Deputados dos EUA criticam possível classificação do PCC e CV como terroristas por Trump

Parlamentares democratas enviam carta ao secretário Marco Rubio e alertam para riscos diplomáticos, políticos e jurídicos na relação entre Brasil e Estados Unidos

Um grupo de deputados democratas dos Estados Unidos enviou uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, criticando a possibilidade de o governo Donald Trump classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O tema ganhou força por causa do encontro entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quinta-feira (7).

No documento, os parlamentares afirmam que a medida pode gerar tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos, além de dificultar estratégias de cooperação internacional no combate ao crime organizado na América Latina.

A carta foi liderada pelo deputado democrata Jim McGovern, um dos autores da Lei Magnitsky nos EUA, e assinada por outros seis congressistas. Os parlamentares pedem que o governo americano apresente ao Congresso “evidências claras” antes de qualquer decisão para incluir PCC e CV na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado.

Os deputados reconhecem que as duas facções brasileiras ampliaram sua atuação nos últimos anos para países como Colômbia, Peru e Bolívia. Segundo o documento, os grupos também estariam ligados a crimes ambientais na Amazônia e a episódios de violência contra comunidades locais e lideranças sociais.

Mesmo assim, os congressistas afirmam que o governo Trump estaria ampliando de forma excessiva o uso da classificação de organizações terroristas estrangeiras, mecanismo conhecido pela sigla FTO (Foreign Terrorist Organization).

“As ferramentas de combate ao terrorismo devem ser usadas de forma responsável para proteger os americanos — e não para interferir nos assuntos internos do Brasil”, afirma a carta.

Os parlamentares também demonstram preocupação com possíveis consequências políticas e militares da medida. Segundo o texto, o uso da classificação de terrorismo já teria sido utilizado pelo governo americano como justificativa para operações consideradas controversas em outras regiões do continente.

“Isso poderia enfraquecer os esforços de combate ao crime organizado em nosso hemisfério”, afirmam os deputados.

Outro ponto citado pelos parlamentares é o temor de que o tema seja utilizado politicamente em meio ao cenário eleitoral brasileiro. O documento menciona a preocupação com possíveis impactos nas eleições nacionais previstas para os próximos meses no Brasil.

Os congressistas também recordam episódios recentes de tensão entre Washington e Brasília, incluindo sanções que chegaram a atingir o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, posteriormente revertidas após negociações diplomáticas.

Na avaliação do governo brasileiro, a classificação do PCC e do CV como grupos terroristas poderia abrir margem jurídica para ações mais duras dos Estados Unidos envolvendo segurança internacional e cooperação policial em território brasileiro. Integrantes do governo Lula também avaliam que o tema pode ser explorado politicamente por adversários durante a campanha eleitoral.

Apesar das críticas à possível decisão de Trump, os deputados defendem maior cooperação entre os países no combate ao crime organizado. Eles sugerem reforço no controle de fronteiras, ampliação de investigações financeiras internacionais, atuação conjunta com a Interpol e medidas mais rígidas contra o tráfico de armas para a América Latina.

A carta ainda pede investimentos em políticas de combate ao tráfico humano, tratamento contra drogas e desenvolvimento econômico como alternativas mais eficazes para reduzir o avanço das facções criminosas.

O debate acontece um dia após Trump assinar um novo documento que redefine a estratégia nacional de contraterrorismo dos Estados Unidos. Pela primeira vez em 25 anos, cartéis de drogas passaram a ser tratados como prioridade máxima da política antiterror americana, à frente de grupos extremistas internacionais como Estado Islâmico e Al Qaeda.

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