Em carta aberta ao Senado, gestores do BC defendem Pix e pressionam por votação da PEC da autonomia

Dirigentes da autoridade monetária alertam para redução de servidores, defendem fortalecimento institucional e citam a necessidade de proteger o Pix

Às vésperas da retomada da votação da PEC que amplia a autonomia financeira do Banco Central, dirigentes da instituição decidiram entrar diretamente no debate político. Em carta aberta enviada ao Senado, 43 gestores defenderam a aprovação imediata da proposta e alertaram que a falta de recursos e a redução do quadro de servidores podem comprometer a capacidade operacional da autarquia, inclusive na manutenção e evolução do Pix, apontado como um dos maiores patrimônios tecnológicos do sistema financeiro brasileiro.

A manifestação ocorre em um momento decisivo para a tramitação da proposta. Parada desde maio após um pedido de vista coletivo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a PEC volta à pauta nesta quarta-feira (10) cercada por divergências entre o governo federal, parlamentares da base aliada e defensores de uma maior independência administrativa e orçamentária da autoridade monetária. Entre os argumentos apresentados pelos dirigentes está a necessidade de garantir recursos permanentes para que o Banco Central continue supervisionando o crescimento do sistema financeiro e aperfeiçoando ferramentas como o Pix.

Alerta sobre perda de capacidade operacional

Na carta, os gestores argumentam que o crescimento do sistema financeiro nacional vem exigindo uma estrutura cada vez mais robusta de fiscalização e supervisão, ao mesmo tempo em que a instituição enfrenta redução do quadro de servidores.

Segundo eles, a expansão da inclusão financeira no país ampliou significativamente a responsabilidade do Banco Central nos últimos anos.

“Os avanços da inclusão financeira, com milhões de brasileiros incorporados ao sistema financeiro e o aumento expressivo de instituições supervisionadas, exigem uma supervisão mais ampla e rigorosa”, afirmaram.

Os signatários alertam que a diminuição do número de funcionários pode comprometer a capacidade operacional da autoridade monetária e dificultar o acompanhamento das transformações do mercado financeiro.

“A redução de pessoal nos últimos anos, entretanto, ameaça a capacidade do Banco Central de acompanhar esse crescimento e preservar a estabilidade financeira do País”, continuaram.

O argumento central dos defensores da proposta é que a autonomia financeira permitirá ao órgão ter mais previsibilidade orçamentária e melhores condições para planejar concursos, investimentos e políticas de gestão de pessoal.

Apoio ao texto do relator

Os gestores também demonstraram apoio explícito ao parecer elaborado pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM), relator da matéria no Senado.

Na avaliação dos signatários, a versão atual da PEC oferece os instrumentos necessários para enfrentar os desafios estruturais apontados pela instituição.

“O texto apresentado pelo relator traz as condições necessárias para enfrentar esses desafios. Ele fortalece a autonomia institucional do Banco Central, assegurando que nossa atuação permaneça técnica e voltada ao interesse público”, acrescentaram.

A manifestação reforça a pressão para que a proposta avance após meses de negociações políticas e divergências entre diferentes setores do governo federal e do Congresso Nacional.

Resistência dentro do governo

A PEC tramita no Senado desde 2023 e tem encontrado resistência entre integrantes do Partido dos Trabalhadores e setores do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A principal preocupação de críticos da proposta está relacionada ao grau de independência administrativa e financeira que seria concedido à autoridade monetária.

Nos últimos meses, integrantes da equipe econômica buscaram construir uma alternativa de consenso. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, chegou a afirmar que havia entendimento com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para a apresentação de uma nova versão do texto.

Até o momento, entretanto, nenhuma proposta alternativa foi formalizada.

Com isso, a tramitação segue baseada no parecer apresentado pelo relator, que deverá voltar ao centro das discussões na CCJ.

Pix entra no debate

Um dos pontos destacados pelos dirigentes do Banco Central foi a necessidade de garantir recursos permanentes para a manutenção e o desenvolvimento do Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pela instituição e que se consolidou como uma das principais ferramentas financeiras do país.

O tema ganhou relevância política após as discussões internacionais envolvendo o sistema brasileiro de pagamentos ao longo de 2025.

Na carta, os gestores associam diretamente a preservação do Pix à necessidade de fortalecimento institucional do Banco Central.

“O Pix, patrimônio público do Estado brasileiro e referência mundial, precisa ser preservado e fortalecido. Para que continue a evoluir e servir à sociedade, é essencial garantir-lhe recursos humanos e orçamentários adequados de forma perene”, disseram.

A menção não é casual. Durante as negociações da PEC, o relator promoveu ajustes no texto em diálogo com integrantes do governo justamente para reforçar mecanismos de proteção ao sistema de pagamentos.

Pedido por votação imediata

Na reta final do documento, os dirigentes afirmam que o debate sobre a autonomia financeira do Banco Central já passou por amplo processo de discussão e amadurecimento ao longo dos últimos anos.

Para eles, chegou o momento de o Congresso tomar uma decisão definitiva sobre a matéria.

“Com contribuições de diversos setores da sociedade, este debate amadureceu e a proposta evoluiu. Entendemos que é chegado o momento de avançar. Por isso, manifestamos nosso apoio integral à proposta do relator e defendemos sua votação imediata”, complementaram.

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