Descubra a cidade do interior fluminense que inspirou Tom Jobim em ‘Águas de março’
Reportagem Especial

Descubra a cidade do interior fluminense que inspirou Tom Jobim em ‘Águas de março’

Município é confluência de história, memória, e de um Brasil que maravilhosamente se recusa a ser homogêneo

Como se sabe, quase toda cidade do interior do Rio de Janeiro inventa de ser capital de alguma coisa, seja um peixe ou uma fruta, para abiscoitar uns minutinhos a mais de fama. Mas essa pequena cidade de nome grande, nem precisaria bater no peito pra se dizer a “Capital do Caqui”, o que por si só soaria ridículo, já que ela tem motivos muito maiores para se orgulhar.

Foi numa tarde chuvosa em São José do Vale do Rio Preto, que o maestro Tom Jobim compôs Águas de março, eleita em 2001 por 214 críticos de todo o país a “melhor canção brasileira de todos os tempos”.

No Sítio do Poço Fundo, um regato, uma fonte, um pedaço de pão e até o carro que trazia João Gilberto atolando na estrada, se juntaram para compor fragmentos poéticos que se tornaram eternos. Mas, além da poesia e do passado, o município continua vivo, cultivando caquis que abastecem o estado, preservando fazendas que foram tão ricas durante o ciclo do café que contaram com as primeiras linhas de telefone do país, e lendas sobre aventuras de um certo alferes que tinha ideias consideradas arrojadas demais para seu tempo.

Porque São José do Vale do Rio Preto não é só berço de versos: é confluência de história, memória, e de um Brasil que maravilhosamente se recusa a ser homogêneo. Se há natureza para embalar, há também estrutura, abandono, reconstrução, e muitos fatos que coabitam com a poesia.

Fachada da Igreja Matriz de São José do Vale do Rio Preto | Crédito: Reprodução

As origens da cidade

As raízes da cidade remontam às sesmarias e povoamentos do início do século XIX. As terras que formam o núcleo principal pertenciam a Domingos Lopes de Carvalho, que doou boa parte delas para a Igreja.

Já em 1813 foi elevado a curato com denominação relacionada a São José e “Serra Acima”, depois Freguesia de São José da Serra, e então ao nome “Rio Preto” pela proximidade com o curso d’água. A cidade foi emancipada de Petrópolis em 1987 pela Lei nº 1.255.

Qual a relação da família de Tom Jobim com a cidade?

No fim dos anos 1940, a mãe de Jobim, Nilza, e seu padrasto, Celso Frota Pessoa, compraram o Sítio do Poço Fundo no bairro de mesmo nome. Ele fica junto ao Rio Preto, em meio à serra verde, a aproximadamente 40 minutos de Petrópolis.

A localidade que se tornaria refúgio do compositor em verões ou temporadas, quando o sítio servia tanto para descanso quanto para observar, captar a natureza, deixar-se impressionar pela chuva, pela água, pelos animais ou pela lama.

A história de ‘Águas de Março‘

Segundo depoimento de seu neto, o pianista Daniel Jobim, numa tarde de março de 1972 Tom Jobim sentou sozinho na varanda da sede do sítio com um violão nas mãos e começou a dedilhar a melodia e anotar seus primeiros versos num papel de embrulhar pão.

A canção foi lançada comercialmente no ano seguinte, em um compacto simples do jornal O Pasquim chamado O Tom de Antônio Carlos Jobim e o Tal de João Bosco, que contava com a também primeira gravação da música Agnus Sei, de João Bosco e Aldir Blanc no lado B.

O resto é história. Águas de março teve centenas de regravações em todo o mundo e nos mais diversos idiomas — até japonês! Em 2001, o jornal Folha de S. Paulo ouviu 214 críticos musicais em um enquete que elegeu Águas de março como a “melhor canção brasileira de todos os tempos”.

No ano seguinte a revista Rolling Stone fez a mesma enquete e a música ficou em segundo lugar, atrás de Construção de Chico Buarque.

O fim do Sítio Poço Fundo

Em janeiro de 2011, fortes chuvas arrasaram a Região Serrana provocando enchentes e deslizamentos. Uma tromba d’água do Rio Preto destruiu completamente a sede e arrastou as principais instalações do sítio.

A propriedade ainda pertence à família Jobim, mas a sede nunca foi reconstruída.

Sítio da família Jobim após tromba d’água atingir propriedade | Crédito: Reprodução

O que mais tem para fazer por lá?

São José do Vale do Rio Preto oferece uma combinação interessante de turismo rural, natureza e cultura.

Entre os atrativos naturais, destaca-se a Pedra das Flores, monumento que convida a trilhas e caminhadas em meio à Mata Atlântica, além de áreas preservadas como o Parque Municipal da Araponga e a Área de Proteção Ambiental Maravilha.

Para quem gosta de aventura, o bairro Morro Grande abriga um ponto famoso de parapente, de onde se avista toda a paisagem serrana.

Já no turismo rural, as antigas fazendas da região, além de produzirem caqui e café, preservam traços do ciclo do café e da tradição agrícola do interior fluminense.

No centro da cidade, vale conhecer a Igreja Matriz de São José, o Centro Cultural Doutor Eugênio Ruottulo Neto, e experimentar a culinária local, com destaque para pratos caseiros como a curiosa “chuchulinha”, feita de galinha com chuchu.

Pedra das Flores: convite para trilhas e apreciar a natureza | Crédito: Reprodução

Qual a melhor época para conhecer?

O outono e a primavera oferecem temperaturas mais amenas e menos risco de enchentes, tornando-se períodos ideais para quem busca tranquilidade e caminhadas. Já o inverno serrano, de junho a agosto, atrai pelo clima friozinho, perfeito para saborear a comida farta e se abrigar em pousadas aconchegantes.

Como chegar?

De carro, partindo da Guanabara, são aproximadamente 131 quilômetros, percorridos em cerca de duas horas por rodovias que sobem a serra. A paisagem, repleta de curvas e montanhas, já faz parte do passeio, embora em dias de chuva seja preciso atenção redobrada. Para quem prefere transporte público, há linhas regulares de ônibus ligando a capital a São José do Vale do Rio Preto, com tarifas a partir de R$ 67.

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