Datafolha: 41% dos brasileiros percebem atuação do crime organizado no bairro onde vivem

Pesquisa revela avanço das facções para o interior do país e mostra impacto crescente sobre a rotina, o consumo e o comportamento da população

A presença do crime organizado deixou de ser uma realidade restrita às grandes capitais e passou a integrar o cotidiano de milhões de brasileiros em diferentes regiões do país. Pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S. Paulo aponta que 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam perceber a atuação de grupos criminosos nos bairros onde vivem.

O percentual representa cerca de 68,7 milhões de pessoas, segundo estimativas populacionais do IBGE. O levantamento foi encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e integra o estudo “Os gatilhos da insegurança”.

A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 pessoas em 137 municípios brasileiros nos dias 9 e 10 de março deste ano. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

Enquanto 41% disseram notar a presença do crime organizado em suas regiões, 51% afirmaram não identificar esse tipo de atuação na vizinhança. Outros 7% disseram não saber responder.

Entre os entrevistados que percebem a presença das organizações criminosas, 43% classificaram essa atuação como “pouco visível”. Já 25% consideram a presença “muito visível”, enquanto 21% a definiram apenas como “visível”.

Os dados indicam que, mesmo sem demonstrações ostensivas constantes, a influência das facções e grupos criminosos afeta diretamente a dinâmica social de diversas comunidades brasileiras.

Influência sobre a vida cotidiana

Segundo o levantamento, o crime organizado interfere não apenas na segurança pública, mas também nas regras de convivência, nas decisões dos moradores e até nos hábitos de consumo da população.

Entre aqueles que afirmaram reconhecer a atuação criminosa na região onde vivem, 35% disseram que a influência desses grupos sobre as decisões e regras do bairro é muito forte. Outros 26,5% consideram o impacto moderado, enquanto 19% classificam a interferência como baixa.

Na avaliação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números revelam um cenário em que “cerca de 42,2 milhões de pessoas vivem em contextos nos quais o crime organizado é percebido como força que regula a vida local”.

As consequências relatadas pelos entrevistados ajudam a dimensionar esse ambiente de pressão e medo.

Entre os moradores que identificam a presença do crime organizado, 81% afirmaram ter medo de serem atingidos em confrontos armados. Outros 75% disseram evitar determinados locais do bairro por receio da violência.

A pesquisa também mostra preocupação crescente das famílias com o recrutamento de jovens pelo tráfico de drogas. Segundo o levantamento, 71% dos entrevistados disseram temer que algum familiar se envolva com facções criminosas.

Outro dado considerado preocupante é o medo de denunciar crimes. Entre os entrevistados, 64% afirmaram receio de sofrer represálias caso procurem as autoridades.

Controle econômico e imposições silenciosas

O levantamento também aponta sinais de expansão do domínio econômico exercido por organizações criminosas em determinadas regiões.

Segundo a pesquisa, 12,5% dos entrevistados disseram se sentir obrigados a contratar serviços indicados pelo crime organizado, incluindo fornecimento de internet, energia elétrica e abastecimento de água.

Além disso, 9% afirmaram que são pressionados a comprar determinados produtos ou marcas por imposição desses grupos.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados mostram que o domínio territorial das facções não depende necessariamente de barricadas, homens armados ou confrontos permanentes.

As restrições impostas à população seriam, muitas vezes, silenciosas e incorporadas ao cotidiano das comunidades.

Interiorização das facções preocupa especialistas

A maior percepção da presença do crime organizado continua concentrada nas capitais, onde 56% dos entrevistados afirmaram notar a atuação desses grupos.

Nas regiões metropolitanas, o índice chega a 46%

O dado que mais chama a atenção dos especialistas, no entanto, é o avanço das organizações criminosas pelo interior do país. Nessas áreas, 34% da população afirmou perceber a presença de facções ou grupos criminosos nos bairros onde mora.

A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, destacou a preocupação com esse cenário.

“Estamos falando que um terço da população do interior está reconhecendo a presença desses grupos”, disse ela.

O avanço acompanha estudos anteriores da instituição que apontam a descentralização das facções criminosas, antes mais concentradas em grandes centros urbanos.

Hoje, organizações como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) estão presentes em todas as 27 unidades da Federação.

Segundo levantamentos mencionados pela pesquisa, o PCC exerce hegemonia em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rondônia, Roraima, São Paulo e Piauí.

Já o Comando Vermelho domina Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Tocantins e Rio de Janeiro, estado onde a facção surgiu.

As disputas entre os dois grupos também têm se intensificado em regiões do interior paulista e do litoral, segundo o Ministério Público.

Na região de Piracicaba, a Promotoria afirmou no início do ano que “o conflito entre as organizações escalou significativamente após o CV tentar ocupar pontos de venda de entorpecentes anteriormente dominados pelo PCC, instaurando um estado de guerra urbana na região”.

Tema ganha força no Congresso e no debate nacional

O avanço das facções também elevou a segurança pública ao centro do debate político nacional.

Pesquisa Datafolha divulgada no ano passado mostrou que a violência já era apontada por 16% dos brasileiros como o principal problema do país, atrás apenas da saúde e à frente da economia.

O Congresso Nacional também ampliou a discussão sobre o tema. Neste ano, parlamentares aprovaram a chamada Lei Antifacção, que criou o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado.

A legislação inaugurou o conceito de “domínio social estruturado”, expressão usada para caracterizar o controle territorial exercido por organizações criminosas em diversas cidades brasileiras.

Um dos relatórios que embasaram a proposta afirmou que o país vive uma realidade de “sociedade refém do medo, em que o cidadão comum vive encurralado entre o domínio de grupos infratores e a limitação operacional do Estado”.

O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, afirmou que a nova pesquisa buscou aprofundar a compreensão sobre o impacto do crime organizado na vida cotidiana da população.

“Em 2024 e 2025 nós perguntamos sobre a presença explícita de facções ou milícias na região onde as pessoas moram. Mas a gente percebeu que essa informação precisava ser qualificada”, declarou.

Segundo ele, o novo levantamento mostra que o país enfrenta um processo de consolidação do poder dessas organizações.

“A gente tem que reconhecer que o Brasil vive um momento de consolidação criminal, com um conjunto de organizações que têm controlado territórios, mercados, e sobretudo regulado a vida da população”, disse Lima.

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