente estratégicas.
“Pedro Paulo tem que andar mais na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense”, afirmou.
A estratégia de buscar o segundo voto de eleitores de Benedita, porém, encontra limitações no chamado núcleo duro da esquerda, segundo Baía.
O cientista político apontou diferenças entre o perfil econômico liberal de Pedro Paulo e a base política mais identificada com Benedita. Para ele, Mônica Benício aparece como uma opção mais natural de segundo voto para parte desse eleitorado.
Se estivesse à frente da estratégia de Pedro Paulo, Baía afirma que buscaria ampliar o arco de eleitores.
“Eu caminharia para ser o segundo voto do Crivella, o segundo voto do Jordy. Eu ampliaria esse leque”, afirmou.
A entrevista completa com Paulo Baía será exibida neste domingo (30), às 23h20, no Jogo do Poder, apresentado pelo jornalista Ricardo Bruno na Rede CNT e também disponível no YouTube.







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