O governo de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um desafio inédito às portas da campanha eleitoral de 2026: a rejeição massiva entre os mais jovens eleitores. Pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira, 14 de abril, revela que apenas 18% dos brasileiros entre 16 e 24 anos avaliam a gestão petista como ótima ou boa, índice que salta para 36% entre aqueles com 60 anos ou mais. A diferença de duas vezes mais apoio entre idosos representa fosso geracional que pode definir o resultado das urnas em outubro.
O levantamento, realizado entre os dias 7 e 9 de abril com 2.004 pessoas em 137 municípios, mostra que o presidente perdeu terreno justamente na faixa etária que deveria consolidar seu projeto político para o futuro. Enquanto os jovens demonstram desconfiança, Lula mantém fortaleza nos segmentos mais tradicionais de sua base eleitoral, criando cenário de polarização demográfica que preocupa estrategistas petistas.
Geração Z vê governo Lula como regular ou ruim
Os números da juventude são contundentes. Além dos 18% de aprovação, 44% dos jovens entre 16 e 24 anos classificam o governo como regular, enquanto 37% consideram a gestão ruim ou péssima. Apenas 2% não souberam responder, indicando que a faixa etária tem opinião formada sobre o desempenho do Palácio do Planalto.
A avaliação de regular, apesar de parecer neutra, esconde insatisfação que pode se converter em voto de oposição. Especialistas em comportamento eleitoral apontam que eleitores jovens tendem a migrar de candidatos incumbentes quando percebem estagnação, optando por alternativas que prometam mudança. O cenário coloca pressão adicional sobre Lula, que precisará reverter essa tendência em menos de quatro meses, prazo até o início oficial da campanha em agosto.
A rejeição entre os jovens contrasta com o apoio sólido entre idosos. Na faixa de 60 anos ou mais, além dos 36% de avaliação positiva, apenas 24% consideram o governo regular e 37% o veem como ruim ou péssimo. A estabilidade da preferência entre os mais velhos sugere que Lula mantém conexão emocional com eleitores que vivenciaram seus governos anteriores, mas não consegue reproduzir o mesmo efeito nas novas gerações.
Aprovação geral cai e reprovação pessoal de Lula sobe
O cenário geral não traz alívio para o Planalto. A avaliação positiva do governo recuou de 32% em março para 29% em abril, enquanto a parcela que considera a gestão regular subiu de 26% para 29%. A avaliação negativa manteve-se estável em 40%, indicando que parte dos eleitores que antes apoiavam o governo migrou para a categoria intermediária, sem, contudo, virar oposição declarada.
Quando o foco se volta para o desempenho pessoal de Lula, os números são ainda mais preocupantes para a reeleição. A reprovação ao presidente oscilou de 49% para 51%, ultrapassando a metade dos entrevistados pela primeira vez em meses. A aprovação pessoal, por sua vez, caiu de 47% para 45%, criando saldo negativo de seis pontos percentuais que dificulta a construção de narrativa de sucesso administrativo.
A pesquisa, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-03770/2026, foi realizada presencialmente, método considerado mais confiável para captar intenções de voto em comparação com levantamentos telefônicos. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o que significa que a real distância entre aprovação e reprovação pessoal pode ser ainda maior.
Base tradicional de Lula resiste, mas rejeição cresce em segmentos-chave
O Datafolha revela que Lula ainda consegue manter apoio acima da média em segmentos historicamente fiéis ao petismo. Entre os nordestinos, 41% avaliam o governo como ótimo ou bom. Entre os menos instruídos, o índice sobe para 43%, demonstrando que a comunicação presidencial continua ressoando com parcelas da população que dependem de programas sociais e políticas redistributivas.
O problema para a reeleição reside no crescimento da rejeição em grupos que costumam ter alta taxa de comparecimento às urnas e influência sobre o eleitorado indeciso. Entre os mais instruídos, 49% consideram o governo ruim ou péssimo. Na região Sul, índice idêntico de rejeição sugere dificuldades de penetração em território historicamente refratário ao petismo, mas onde Lula precisaria melhorar sua performance para ampliar a base eleitoral.
Os evangélicos aparecem como desafio particular. Cinquenta e dois por cento da parcela mais religiosa do eleitorado brasileiro rejeita o governo, criando obstáculo em regiões como o Centro-Oeste e o interior de São Paulo, onde a influência de líderes religiosos sobre o voto é significativa. A classe alta, representada por quem recebe mais de dez salários mínimos, lidera a rejeição com 58% de avaliação negativa, consolidando antipatia que remonta aos primeiros governos petistas.
Lula ainda está à frente de Bolsonaro no mesmo período, mas fosso geracional preocupa
A comparação histórica oferece algum conforto aos petistas, embora em quantidade insuficiente para gerar tranquilidade. Aos três anos e três meses de mandato, Lula mantém avaliação superior à do antecessor Jair Bolsonaro no mesmo estágio. Enquanto o petista registra 40% de ruim ou péssimo, 29% de regular e 29% de ótimo ou bom, o bolsonarismo havia alcançado 46% de rejeição, 28% de regular e apenas 25% de aprovação positiva.
A diferença, contudo, reside no contexto eleitoral de 2026. Bolsonaro enfrentava cenário de pandemia e crise econômica sem precedentes, fatores que explicavam parcialmente sua impopularidade. Lula governa em período de estabilidade macroeconômica relativa, com inflação controlada e desemprego em queda, o que torna mais difícil justificar a queda de popularidade entre os mais jovens.
O fosso geracional identificado pela pesquisa Datafolha representa risco existencial para o projeto político do PT. Partidos de esquerda tradicionalmente dependem da mobilização de segmentos jovens para garantir vitórias eleitorais, tanto pelo voto direto quanto pela capacidade de mobilização e voluntariado em campanhas. A distância de dezoito pontos percentuais entre a aprovação de idosos e jovens sugere que Lula precisará reformular drasticamente sua comunicação ou apostar em uma eleição decidida nos segmentos mais velhos do eleitorado, estratégia arriscada em pleito que deve ter alta abstenção entre os mais jovens e participação intensa dos mais velhos.






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