Dark Horse: produtor nos EUA nega entrega de documentos à PF

Polícia Federal quer documentos bancários, fiscais, societários e contratuais para rastrear recursos destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro

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A tentativa da Polícia Federal de aprofundar o rastreamento do dinheiro usado para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), encontrou um obstáculo nos Estados Unidos. Um dos produtores da obra orientou que documentos da empresa mantidos em território americano não sejam entregues diretamente às autoridades brasileiras sem uma ordem da Justiça dos EUA.

A orientação consta de um e-mail anexado à investigação sobre o financiamento do longa, que tem entre os investigados o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A PF busca documentos societários, bancários, fiscais, contábeis e contratuais para esclarecer a origem e o destino dos recursos movimentados para a produção.

Michael Davis, que se apresenta como sócio majoritário da Go Up Entertainment LLC, enviou a mensagem à produtora Karina Ferreira da Gama em 2 de setembro.

Produtor exige ordem de juiz americano

No e-mail, Davis afirma que recebeu orientação de seus advogados nos Estados Unidos para não autorizar o envio direto de documentos às autoridades brasileiras.

“Conforme orientação de nossos advogados nos Estados Unidos, informo que, na minha condição de sócio majoritário da GOUP Entertainment LLC, não autorizo o encaminhamento, às autoridades brasileiras ou a quaisquer terceiros, de documentos societários, contábeis, fiscais, bancários ou contratuais da empresa custodiados nos Estados Unidos sem a estrita observância do devido processo legal norte-americano”, escreveu.

Segundo Davis, qualquer solicitação brasileira envolvendo informações mantidas sob jurisdição americana deveria passar pelos mecanismos formais de cooperação entre os dois países.

Ele citou instrumentos como carta rogatória ou pedido de assistência judiciária mútua e defendeu que a eventual entrega dos documentos ocorra somente mediante ordem de um juiz dos Estados Unidos.

PF havia dado dez dias para resposta

A solicitação da Polícia Federal havia sido encaminhada a Karina em 19 de agosto. A corporação estabeleceu prazo de dez dias para o fornecimento das informações.

Em 2 de setembro, Karina encaminhou o ofício a Davis e solicitou ajuda para preparar a resposta. Foi nesse contexto que o produtor apresentou a orientação para que os dados não fossem enviados diretamente à PF.

A troca de mensagens passou a integrar os autos do inquérito sobre “Dark Horse” e tornou-se pública após a retirada do sigilo de procedimentos relacionados às investigações do Banco Master.

PF tenta seguir caminho do dinheiro

Os documentos solicitados são considerados relevantes pelos investigadores para reconstruir o caminho dos recursos destinados à produção do filme.

A PF pretende identificar a origem do dinheiro, como os valores circularam e quem foram seus beneficiários finais. Entre os materiais buscados estão contratos, comprovantes de transferências, instrumentos de câmbio, notas fiscais e documentos societários.

A investigação financeira ganhou nova dimensão com a identificação de recursos relacionados ao fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Segundo relatório da PF, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou sete remessas da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, totalizando US$ 12,33 milhões. A corporação relaciona esse fluxo financeiro ao financiamento de “Dark Horse”.

Um acordo localizado no celular de Vorcaro previa um investimento ainda maior: US$ 24 milhões, divididos em 14 parcelas.

Flávio Bolsonaro é investigado

Mensagens analisadas pela PF também indicam que Flávio Bolsonaro acompanhava as tratativas para obtenção de recursos para o filme.

Em outubro de 2025, quando a produção já estava em andamento, o senador procurou Vorcaro e afirmou que o projeto estava “no limite”. Segundo a investigação, Flávio pediu que o banqueiro avisasse caso não conseguisse realizar novos aportes para que fosse possível procurar “outro caminho”.

Em outra mensagem revelada pela investigação, Vorcaro afirmou que dava “prioridade total” aos pagamentos e escreveu: “Apesar de qq tempestade, vou até o fim com isso”.

Flávio Bolsonaro é investigado no STF desde 22 de julho, quando o ministro André Mendonça autorizou a abertura do procedimento vinculado às apurações relacionadas ao Banco Master.

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