Com a morte de Manoel Carlos neste sábado (10), o Brasil se despede de um dos principais cronistas da teledramaturgia nacional. Ao longo da carreira, o autor consolidou um estilo de escrita focado no realismo cotidiano e em conflitos familiares ambientados, em sua maioria, na Zona Sul do Rio de Janeiro. As novelas pautaram por anos debates públicos sobre família, saúde e comportamento.
Durante sua trajetória, Maneco, como era conhecido, escreveu mais de 15 novelas, muitas delas protagonizadas pelas personagens com o nome Helena, que se tornaram sua assinatura nas telas. Conforme explicado pelo próprio autor em entrevistas, a escolha foi inspirada na mitologia grega: para ele, o nome simbolizava mulheres fortes e capazes de realizar sacrifícios extremos em nome da família.
Entre os principais títulos escritos por Manoel Carlos estão produções exibidas pela TV Globo entre as décadas de 1980 e 2010, várias delas com forte repercussão junto ao público e presença constante em reprises.
‘Baila Comigo’ (1981)

Primeira novela de Manoel Carlos a apresentar uma protagonista chamada Helena, vivida por Lilian Lemmertz, “Baila Comigo” estabeleceu bases narrativas que se repetiriam em obras posteriores. A trama gira em torno dos gêmeos João Victor e Quinzinho, interpretados por Tony Ramos, separados ainda bebês e criados em contextos familiares distintos, sem saber da existência um do outro.
A obra estabeleceu a marca registrada do autor: segredos familiares guardados por figuras maternas centrais. Ela também projetou Tony Ramos nacionalmente e foi vendida para mais de 30 países, tornando-se a primeira novela brasileira exibida na França.
‘Por Amor’ (1997)

Considerada a novela mais emblemática da carreira do autor, “Por Amor” levou ao centro da narrativa um dilema ético que atravessou o debate público à época: até onde uma mãe pode ir para poupar a filha do sofrimento. Helena, interpretada por Regina Duarte, troca seu bebê saudável pelo neto que nasce morto, sem o conhecimento da filha Maria Eduarda (Gabriela Duarte).
A decisão sustenta o conflito central da trama e se soma a outras tensões familiares, como a relação conturbada de Maria Eduarda com o marido Marcelo (Fábio Assunção) e a presença de vilãs marcantes, como Branca (Susana Vieira) e Laura (Vivianne Pasmanter). A novela permanece como uma das mais reprisadas e discutidas da história da TV Globo.
‘Laços de Família’ (2000)

Protagonizada por Vera Fischer, Laços de Família abordou temas ligados à saúde pública e à dinâmica familiar. O principal arco dramático envolve Camila (Carolina Dieckmann), diagnosticada com leucemia, e a mobilização da família em torno da busca por um doador de medula óssea.
A cena em que a personagem raspa o cabelo tornou-se um dos momentos mais icônicos da televisão brasileira. Durante a exibição da novela, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) registrou aumento significativo no número de cadastros, associando a trama diretamente à conscientização sobre o tema.
‘Mulheres Apaixonadas’ (2003)

Com Christiane Torloni no papel de Helena, a novela ampliou o alcance social da obra de Manoel Carlos ao articular múltiplas tramas paralelas. Entre os temas abordados estavam violência doméstica, alcoolismo, homofobia e abandono de idosos.
Um dos momentos mais marcantes foi o assassinato da personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) durante um tiroteio no Leblon, exibido no mesmo período em que o Congresso Nacional discutia o Estatuto do Desarmamento, o que intensificou a repercussão da cena e da novela.
‘Páginas da Vida’ (2006)

Novamente com Regina Duarte como Helena, “Páginas da Vida” centrou a narrativa nos desafios da inclusão. A trama acompanha a história de Clara, uma criança com síndrome de Down rejeitada pela avó Marta (Lilia Cabral) após a morte da mãe no parto, e posteriormente adotada pela médica obstetra Helena.
A novela também inovou ao exibir, ao fim de cada capítulo, depoimentos reais de anônimos relacionados aos temas tratados na trama. Alguns desses relatos, como os ligados à violência urbana e à sexualidade na terceira idade, geraram controvérsia e ampliaram o debate público.
‘Viver a Vida’ (2009)

A novela marcou a primeira e única Helena negra criada por Manoel Carlos, interpretada por Taís Araújo. Na trama, a personagem abandona uma carreira consolidada como modelo internacional para se casar, decisão que desencadeia conflitos familiares e conjugais.
Outro eixo foi a história de Luciana (Alinne Moraes), jovem que fica tetraplégica após um acidente. A novela deu visibilidade aos processos de reabilitação e à adaptação à deficiência, tema pouco explorado até então no horário nobre.
‘Em Família’ (2014)

Última novela escrita por Manoel Carlos, “Em Família” encerrou o ciclo das Helenas. A protagonista foi interpretada por Julia Lemmertz, filha de Lilian Lemmertz, a primeira Helena do autor, em uma escolha simbólica de despedida.
A trama abordou reencontros familiares, relações interrompidas pelo tempo e as consequências de decisões tomadas décadas antes, marcando a saída definitiva de Maneco da teledramaturgia por conta do agravamento do Parkinson.






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