A transferência da gestão do Hospital Federal de Bonsucesso para o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), vinculado ao Ministério da Saúde, foi oficialmente concretizada nesta terça-feira, com a publicação de uma portaria no Diário Oficial que permite a descentralização.
Em entrevista ao GLOBO, Gilberto Barichello, diretor do GHC, (foto) afirmou que, apesar dos desafios enfrentados pela unidade — incluindo a resistência de servidores federais contrários à mudança —, a empresa está pronta para reabrir o hospital em 90 dias. Ele enfatizou que os problemas são mais relacionados à gestão do que à falta de recursos financeiros.
Leia a entrevista completa:
Quanto de recurso o GHC terá à disposição ao assumir o Hospital de Bonsucesso (HB) visando cumprir os prazos estabelecidos pela portaria?
Atualmente, a folha de pagamento do HB está em torno de R$ 600 milhões. Este valor cobre os custos com materiais, insumos, serviços, pessoal e folhas de pagamento de inativos. Mantendo este custo para o ano de 2025, o GHC pretende contratar 2.200 profissionais para solucionar os problemas de abastecimento de insumos e materiais e reformas. Portanto, o orçamento atual do hospital será mantido.
A equipe do Grupo Conceição ainda não conseguiu acessar o Hospital de Bonsucesso devido à resistência dos servidores federais que são contrários à mudança de gestão para o grupo. Isso pode impactar o cronograma de vocês?
Certamente, isso atrasa o cronograma. Tivemos todo um planejamento para iniciar, por isso trouxemos 50 pessoas em um voo da FAB, pois somos uma empresa pública do Ministério da Saúde. Essas pessoas chegam para realizar um diagnóstico rápido, evitando a diminuição da produção assistencial e garantindo a continuidade dos serviços, além da reabertura total da unidade em 90 dias. Cada dia que passa sem poder acessar o hospital representa um prejuízo. No entanto, estamos preparados para entrar e acelerar o que foi planejado para cumprir os cronogramas.
Em sua opinião, manter o mesmo orçamento para o próximo ano é suficiente para resolver os problemas da unidade, considerando que o hospital já não tem conseguido se sustentar adequadamente com esse valor?
Sim, esse valor é suficiente. Hoje, o problema do hospital é a falta de governança e capacidade de gestão. Nos últimos anos, o hospital devolveu dinheiro ao caixa único do governo por não conseguir executar o orçamento devido à falta de planejamento. Há uma carência de projetos para as obras. Portanto, a questão não é a falta de recursos financeiros, mas sim a implementação de um modelo de governança eficiente, vinculada à pasta, para gerir a unidade.
Está prevista a criação de uma filial do GHC no Rio de Janeiro nas dependências do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH)?
Não exatamente. O GHC tem sua matriz no Hospital Nossa Senhora Conceição, no Sul, e atualmente possui 23 filiais, incluindo o Hospital de Bonsucesso. Cada hospital, posto de saúde e centro de atendimento psicossocial em Porto Alegre é considerado uma filial. Portanto, o HB será a nossa filial no Rio, e não haverá a criação de uma nova unidade em outro local.
O senhor acredita que, considerando a experiência do Grupo Conceição na gestão de unidades de saúde no Sul do país, a empresa está preparada para administrar um Hospital como o de Bonsucesso?
Sim, o Grupo Conceição possui uma governança qualificada e expertise em gestão hospitalar, com 64 anos de atuação na área da saúde. O que ocorre no Bonsucesso não é um problema de falta de recursos financeiros, mas, sim, de governança, já que não foram planejados e executados projetos adequadamente, aproveitando os recursos disponíveis anualmente.
Qual é o plano para reabrir a emergência do HB? E quanto deve custar?
Todos os leitos e serviços fechados, incluindo a emergência e o bloco cirúrgico com 23 salas, além dos 210 leitos clínicos, deverão ser reabertos em até 90 dias. É possível que alguns serviços sejam reabertos antes desse prazo. O limite máximo para entregar à sociedade fluminense um hospital totalmente operacional é de 90 dias. Temos 50 funcionárias que vieram do Sul e ficarão alguns dias para realizar um diagnóstico da unidade em duas etapas: a primeira será um diagnóstico rápido, com prazo de 90 dias, e a segunda, um planejamento para 2026, com duração de 180 dias. Faremos um inventário para levantar todos os bens móveis da unidade, além de um dimensionamento da infraestrutura de tecnologia da informação, que atualmente é deficiente. Também avaliaremos a assistência nas áreas de atendimento, e quem são os trabalhadores, suas funções, turnos e escalas. Precisamos elaborar um plano diretor para os próximos 15 anos.
O GLOBO teve acesso às instalações do Hospital de Bonsucesso, incluindo a área afetada pelo incêndio em 2020, e constatou que a situação é precária. Qual será o custo estimado para reestruturar toda a unidade, considerando que o GHC ainda não possui um inventário completo?
Ao assumir o Bonsucesso, nosso primeiro passo será realizar um inventário e elaborar um projeto executivo para que, até o final do ano, possamos licitar as obras. Essas obras devem levar cerca de dois anos para serem concluídas, e não será necessário empenhar todo o recurso em um único ano. Em 2026, ainda teremos mais R$ 50 milhões para continuar as obras iniciadas em 2025. O orçamento público permite empenhar, liquidar e pagar o valor de cada etapa no ano em que forem concluídas.
Qual é o orçamento previsto pelo Ministério da Saúde para o GHC gerir o Hospital de Bonsucesso?
Teremos cerca de R$ 250 milhões em investimentos nos próximos cinco anos, ou seja, R$ 50 milhões por ano. Esse valor será significativo para atualizar tecnologicamente o hospital, incorporando novas tecnologias e substituindo as obsoletas, além de realizar obras de infraestrutura. Portanto, este recurso permitirá tanto a atualização tecnológica quanto o início das obras.
A portaria divulgada pelo Ministério da Saúde indica que os servidores poderão migrar para o Grupo Conceição. Como esse processo será realizado?
Não haverá migração de regime. Os atuais trabalhadores do Bonsucesso são servidores públicos estatutários que seguem o Estatuto Federal de Servidores. Eles poderão continuar na unidade, mantendo todos os direitos previstos em seu estatuto, sem migração para o Grupo Conceição. Nossa equipe atua sob regime celetista, ou seja, realiza concursos. Os servidores estatutários continuarão a ser pagos pelo governo federal e manterão seus direitos e benefícios, incluindo aumentos conforme a política do governo. A portaria estipula que, em até 90 dias, todos os servidores poderão continuar no Bonsucesso. Após esse prazo, os estatutários que desejarem podem solicitar lotação em outro hospital federal ou órgão do governo.





