Desde o início do ano, tiroteios no Jacarezinho já deixaram dois mortos e cinco feridos

Comunidade na Zona Norte do Rio tem sido alvo de conflitos entre facção criminosa e Polícia Militar.

O trabalho como costureira em uma loja de confecção de cortinas na Rua Atiba, no Jacarezinho, Zona Norte do Rio, começa cedo. Cristiane de Queiroz Faria, de 40 anos, chega ao local às 8h e se despede às 17h, quando caminha de volta para casa. O trajeto, de cerca de 5 minutos, foi interrompido, na última terça-feira, por um tiro. Ao entrar na Rua Galileu, onde mora, a mulher foi surpreendida com uma bala que atravessou seu joelho e a derrubou.”É moradora, é moradora!”, gritaram vizinhos e comerciantes à polícia, que acionou o Samu para socorrê-la. Durante os 10 minutos de espera pela ambulância, Cristiane ficou no chão, o sangue acumulando a sua volta. Ela foi levada para o Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, onde está internada no CTI, em estado grave.

A mulher é uma dos três moradores feridos durante a ação do Bope e do Choque, da Polícia Militar, que foram à comunidade, na tarde de terça-feira, para remover barricadas das ruas. Além deles, dois suspeitos foram mortos e um ferido, todos levados para o Salgado Filho. Desde o dia 31, há relatos, principalmente nas redes sociais, de tiroteios quase diários na região, dominada pelo Comando Vermelho e primeira a receber o projeto Cidade Integrada, criado pelo Governo do Estado em janeiro de 2022.

Segundo a Polícia Militar, ao fazerem a remoção dos obstáculos na rua, os agentes foram atacados por suspeitos e reagiram, o que deu início ao confronto. Na ação, foram apreendidas duas pistolas, três granadas e 52 munições. A 25ªDP (Engenho Novo) investiga os desdobramentos.

“Ela perdeu muito sangue, chegou branca ao hospital”

Enquanto aguardava a chegada do Samu, Cristiane foi socorrida às pressas por moradores e policiais. Um deles, chegou a ensinar um comerciante a fazer um torniquete para estancar o sangue dela. Jonathan Alves, de 29 anos, genro de Cristiane, conta que a família está abalada.

— A minha namorada não come, não dorme. A irmã dela só chora. Foi todo mundo pego de surpresa com a notícia, achamos que ela estava pelo menos estável, mas grave…. Todo mundo conta que ela perdeu muito sangue, é uma mulher grande, parece até que tem dois metros. Ela chegou branquinha no hospital — diz Jonathan.

Segundo ele, morador do Jacarezinho desde que nasceu, os tiros acontecem com frequência desde o dia 31. O horário dos confrontos, apesar de irregular, prevalece durante a madrugada e também pela manhã. Ele conta que a comunidade não passou por integração, como sugeria o projeto do governo.

— É tiro todo dia, nem me assusto mais. Pra mim, é uma coisa normal, que eu vivencio desde criança. A integração, pacificação, ficou só no papel mesmo. A gente que mora em favela costuma ser visto como inimigo e isso dá margem para a entrarem aqui querendo matar todo mundo. Aqui tem professor, costureira, médico, advogado, pessoas do bem. Não tem como só querer dar tiro e achar que vai resolver alguma coisa.

Conflito armado

O Jacarezinho é, historicamente, dominado pelo Comando Vermelho, dono do comércio de drogas e de armas da região. Segundo a polícia, a atuação direta dos agentes, consequência do Cidade Integrada, estaria atrapalhando as atividades do tráfico na comunidade. A reação contrária às forças policiais teria se intensificado durante a virada do ano, por motivos ainda não identificados.

No dia 4 de janeiro, a Polícia militar informou que um homem foi baleado durante um confronto com policiais militares do Batalhão de Choque no Jacarezinho. Ele é a sétima vítima dos tiroteios, e também foi socorrido para o Hospital Municipal Salgado Filho. A dinâmica compartilhada pela polícia foi a mesma de terça-feira: os agentes reagiram após serem atacados a tiros por criminosos locais.

Com informações do GLOBO.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading